2.5.15

artista presente

A arte é a única forma de comunicar que se basta em si. Explico, enquanto qualquer outra forma de comunicação só estará completa se de fato houver uma ligação clara entre o comunicador e o público. Um texto jornalístico só fará sentido se o público compreender o que ele está passando. Um discurso de um político, só tem sucesso se o público se sentir por ele influenciado. Uma piada só sem razão se provocar o riso.

Mas não com a arte. A arte basta-se em si. 
Um quadro de Picasso para uns não passa de traços sem perspectiva. Para outros é a mais pura forma de beleza. Mas os traços de Picasso se bastam em si. Não entendeu o que o artista quis trasmitir com aquela tinta sobre tela? Não importa, o fato de você ter parado em frente ao quadro e chegar a esta dúvida, bastou.

Tentar enxergar a arte com o mesmo olhar que vemos a vida comum, o cotidiano, é o que produz comentários inadequados rebaixando o que não se pode alcançar.

O poeta Manoel de Barros, escreveu:
“A expressão reta não sonha.
Não use o traço acostumado.
A força de um artista vem das suas derrotas. 
Só a alma atormentada pode trazer para a voz um formato de pássaro.
Arte não tem pensa:
O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo.”

O artista transvê o mundo. É preciso artistas.

Tempos atrás me chamou a atenção a matéria de algum jornal sobre a exposição no MoMA (Museum of Modern Art) em Nova York de uma artista que se sentaria 7 horas por dia em uma cadeira, tendo à sua frente outra vazia que poderia ser ocupada por pessoas que assim quisessem.
Achei aquilo uma baita falta do que fazer. Sentar numa cadeira e só? Pensei. Era o que meu olho via. Desconhecia a vida e obra da tal artista. Não procurei entender o sentido daquela obra. Apenas vi e reclamei.

Pois a vida colabora para que eu não seja um completo idiota (idiota já basta, não precisa ser completo), e passando os canais da TV, já tarde da noite de uma sexta-feira de feriado, vi o início de um documentário no GNT, chamado 'Artista Presente'. Pausei o controle remoto no encosto do sofá e resolvi assistir.
O documentário contava a vida de Marina Abramovic, a tal da artista que eu chamei de desocupada. Marina é Youguslava, uma artista performática, que usa a si mesmo para expressar. Ela é sua própria obra.
Marina é iluminada, pessoa bela, interessante, cheia de história e vivência. Daquelas que eu passaria tempos conversando, ou melhor, ouvindo.
Marina transvê o mundo. É preciso Marinas.

O documentário apresentava suas maiores obras e culminava na apresentação do MoMA onde ela sentaria em uma cadeira e encararia um por um, os que sentassem à sua frente. 

Uma multidão se formava em volta daquela obra onde a artista estava presente, onde a artista era a obra. Uma fila enorme se formava para sentar e ter o dedicado olhar da artista.
E que olhar. É preciso olhar.

A cada nova pessoa, o mesmo ritual. Marina abaixava lentamente a cabeça, levava as mãos aos olhos, como quem desfaz de seus preconceitos, eleva a cabeça e olha, como nunca olhara antes, para a pessoa em sua frente. E ficavam o tempo que fosse preciso. 
Alguns riam, alguns olhavam apenas curiosas, outros deixavam lágrimas rolarem. Olhares alegres, tristes, curiosos, cada olhar uma vida, cada vida uma história. Ninguém saía dali da mesma forma como entrara.

Marina transvê o mundo.
__________
Ev Melo
Transvendo o mundo.