21.1.15

O velório

Tenho poucas certezas nessa vida. Quando digo poucas, quero dizer quase nenhuma. Em se tratando de coisas tangíveis, do dia a dia, já me confundo. Já me peguei encarando o espelho e perguntando, será eu, eu mesmo?
Quando o assunto é o invisível, o intocável, o improvável do absurdo, aí é que tenho menos ainda. Mas para não parar mediante a tudo isso eu vivo de fé. A fé é meu combustível diário. Mesmo quando acho que estou de tanque vazio, quase na banguela, é a memória da fé que me leva adiante.

E das poucas, quase nenhuma, certezas que tenho das coisas da vida (terrena e sobrenaturais), levo comigo a certeza de que nos levamos a sério demais. Sério.

O próprio Cristo nos alertou disso, quando disse que o reino dos céus pertence às crianças, aos pequenos. Quem quiser entrar no céu, é preciso ser como um menino. Talvez essa passagem dos evangelhos seja subestimada por nos causar um certo desconforto. É difícil mexer em nossas certezas, afinal é mais ou menos isso que diferencia os homens dos meninos, a necessidade de ter certezas, de se levar a sério.

Mas que o mestre disse isso, disse.

Toda essa imensa, e séria, introdução é apenas para contar um causo real, presenciado por mim.
Era o velório do meu avô. Meu avô paterno, Seo Laurindo, o Vô Lindo, que partiu aos 86 anos.

Não sei bem porque, nem quando isso começou, mas não gosto de velórios e quando preciso ir a algum, não chego perto do caixão. Não consigo. E do meu avô não foi diferente. Me despedi meio que à uma distância segura para mim. Mas para meus sobrinhos de 7 anos (à época), isso não parece ser problema algum.
Eles quiseram chegar bem próximo ao caixão, era preciso até vigiá-los para não se empolgarem demais.
Minha avó Luiza, esposa do Vô Lindo, estava lá. Debilitada por seus 80 e tra-la-lá, usava uma cadeira de rodas para as distâncias maiores.

Passadas muitas horas de velório, chegara a hora de prestar uma última homenagem, em um culto a ser realizado na capela, próximo de onde ocorria o velório.
Minha vó Luiza foi caminhando, com ajuda de netos, pois a distância era curta.
Logo, a cadeira de rodas ficou lá, sozinha.

Os organizadores passaram comentando que chegara a hora do culto, para todos irem à capela e que levariam o corpo até lá. Usaram essa expressão, muito comum em velório, mas que sempre me causa estranheza, o corpo.

Foi quando o Pietro, um dos meus sobrinhos, veio agitado até a mim e disse:
- Tio Evandro, eles vão levar o corpo do vô até a igreja.
E apontando para a cadeira de rodas, continuou:
- Vão colocar ele na cadeira, imagina só, o morto na cadeira de rodas, vai ficar assim ó...
E imitou o que seria um corpo sem vida em uma cadeira, com a cabeça caída sobre os ombros.

Eu ri.

Depois expliquei que a cadeira não seria para ele. E ri de novo.

É assim, leve, sem muitas certezas e sem medo de errar que vivem os meninos. É assim, que creio que devamos ser para nos encontrarmos com o mestre.
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Ev Melo
Escreve reminiscências, para que elas não lhe sejam apagadas.

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