30.3.15

O assalto

Encontrei por acaso uma crônica que escrevi sobre um dos assaltos que já sofri. O assalto ocorreu em 2005, quando escrevi a crônica.

Eu mereço
Ou
Como conseguir um B.O. em 1347 baforadas alheias
Ou
O que a gente não faz por um pudim de milho...
Ou
Se eu encontro aquele frango de novo... mato ele!
Ou
Viver no meio da malandragem tem lá suas compensações
Ou
Alegria de pobre dura pouco

Quarta-feira. 20:00. Depois de várias páginas de livro e 5 conduções, 1 ônibus, 2 metrôs, 1 trem e outro ônibus (pegar no batente não é fácil...), estava em casa, olhando para a Flávia. Que cheiro estranho... Era a metade do falecido frango que ela iria preparar para comermos. Por algum motivo desconhecido, o freezer não conseguira manter o presunto com um cheiro agradável (frango quando morre também vira presunto?).  Em face a esse acontecimento e outro de igual relevância – a sogra havia feito um pudim de milho para seu genro preferido – resolvemos ir jantar lá. Aliás, meu cunhado não concorda que eu seja o genro preferido porque, segundo ele, o genro preferido é aquele que não aparece. Segundo esse raciocínio, eu sou o genro despreferido.

Como eu tinha que preparar um documento para enviar a um cliente e ainda deixar uma rotina de outro cliente executando via Terminal Services (um tipo de conexão remota a servidor), deixei meu notebook rodando a rotina e fui para a casa da sogra somente com a mochila de notebook recém-comprada e algumas coisas dentro, inclusive um livro que ia devolver ao cunhado.

Jantamos e, 21:30, resolvemos ir embora. Como a sogra estava gripada, não nos acompanhou até o portão. Eu saí, abri o portão, voltei com a chave, saímos, a Flávia, o Vítor e eu e tranquei o portão do lado de fora.

Tudo foi muito rápido.

De repente, surgidos do nada, eis que 4 indivíduos, liderados por um deles, nos assaltaram. O líder do grupo veio cheio de adrenalina:

- E aí, filho da puta, cê tá armado? Passa a chave do carro! Rápido, filho da puta!

Os outros ficaram mais próximos. Rapidamente, tomaram a chave do meu carro, minha mochila, a mochila do Vítor que estava com a Flávia e uma tartaruga de pelúcia que o Vítor carregava. Só não levaram o Snoop que o Vítor também portava. Ele explicou mais tarde o motivo: escondeu atrás do corpo.

Tão rápido quanto chegaram, pediram para que ficássemos de costas, entraram no carro e saíram cantando os pneus.

A Flávia chamou o pessoal que estava dentro de casa, o cunhado abriu o portão. Ela estava passando mal e, lívida e largada no sofá, foi atendida com um copo d´água preparado pelo cunhado, que antes, se deu ao trabalho de ligar no 190 para que eu pudesse comunicar o roubo. Prestíssimo e eficiente esse cunhado!

O Vítor, como seria de se esperar de uma criança de 5 anos, chorou assustado e rapidamente entendeu que se tratava de um assalto.

Em seguida a sogra-avó chegou da igreja e suspirou aliviada por constatar que não tinha chegado minutinhos antes. Quem sabe o que poderia ter acontecido...

O sogro, comunicado da “efeméride” pelo celular, rapidamente fechou seu ponto comercial em algum shopping da cidade e foi para casa o mais rápido que pôde, ou seja, em cerca de 30 minutos. Embarcamos eu e a Flávia – o Vítor ficou protestando porque queria ir também para ver os presos – e fomos até a delegacia da cidade.

Ah... tudo isso aconteceu na cidade de Mauá.

Bem, lá na delegacia, no centro da cidade, como não seria de se admirar, não fomos atendidos imediatamente. Eles estavam lavrando um flagrante com 3 envolvidos, um deles uma moça com uma barriga grávida de 8 meses. Um dos rapazes estava algemado. O outro não vi. Ela não. No máximo o policial pediu que ela ficasse encostada na parede com as mãos para trás. Imaginei que fosse um tratamento diferenciado em face à vida que se estava se desenvolvendo dentro dela. Um tratamento mais nobre, digamos assim.

Somado ao flagrante, um outro acontecimento de menor importância levou a escrivã de plantão sugerir que voltássemos no dia seguinte, já que, provavelmente, demoraríamos muuuuito para sermos atendidos: as fortes chuvas do dia haviam derrubado o sistema.

Tá bom. Fazer o que. Amanhã a gente volta. Embarcamos na caranga do sogro, gente finésima que, prontamente, ao regressarmos à sua casa, me emprestou o carro para que, no dia seguinte, voltasse motorizado à delegacia que fica muito mais próxima da casa dele que da minha.

Ah... eu moro em Santo André.

Voltamos para casa. Reparei que o carro do meu sogro, apesar de bem mais antigo que o meu, é mais mal educado: você pisa e ele responde mesmo! É um Escort 1.8. O motorzinho da caranga tá bom! Entre um detalhe e outro do acontecimento que repassamos umas 357 vezes no caminho de casa, chegamos.

Ah... eu também já tinha avisado ao porteiro do meu edifício que, se o meu carro chegasse lá, eles poderiam chamar a polícia, que eram os bandidos. Não esperava que os caras fossem tão loucos assim, mas nunca se sabe... Nos pertences que eles levaram estava meu endereço.

Ao chegar em casa, contamos o acontecido ao porteiro, que nos dias seguintes se encarregou de avisar a torcida do Corinthians, o que era de se esperar de um porteiro que se respeite. Até hoje tem neguinho no prédio perguntando: “Ah... vocês foram assaltados?”, apesar de já termos posto uma pedra em cima do assunto. Só pode ter sido obra e graça do porteiro.

Enquanto voltávamos, agradeci a Deus pela quase desgraça alcançada: não nos aconteceu nada. Só levaram os anéis. E também fiquei tentado, apesar de não ter tido cara-de-pau suficiente, a agradecer pelo incidente haver acontecido num momento tão propício: já havia 4 anos que eu comprara o veículo e está mais do que na hora de trocá-lo. Vendê-lo seria menos rentável que uma indenização do seguro por perda total, suponho. Portanto, que ótimo momento para ser roubado...

Ao chegar em casa, depois de mandar um e-mail para o cliente, justificando minha ausência no dia seguinte pois teria que correr atrás do B.O., quando me preparava para ir tomar banho... o telefone toca: “Sr. Obadias? Aqui é a PM. Seu veículo foi localizado!”.

Não acredito! Alegria de pobre dura pouco... 
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

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