13.1.15

Je (nous) suis (sont) limite

Sempre fui um sujeito bem humorado. De fazer piadas e tirar sarro, iniciando por mim mesmo. Piadas onde eu mesmo me ridicularizo são vastas em meu repertório, tudo isso porque pra mim o humor é essencial para uma vida leve. Rir é bom.

A adolescência é uma fase onde se testam e se descobrem os limites, pra quase tudo, inclusive pro humor. Tirar sarro de um amigo pode ser bem divertido, mas em excesso, pode ser um trauma.
Já aguentei tiração de sarro sem nenhum problema, ria junto dos amigos, mas já me irritei profundamente (fiquei puto) com situações até menores, mas provocadas por pessoas que eu não havia liberado que me zuasse. Claro que essa liberdade eu dava e tomava, sem que ninguém soubesse em que lista estaria.

No colégio técnico, na sala com 40 alunos, a grande maioria eram homens. Apenas umas 6 meninas. O ambiente era hostil no que se referia ao humor. A mãe de ninguém ali era santa, tampouco as irmãs. Quem ousasse ter namorada naquela época, estava condenado. Chamávamos esses de sócios.
Um dia todos tiravam sarro de um carinha da sala que tinha uma namorada chamada Sílvia. Ele era grande e eu um pequeno imbecil. Visivelmente ele não estava aprovando as brincadeiras, mas bastou que eu cantasse a famosa música do Camisa de Vênus 'ôôô Silviaaa piranhaaa' que o carinha abriu um caminho inexistente entre as carteiras e me pegou pelo pescoço. Fui salvo pelos gritos da professora (sim ela estava na sala) e pelos amigos mais próximos que tinham tamanho para combatê-lo.

Naquele dia eu aprendi uma importante lição. O tal limite do humor. O limite do humor vai até onde o próximo aguenta e tolera. Quando este não tolera mais, ele responde de maneiras distintas. Uns se calam, uns se deprimem, outros revidam verbalmente e há os que agem com violência.

Não preciso nem mencionar que nunca mais brinquei desta maneira com aquele rapaz e que passei a tomar bastante cuidado com meu humor. Ou seja, coloquei limites nele.

Também já parti para a briga (da forma que eu podia) contra meu irmão, por exemplo. Eu aguentava piadas numa boa, mas do irmão é difícil hein. Me sentindo ultrajado, já joguei o que estava em meu alcança contra ele, numa fúria tão cega e burra, porque sempre havia o troco e ele era bem maior e mais forte que eu.

Aprendi então a dominar meus impulsos violentos e mesmo perdendo a calma, não demonstrar isso, ou demonstrar de uma forma pacífica. 

Em 2006, jornalistas da Noruega publicaram uma charge onde o profeta Maomé era ridicularizado. Isso é errado? Não, não é, a Noruega é um país livre que permite tal coisa. Viva a liberdade. Acontece que o mundo não é apenas habitado por pessoas dispostas a rir das situações, ainda existe e muito, os carinhas que irão agir com truculência. A baixada da Noruega, não me lembro em qual país, foi alvo de atentado, jornalistas foram mortos, houve bastante confusão. Alguém não considerou aquela piada engraçada; alguém julgou que o limite do humor fora excedido.
Em resposta à piada do jornal Norueguês, alguns muçulmanos radicais agiram com violência. Em resposta à essa violência, o grupo do Charles Hebdo agiu com mais sátiras, republicaram a tal charge dos colegas da Noruega e muitas outras.

Nada justifica a violência, nada. A liberdade é um direito de todos, incluindo a de imprensa e opinião. Em um mundo perfeito, viveríamos todos de bem. Acontece que o mundo é mau.

Então qual o limite do humor? Não há. Esse é o ponto. O limite do meu humor é o limite da paciência do meu próximo, mas o que dizer de um jornal, uma revista?

O humor é agressivo em sua essência. Qualquer piada, da mais boba que seja, é agressiva, pois está sempre denegrindo a imagem de alguém para provocar riso. E se alguém de nome João não gostar de piadas envolvendo 'Joãozinho'? O que dizer das piadas que envolvem homossexuais? E de Português, Argentino...etc

O humor como resposta, na minha concepção é sempre válido. Se em nome de qualquer que seja o deus mata-se quem é que seja ou comete-se absurdos, é válido que tenha reprovações ao redor do mundo, incluindo as reprovações em forma de charges, piadas, sátiras.
Se o humor, ao contrário, não responde mas antes ataca, há de se tomar cuidado, pode-se estar ultrapassando aquele limite que não existe ou que não é comum.

Não conheço tão bem o Charles Hebdo para saber se eles respondiam ou atacavam. Ou talvez, ambos.
O que não podemos é colocar na mesma medida terroristas e humoristas. Não dá.

Torço para um mundo onde possamos aprender a respeitar a liberdade tão bem quanto respeitar as posições.
Que o limite seja não atacar e também seja não retrucar com violência.

Não tenho muita fé nisso.
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Ev Melo
Um sujeito que pensa que pensa.

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