20.7.15

o autodidata

há pelo menos 3 tipos de autodidatas. o gênio, aquele que simplesmente sabe. o esforçado, que lê manual, livros, pesquisa no google e então executa. e o preguiçoso, que se auto intitula intuitivo, mas na verdade é porque não é gênio e não tem vontade de estudar tanto.

ao menos uma coisa é comum aos 3 tipos, a necessidade de colocar em prática aquilo que aprende (ou está em fase de aprender).
enquanto o gênio… Bom gênio é gênio, ele simplesmente sabe. nem para para entender de onde sabe, vai lá e executa. é gênio. sujeito chato. deixa ele para lá.
o esforçado se cerca do máximo de conhecimento e certezas para aí então  partir para a prática. é um sujeito metódico. e medroso, diga-se.
já o intuitivo, ou preguiçoso, não liga de correr riscos, é um ser aventureiro. a intuição exige isso. nem sempre (quase nunca) ele vai colocar na prática aquilo que já domina. na verdade, o intuitivo vai justamente aprendendo enquanto pratica, este é seu processo de auto aprendizagem. sujeito corajoso.

eu sou intuitivo. preguiçoso. sou ué.

chega aquela tv nova e o que faço? bato olho no manual, que é chato, quase sempre em preto e branco. chato. deixo de canto, pego o controle e saio fuçando. com celular, computador e qualquer outra coisa que tenha mais do que uma função.

já meio que apaguei nosso primeiro computador, um 386, porque entrei no setup (tinha aprendido um dia antes, era só apertar F9 na iniciação) e fui alterando alguns parâmetros. fiz besteira, deixei meu pai puto e perdemos tudo o que tínhamos no nosso potente computador. faz parte.

mas essa minha mania vem de muito antes. 

eu estava na 2a-Série do 1o grau, aprendendo a escrever direito, textos mais complexos. me lembro bem, era a professora hélide. aula de língua portuguesa, exercício de ditado. ainda existe isso? acho que sim né.
ditado era legal, silêncio na sala, ouvidos atentos à leitura da professora, a qual deveríamos todos transcrever no caderno. era a 2a-série, então a professora ditava até a pontuação. 

"ponto final,na outra linha, parágrafo e travessão"
" - Joãozinho (vírgula) pegue sua bola e venha para casa (ponto final)"

outra característica do autodidata é ser curioso. dias antes do dia do ditado, eu havia visto, sabe-se lá onde, um texto qualquer onde achei uma vírgula engraçada. ela tinha um pingo em cima. 
para que serve? quando uso? qual a diferença? não sabia. mas descobriria em breve.

a cada vírgula ditada pela professora hélide, eu lá metia um ponto-e-vírgula. todo satisfeito. 
'aposto que sou o único que conhece essa vírgula com pingo'.
e assim foi, a professora ditava ',' e eu transcrevia ';'.

acabado o ditado, todos destacam a página do caderno, com o devido nome anotado, e passam as folhas, da última carteira à primeira e o primeiro da fila levava à professora. eu era o primeiro da minha fila, logo, meu ditado ficara em cima de todos.

a professora começa a corrigir, um por um, e eu lá na minha carteira percebo caretas, gestos de estranhamento, cara de interrogação.

'evandro, venha cá'. 

gelei a espinha. essa é outra característica do intuitivo (ao menos é a minha, até hoje), ao perceber que possivelmente fez besteira, a espinha congela, de baixo para cima. chega a cair uns 3 graus na sala.

lentamente me levanto, caminho com passos pequenos, trêmulos, até a mesa da professora, que ficava pouco mais de 1 metro da minha.

'evandro, porque você usou ponto e vírgula ao invés de vírgula?' perguntou ela, complementando com 'eu ainda não ensinei quando se usa ponto e vírgula'.

fiquei mudo, não sabia exatamente o motivo, apenas tentei.

'está tudo errado', disse em voz baixa, para si mesma, pensando o que faria para me dar uma nota. 
vale destacar que eu era um bom aluno, queridinho da professora, da turma da frente, inteligente até. não do tipo que ganhava apenas 'A', mas que raramente descia do 'B'.

bem verdade que naquele dia, naquele ditado, seguindo as regras de correção, eu teria tirado um 'F'. mas a professora levou em conta meu histórico, eu acho.

ganhei um 'C' e um aviso, 'não use o que ainda não aprendeu a usar'.

digamos que eu aprendi mais ou menos essa lição.
__________
ev melo
aprendo; logo existo.

Um comentário:

  1. Nossa, muito bom!!
    Eu sou com certeza o intuitivo tambémas. Na verdade, creio que somos uma geração de intuitivos.
    O lado bom que é a coragem, arriscar, "ver no que dá", "botar a cara no sol", faz mais sentido pra mim do que o lado ruim que é o cair, a decepção, ter que fazer de novo, pois todas essas características do lado ruim te levam ao aprendizado, te trazem experiência.
    E convenhamos que aprender com a vida tem muito mais tempero do que aprender com o Google.

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