15.1.15

Humor e ofensa

Rir de si próprio é uma virtude. Rir dos outros nem sempre. O humor vive do riso. O humor é necessário em vários sentidos. Por exemplo, quando serve de contraponto à tensão da vida. Ele alivia. O humor também serve para denunciar a opressão, as injustiças. Esse caráter político do humor é fundamental.

É válido rir do outro quando o outro é o opressor, quando o outro é o poder que massacra, corrompe, que se utiliza de suas prerrogativas em benefício próprio. O humor pode ser uma arma muito poderosa para denunciar e expor tais agentes ao ridículo diante dos demais. Enxovalhá-los.

O humor é condenável quando se ri de quem está em uma situação de inferioridade ou que não detém o poder e é explorado. Esse tipo de humor é cruel, canalha. Soma-se, à exploração sofrida pela pessoa, a ignomínia do deboche. Feio. Nos dias atuais, a maior consciência desses desequilíbrios de força impulsionou as atitudes politicamente corretas e limitaram consideravelmente o limite do humor. 

Há outra forma de humor que é rir das nossas incoerências, deixando de lado um pouco essa questão das forças políticas. Esse tipo de humor, além de muito engraçado, nos lembra por vezes o quanto somos contraditórios, preconceituosos, inconsequentes. Eu gosto muito desse tipo de humor. É o que eu prefiro porque me parece muito muito divertido rir das minhas próprias mazelas e, muitas vezes, me enxergo nesse humor retratado.

As religiões se baseiam em muitas contradições, preconceitos e até mesmo exploração dos mais fracos pelos líderes. Natural que seja assim porque as religiões são expressões humanas. Então elas carregam dentro de si todas essas características. Portanto, não é de se surpreender que as religiões sejam rica fonte de material para sacadas humorísticas. Infelizmente, as pessoas tendem a achar que não se pode rir das religiões, como se as religiões devessem ser isentas de qualquer julgamento ou crítica. Some-se a isso fundamentalistas dementes, provavelmente corroídos por inveja do estilo de vida “pecaminoso” dos infiéis e com uma boa dose de sentimento de inferioridade. Porque, fossem religiosos equilibrados, teriam a grandeza de não se ofenderem com piadas. Aliás, não se espera de um praticamente religioso no mínimo a grandeza de espírito?

Enquanto houver seres humanos contraditórios, imperfeitos, problemáticos, haverá gente com dificuldade de saber qual o limite do humor e haverá gente com sensibilidade demais reagindo desproporcionalmente.
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

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