13.7.15

O primeiro atropelamento a gente nunca esquece

Das pequenas violências urbanas a que estamos contingencialmente submetidos, posso me considerar digno de um cartão de fidelidade para a modalidade assalto. Ok, que ser vítima de quatro assaltos em toda a vida até o momento, um a cada 11 anos, não chega a ser uma frequência tão grande assim, mas combinemos que em um mundo que se pretende civilizado e que deveria ser seguro, é uma taxa muito alta.

Mas há outras modalidades desse tipo de violência e que, em algumas delas, podemos cada um de nós ser o protagonista no papel de vilão, com ou sem culpa. É o caso do atropelamento. Quando isso ocorre pela primeira vez, é um acontecimento e, por menor que seja, é acompanhado de uma grande carga dramática.

Essa semana “debutei” nessa modalidade no papel de vilão, ainda que, por minha atitude de querer fazer valer os direitos do pedestre, já me envolvi em situações de risco real de ser atropelado em faixa de pedestre, um deles quase atropelamento quando me joguei por cima do capô de um carro para não ser atingido nas pernas em uma faixa de pedestres perto de casa. Mas não considero um atropelamento de fato porque o motorista parou a tempo e eu me projetei sobre o capô como medida de segurança; se não tivesse feito isso, provavelmente o carro teria apenas encostado em mim.

Quanto a atropelador, na realidade já tinha passado por essa experiência, mas não a considero, porque foi o atropelamento de uma pomba. Sempre evitei atropelar pequenos animais, claro, mas há muitos anos transitava por uma rua na região do Brás, em São Paulo, a uma certa velocidade um pouco acima dos 40 km por hora quando uma pomba, de tantas outras naquela rua, não conseguiu voar e ouvi o barulho do seu pequeno corpo passando por baixo das rodas do carro. Olhei pelo retrovisor a tempo de ver suas penas esvoaçando pela traseira do carro. A cena das penas esvoaçando me pareceram tão boas que não consegui ficar com dó da pomba, também por ser um animal com característica de praga urbana, ainda que haja controvérsias. Mas eu já presenciei, em duas ocasiões que me lembre, pequenos pássaros se chocando contra o para-brisa do meu carro em estradas e fiquei muito chateado. Outra vez, em uma estrada vicinal de Mauá, a caminho de Suzano, um grande rato de repente cruzou a estrada correndo. Meu impulso imediato foi frear e desviar dele, o que consegui com sucesso. No momento em que esses eventos se dão, nosso instinto de preservação de um ser vivo fala mais alto e, mesmo sendo um rato, a primeira reação é tentar não feri-lo. Engraçado isso.

Vamos ao atropelamento em si.

No feriado da consciência negra fui com o Felipe ao “Ipiranguinha”, uma praça em Santo André. Depois de um bom tempo lá, a noite tinha começado a cair, resolvemos ir embora. No caminho ele me disse que queria passar no Parque Central. Feriado, não tinha porque negar o pedido do meu caçula. Desviei o caminho e fui para lá. Chegando ao parque, o estacionamento estava meio vazio e, bem ao lado da entrada, havia 2 vagas vazias. Pela lei do menor esforço, resolvi estacionar na primeira vaga, a de fora. Como tenho o hábito de estacionar de ré, parei o carro e, bem lentamente, afinal não havia pressa, fui dando ré enquanto olhava pelo retrovisor direito para deixar o carro alinhado na vaga. Foi quando ouvi gritos. 

Tudo fui muito rápido. No primeiro instante, os gritos poderiam ser qualquer coisa, de forma que não parei o veículo. Mas, no instante seguinte, ouvi o guardador de carros do estacionamento correr em minha direção e gritar “Para!” Parei enquanto ouvia o choro de uma criança. “Vem pra frente!” Desengatei a ré e acelerei. Parei, bastante assustado, e uma imagem funesta atravessou minha mente: uma criança em um velocípede embaixo do meu carro. Abri a porta, saí e corri em direção ao aglomerado de algumas pessoas em volta de uma garota de uns 10 ou 11 anos. Por um instante começaram a gritar comigo e a me insultar: “Você atropelou a menina!” Por um momento achei que o guardador viria em cima de mim. Eu disse: “Gente, eu não vi nada! Onde vocês estavam?” Mas ninguém me respondeu, porque o objetivo era atender a menina.

Para encurtar a história, coincidentemente vinha para o estacionamento uma senhora que, pela sua atuação, me fez crer ser uma médica ortopédica ou ter conhecimentos de ortopedia, pois ela tomou conta da situação, desaconselhou o que estavam fazendo com a garota e, muito calmamente, fez tudo o que era necessário para constatar que talvez nem fratura tivesse ocorrido. A roda do veículo tinha passado sobre o dedão da garota. Nada mais que isso. Obviamente que deve ter doído bastante, ela chorou, estava nervosa, mas depois de alguns minutos, após fazer várias verificações, a suposta ortopedista lhe perguntou: “De 0 a 10, sendo zero ‘não dói nada’, 10 ‘dói muito’ e 5 mais ou menos, que pontuação você dá?” E apertou o dedão da menina: “Dois”. Ela sorriu e disse: “Acredito que nem fraturou, como eu havia pensado inicialmente. O inchamento é normal; se não parar de doer em algumas horas, levem ela ao hospital, mas não deve ter acontecido nada”.

Depois de passada a confusão inicial, tanto o guardador e um senhor que parecia ser o pai da garota, comentaram comigo, em tom de desculpa: “Você não tem culpa, você não viu.” As mulheres que estavam no grupo nem olharam na minha cara. Na realidade, em vez de caminharem pelo espaço dos pedestres, eles resolveram cruzar pelo meio das vagas dos carros e, como estava meio escuro, não os vi. Quando comecei a dar ré, acredito que eles se deram conta que eu estava estacionando e não tinha visto que vinha gente se aproximando da vaga onde eu iria estacionar. Como eu estava olhando para o outro lado, naturalmente não vi. Possivelmente, acreditando que eu pararia, ainda que estivesse bem devagar, eles continuaram caminhando. Foi quando eu atropelei o dedão da garota. 

Saí de lá com a consciência tranquila de não ter feito nada errado, afinal estava estacionando bem devagar, na vaga de automóveis, no espaço que, antes de eu fazer a manobra para estacionar de ré, estava vazio. Eu não tive culpa se os pedestres resolveram ignorar o espaço para eles caminharem e resolveram cruzar pelo meio dos carros. Quando se ignoram as regras de segurança, colocar-se em uma situação de risco é a consequência: foi o que eles fizeram. Mas não posso deixar de dizer da sensação extremamente desagradável de ter vivido uma situação desse tipo de violência urbana, ainda que eu não tenha sido o responsável (ou o maior responsável) pelo acidente, justamente pela atitude no início, das pessoas gritando comigo e algumas até me insultando, e pelo fato de que a suposta ortopedista, a suposta mãe da garota e outras mulheres presentes, terem ignorado totalmente minha presença, meu esboço de tentativa de ajuda, talvez porque me viram como “o cara que atropelou a garota”, ignorando totalmente o fato de que tudo aquilo aconteceu porque eles se portaram de maneira incorreta, colocando em risco a integridade física deles mesmos. Foi uma sensação realmente estranha. Senti como se eles tivessem me acusado de ser um irresponsável atropelador, quando na realidade quem criou a circunstância de atropelamento foram eles mesmos, já que vinham de um ponto cego do meu momento de manobra e se dirigiram justamente para a vaga que eu estava estacionando, em vez de caminharem na via de pedestres.

Por fim, não menos interessante, ao voltar para o carro, o Felipe estava assustado e, sacando o que aconteceu, desistiu de ir para o parque. Manobrei e abandonei o estacionamento. Choroso me dizia que não conseguia esquecer o ocorrido e, numa determinada altura, me disse: “Pai, você bebeu vinho! Você está bêbado!” Eu ri para mim mesmo e lhe respondi: “Não, Felipe, eu não bebi vinho; se tivesse bebido, realmente não poderia dirigir”. Fiquei contente ao perceber que, mesmo aos 6 anos, ele já tem essa consciência. De alguma forma, a educação que ele vem recebendo, tanto em casa quanto na escola, estão funcionando nesse aspecto.
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

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