19.1.15

Abdução

O fim estava próximo. Disso ninguém tinha dúvida. A questão era quando. Alguns tinham certeza que era questão de meses. Para outros, os mais dramáticos, dias. Os últimos dias haviam sido muito estranhos, aquela sensação de que a vaca havia ido definitivamente para o brejo.  Dizia-se que o fim do mundo se daria quando os alienígenas chegassem e abduzissem a todos.

Ninguém mais saía de casa, com medo de ser alvo de um inesperado disco voador e desaparecer para sempre.

Era o seu caso também: estava trancafiado com seus parentes, paralisado. De repente, o impensável começa a ocorrer: um ruído muito forte no teto da casa, pedaços de teto se despregam e uma luz brilhante começa a invadir o cômodo. Gritaria geral. Cada um tenta se esconder onde pode, mas isso tampouco era possível porque sua casa estava apinhada de gente além da sua família: toda a vizinhança estava lá, hipnotizada pelos discursos apocalípticos que seu pai proferia com inigualável oratória.

Como não tinha para onde escapar, ele teve uma ideia insana: abriu a porta da frente e tentou correr. Conseguiu, até olhar rapidamente para o telhado da casa e enxergar aquela coisa enorme, tão brilhante que fustigava os olhos. A imagem o paralisou. Seus pés ficaram pesados, como que carregando os tambores aterrorizantes da Marcha Imperial de Star Wars que agora parecia zumbir na sua memória auditiva. As forças lhe faltaram. Taquicardia. Mesmo assim, ele se arrastou lentamente em direção à rua deserta, onde se podiam ver somente alguns postes solitários e as árvores com folhas tristemente olhando para o chão, naquele calor insuportável do sol a pino.

Aliviado por não ter sido notado, esgueirou-se escondido pelo muro até a esquina e, antes de atravessar a rua para tentar uma fuga desesperada para alguma direção incerta, criou coragem e olhou novamente para o telhado de sua casa e... surpresa! Peraí! Aquilo é um carro! Um carro antigo, quadradão, esquisito! Havia alguém dentro dele, movimentando umas alavancas como se aquilo fosse um trator. Ele não entendeu nada. Isso é uma alucinação? Ou a alucinação era antes? Por via das dúvidas, tomado de uma súbita valentia, encontrou um pedregulho, aproximou-se, mirou e o lançou. Ouviu o estalo do choque na lataria. O sujeito dentro do veículo, que tinha os vidros fechados, parou um momento, olhou para os lados, procurando o que ocorrera, e logo voltou a mexer nas alavancas, absorto e desinteressado do mundo lá fora.

O mundo não vai acabar!!! Que coisa boa! Pensou em voltar correndo para sua casa e dar as boas-novas aos parentes e vizinhos atônitos com a iminência de serem abduzidos para outra dimensão. Mas lhe ocorreu uma dúvida: e se não acreditarem? E se o último acontecimento lhes foi tão convincente na materialização de seus medos que eles julguem o surtado ser eu?

Deu de ombros, aproveitou uma súbita brisa setentrional que causara um lindo bailado nas copas das árvores sorridentes e começou a descer a rua, pulando e dançando sozinho, aproveitando que não era sempre que ela ficava tão vazia de veículos.
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

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