20.4.15

Centro cirúrgico

E aí, do nada, você é levada do quarto, numa cadeira de rodas, vestindo apenas uma capa que amarra atrás, protetores para os pés, e touca na cabeça. Ah, já ia esquecendo: eles colocam um lençol sobre você com o intuito de lhe deixar mais confortável, mas todos sabem que isso não é possível.

 

Antes, no entanto, você se preparou para este momento: vai embarcar no que lhe parece ser a melhor opção para sua saúde. Seu caso não é de vida ou morte, ainda. Mas caminha para ser. Então, , você pensa, se Angelina Jolie pode tirar os seios para evitar um câncer que sequer sabe se vai ter um dia, você também pode tratar-se preventivamente e garantir um futuro (próximo) mais saudável.

 

Os médicos lhe indicaram, você pesquisou tudo, a família e amigos (a maioria) apoiaram. Tudo certo.

 

Até porque, você pondera, caso algo aconteça, você não é do tipo que tem medo da morte. Não, ao contrário. Já chegou a desejá-la, inclusive. Hoje acredita apenas que ninguém vai embora antes da hora. Tudo certo.

 

Você pesquisou, analisou os prós e todos os contras, tudo o que pode dar errado (aquela lista enorme), conseguiu os laudos necessários, assinou todos os termos, autorizou-os a fazer transfusão de sangue, caso necessário fosse. Mas espera: você já tinha lido algo sobre necessidade de transfusão num procedimento destes? Não, parece que não. Mas deve ser hipotético, claro que sim. Os médicos precisam resguardar-se, afinal. Assina e entrega. Tudo certo.

 

Em menos de uma semana, a cirurgia.

 

Alguém muito próximo lhe pergunta num tom de lamento já há muito conhecido: "você tem certeza que é isto que você quer?" . Você, segura que está: "claro que sim! Mas... por que a pergunta?" Lá no fundo, você sabe que não deveria perguntar, mas está deveras curiosa para saber se há algo que você mesmo não está ponderando, embora lhe pareça impossível, depois de tantas conversas com operados que estão aí para contar a história. E como resposta, vem um "Porque sim." E você respira aliviada por não ter que se justificar ao menos para esta pessoa.

 

Um dia antes, você inicia o preparo indicado pela equipe médica - pela segunda vez, já que a cirurgia fora adiada por uma semana - e no dia seguinte, sem muita mobilização, interna-se logo cedo. 

 

Agora está você e sua acompanhante conhecendo o quarto onde ficará, a TV, os canais disponíveis na TV a cabo... Até que chega o momento da primeira sentença desta história: Você é levada.

 

Apenas um "vai com Deus" naquele velho e conhecido tom de lamento e fecha-se uma porta atrás de sua cadeira.

 

Você não conhecia essa sensação: a de ser levada por um desconhecido, para algo mais desconhecido ainda. Sequer a de ser levada você se lembrava.

 

Neste momento, você já não é mais o dona de si, já não dita as regras, já não indica o caminho. Você apenas precisa confiar em alguém que você nunca viu antes. Você não faz idéia do que encontrará e nem do que se sucederá na sequência. 

 

Você é 'estacionada' num local onde estão, aparentemente, pessoas na mesma situação que você, e outras que já passaram por seus procedimentos e estão sob supervisão. 

 

Os que esperam, como você, são chamados para seus destinos, e outros chegam, e vão-se também. 

 

E aí é que tudo começa. Numa fração de segundos, toda a segurança, todo o conhecimento sobre o procedimento e os dias que se seguirão, toda a força que lhe é característica... Tudo desaparece. Você se vê ali, vulnerável como nunca esteve e a ponto de ser levado pela anestesista que se apresentara minutos antes. Essa senhora alta e de voz imponente vai simplesmente te apagar. É nesta hora que começam os famosos "e se..." E se você tiver alergia à anestesia? E se você não voltar da anestesia? E se suas veias nada legais resolverem não aparecer quando necessário receber medicamentos? E se você tiver aquela complicação pós cirúrgica que pode causar infecção generalizada? 

 

Muitos outros "e se..." começam a surgir em progressão geométrica enquanto você tenta inutilmente evitar o pior deles: "e se você morrer"? O que lhe vem à cabeça de imediato é: "minha mãe e meu cachorro precisam de mim. Eles não estão prontos." E pela primeira vez admite: "eu não quero morrer." E como se não bastasse o turbilhão de emoções que te assombra enquanto você balança a perna direita freneticamente, um sentimento velho conhecido seu dá as caras: a culpa. Você sente culpa por ter procurado e ido com seus próprios pés a uma situação que lhe coloca, fatalmente, diante de uma possível morte, provavelmente precoce.

 

Não há nada, não há ninguém. Apenas você. E neste momento, você faz algo que aprendera com aquela que lhe espera voltar em algumas horas. Você ora. É só você e seu Deus. Você, na versão mais pura possível, sendo quem você realmente é. Você ora e pede paz. 

 

Algum tempo depois alguém te acorda do seu cochilo para então entrar no centro cirúrgico que está, finalmente preparado para te receber.

 

Você decide que pode ir andando até a sala, e deitar-se sozinha naquela mesa um tanto desconfortável. 

 

E então , depois de muito tempo, você é colocada para dormir. E o mais legal é que as horas que se seguem, jamais serão por você conhecida. Mas é certo que você voltará de lá para contar essa história.

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Pri Ferminio

13.4.15

a tal da terceirização

A pauta agora é terceirização. Certo?
Todos falando nisso. É assim, surge o assunto do momento e todo nos sentimos na obrigação de opinar. 
Mas neste tema, eu tinha pouco conhecimento; Como opinar? A princípio eu era a favor. Afinal, o que há de errado em terceirizar a mão de obra num país onde os direitos trabalhistas são tão complexos e caros? Certo?

Eu mesmo trabalho com vendas de terceirização de datacenter, o tal outsourcing, hosting. Explicando melhor, a empresa ABC faz parafusos. Para comercializar seus parafusos precisa além de maquinário, ferramentas e matéria prima, de sistemas de gestão que por sua vez demandam servidores que por sua vez demanda um datacenter... Tudo isso para gerir seus negôcios, emitir notas fiscais, otimizar processos etc. Tudo isso demanda tecnologia, que não é o foco da ABC. Então é aí que entram meus serviços, a ABC nos contrata para sermos o braço da tecnologia (TI) deles. Ou seja, terceirizam algo que não é foco, é complexo, porém é essencial, e assim podem cuidar de fazer mais e melhor seus parafusos.

Seguindo este raciocínio, é justo que as empresas queiram terceirizar sua mão de obra para uma empresa de RH, por exemplo. Voltando para a ABC parafusos. Seu produto é parafuso e para produzir parafuso se faz necessário pessoas, e essas pessoas demandam um grande foco burocrático para que tudo fique dentro da lei. Impostos, leis trabalhistas, recrutamento, demissões... Complexo.
A ABC parafuso então chama a empresa especializada em RH, a XYZ, que fica responsável por toda essa gestão da mão de obra. A ABC fica portanto com o core business, os parafusos.

Parece tudo correto, certo? Não num mercado pouco confiável, que se faz valer do imediatismo e da falta de ética para angariar lucros exorbitantes. Não num país pouco sério como o Brasil.

Imaginemos que a ABC parafusos, tenha um quadro de 1000 funcionários. São mil famílias dependendo deste emprego e asseguradas pelas leis vigentes. A ABC tem de estar dentro da lei (ok, não quero tratar das excessões aqui), ao demitir um funcionário, por exemplo, ou ao garantir recolhimento de impostos que venham a beneficiar o empregado posteriormente, etc.

A empresa de RH XYZ também precisará garantir o mesmo. Até aqui tudo bem. O problema é a falta de regras para a contratação de empresas como a XYZ. Quanto tempo de mercado ela possui? Qual seu caixa, é suficiente para garantir o cumprimento e pagamento dos direitos de todos os trabalhadores em caso de demissão em massa? É uma empresa idônea? 

O que já ocorre na prática são empresas de fachada, recém criadas para atender exclusivamente a uma empresa e que não tem a seriedade para cuidar de seus funcionários. O que acontece são empresas como a XYZ fecharem as portas, os sócios fogem com tudo e os funcionários ficam sem ter a quem recorrer.

O que hoje já ocorre para as funções 'meio'. Hoje porém, pela falta da lei da terceirização, a empresa contratante pode responder por vínculo empregatício entre outros. Com a tal lei, não mais.

É dar um salto grande demais em um mercado mesquinho e um país pouco sério.
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Ev Melo
Alguém que provavelmente está redondamente equivocado. Ou não.

5.4.15

Maus: A história de um sobrevivente

Escrevo esta resenha (ou quase isso) com 20 anos de atraso. A primeira parte de MAUS foi lançada no Brasil em 1986 e a segunda em 1995, mas eu, que sempre gostei, li e colecionei quadrinhos, em especial as grafic novels, só fui comprar e ler MAUS agora, em 2015.

Acho que fiz bem. Não que tenha sido intencional o atraso na leitura, mas creio que agora, aos 33, tenha apreciado mais a densa história do que se tivesse lido aos 14.

No livro, Art Spiegelman conta, em quadrinhos, a história real de seu pai durante a 2a Guerra Mundial. E contando a história de seu pai, conta a de milhares de judeus que sofreram, morreram, sobreviveram no holocausto.

O livro é excelente pela história e pela forma como Artie escolhe contar. Através de entrevistas com seu pai, vai montando a história ao mesmo tempo que a vai compreendendo. Hora mostrando o pai na época da guerra, hora ilustrando a si mesmo durante as entrevistas. Isso torna tudo ainda mais denso, mais verdadeiro e mais empolgante.

Sem apelações exageradas, todo o horror da guerra é colocada em arte, com os judeus ilustrados como ratos, alemães como gatos, poloneses como porcos e americanos como cachorros.

Corajoso é um adjetivo que expressa bem esse trabalho. Artie conta a história sem medo de mostrar sua relação difícil com o pai, a falta que sente da mãe que se suicidou quando ele ainda era pequeno, e de suas tristezas. Não se deixa tentar em fazer um trabalho pendurado em clichês ou de sentir demaseada pena de seu povo. Mostra todo o horror que envolveu a história sem poupar os próprios judeus. Como no episódio em que o pai, um senhor de idade, vivendo desde há muito tempo nos EUA, fica indignado quando Artie e sua noiva dão carona a um negro.

Vale a leitura, vale ter um livro como este na estante. Vale muito.
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Ev Melo



4.4.15

triste páscoa

Há cerca de 2015 anos atrás, nascia Jesus, o messias, o redentor do mundo. Há 1982 anos, morria crucificado Jesus, o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Cumprindo assim a profecia e sua missão, alguém puro e único como nunca houve nem haverá, se entregou à morte, e morte de cruz, para salvar o mundo.

Mais importante que o Natal, nascimento de Cristo, é a Páscoa, para os que assim crêem em Jesus (claro). 
É na Páscoa que devemos simbolizar o real sentido do Natal. Não é no nascimento, mas sim na morte, que devemos celebrar nossa redenção. Obvio, ninguém morre se não nasceu antes, mas você entendeu.

E é justamente a Páscoa a data festiva mais usurpada e desconfigurada que temos no calendário cristão. 
Triste.

Destruímos o Natal também, verdade, com a figura do papai noel e tudo mais, mas ainda há presépios, ainda se fala do menino jesus, reis magos, etc. Ainda fingimos que trocamos presentes pois a tradição se iniciara com os presentes ganhos pelo menino Jesus.

E a Páscoa? Salvo a tradição católica (muito bonita por sinal) que ainda mantém atos simbólicos da morte até a ressurreição, de resto é uma confusão em filas de supermercado para comprar ovos de chocolate trazidos pelo coelhinho da páscoa!
Ovo, de chocolate, coelhinho, páscoa!! Ok, você entendeu.
Triste.

Poderia para este texto por aqui, mas vou além. Tem algo ainda mais perturbador e triste na Páscoa. 
É perceber que os cristãos, sobretudo os ditos evangélicos que dominam a mídia e boa parte da massa, se assemelhem muito mais com os fariseus, os escribas, os religiosos, aqueles que mataram o Cristo, do que com o próprio cordeiro morto pelos pecados do mundo.

É de doer na alma assistir a bancada evangélica ganhando espaço no congresso e sendo liderada por gente como Eduardo Cunha, Feliciano, e afins. Ver aplaudirem as presepadas de Bolsonaro e cia.
É ter em gente como Malafaia (argh), a figura de um representante do cristianismo.
Triste.

Esses, se lá estivessem no ano 33, estariam cuspindo, chicoteando, condenando e assistindo com orgasmos múltiplos a crucificação do messias.
Esses que insistem em usar as escrituras como armas para constranger e condenar.
Esses que ignoram quem foi Jesus, que se intitula Deus, que se intitula Amor. Jesus foi o próprio amor encarnado.

Triste ver que esses estariam levando menores infratores à presença de Jesus e ouvindo dele "atire a primeira pedra".
Triste esses buscarem tão somente nas letras verbalizadas o que chamam de verdade, a pautar suas condutas. Ignoram as entrelinhas, ignoram os atos, o jeito e as mensagens que Jesus não disse. 

Jesus escolhe se reunir na casa de plebeu. Jesus escolhe pedir água a uma mulher divorciada e ainda por cima Samaritana. Jesus se deixa tocar e se derrete a uma prostituta e vê nela beleza. Jesus condena religiosos e absolve a adúltera. Jesus transgride leis, como a de nada fazer no sábado. Jesus olha para o ladrão a seu lado na cruz e diz 'ainda hoje estará comigo no paraíso'. Jesus chama as crianças, as abençoa e alerta que quem não for como uma delas, não entrará no reino dos céus...
Jesus ora pedindo perdão ao Pai por seus algozes. 'Eles não sabem o que fazem'.

Triste constatar que pior que subverter um feriado santo para satisfazer a lógica capitalista, é notar nos próprios religiosos as principais características condenadas pelo Cristo.

Perdoe-nos Pai, não sabemos o que estamos fazendo.

(sim eu sei que o calendário não bate com a data real do nascimento de Jesus, mas você entendeu...) 
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Ev Melo