26.1.15

amora

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Ev Melo
Escreve reminiscências, para que elas não lhe sejam apagadas.

21.1.15

O velório

Tenho poucas certezas nessa vida. Quando digo poucas, quero dizer quase nenhuma. Em se tratando de coisas tangíveis, do dia a dia, já me confundo. Já me peguei encarando o espelho e perguntando, será eu, eu mesmo?
Quando o assunto é o invisível, o intocável, o improvável do absurdo, aí é que tenho menos ainda. Mas para não parar mediante a tudo isso eu vivo de fé. A fé é meu combustível diário. Mesmo quando acho que estou de tanque vazio, quase na banguela, é a memória da fé que me leva adiante.

E das poucas, quase nenhuma, certezas que tenho das coisas da vida (terrena e sobrenaturais), levo comigo a certeza de que nos levamos a sério demais. Sério.

O próprio Cristo nos alertou disso, quando disse que o reino dos céus pertence às crianças, aos pequenos. Quem quiser entrar no céu, é preciso ser como um menino. Talvez essa passagem dos evangelhos seja subestimada por nos causar um certo desconforto. É difícil mexer em nossas certezas, afinal é mais ou menos isso que diferencia os homens dos meninos, a necessidade de ter certezas, de se levar a sério.

Mas que o mestre disse isso, disse.

Toda essa imensa, e séria, introdução é apenas para contar um causo real, presenciado por mim.
Era o velório do meu avô. Meu avô paterno, Seo Laurindo, o Vô Lindo, que partiu aos 86 anos.

Não sei bem porque, nem quando isso começou, mas não gosto de velórios e quando preciso ir a algum, não chego perto do caixão. Não consigo. E do meu avô não foi diferente. Me despedi meio que à uma distância segura para mim. Mas para meus sobrinhos de 7 anos (à época), isso não parece ser problema algum.
Eles quiseram chegar bem próximo ao caixão, era preciso até vigiá-los para não se empolgarem demais.
Minha avó Luiza, esposa do Vô Lindo, estava lá. Debilitada por seus 80 e tra-la-lá, usava uma cadeira de rodas para as distâncias maiores.

Passadas muitas horas de velório, chegara a hora de prestar uma última homenagem, em um culto a ser realizado na capela, próximo de onde ocorria o velório.
Minha vó Luiza foi caminhando, com ajuda de netos, pois a distância era curta.
Logo, a cadeira de rodas ficou lá, sozinha.

Os organizadores passaram comentando que chegara a hora do culto, para todos irem à capela e que levariam o corpo até lá. Usaram essa expressão, muito comum em velório, mas que sempre me causa estranheza, o corpo.

Foi quando o Pietro, um dos meus sobrinhos, veio agitado até a mim e disse:
- Tio Evandro, eles vão levar o corpo do vô até a igreja.
E apontando para a cadeira de rodas, continuou:
- Vão colocar ele na cadeira, imagina só, o morto na cadeira de rodas, vai ficar assim ó...
E imitou o que seria um corpo sem vida em uma cadeira, com a cabeça caída sobre os ombros.

Eu ri.

Depois expliquei que a cadeira não seria para ele. E ri de novo.

É assim, leve, sem muitas certezas e sem medo de errar que vivem os meninos. É assim, que creio que devamos ser para nos encontrarmos com o mestre.
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Ev Melo
Escreve reminiscências, para que elas não lhe sejam apagadas.

19.1.15

Abdução

O fim estava próximo. Disso ninguém tinha dúvida. A questão era quando. Alguns tinham certeza que era questão de meses. Para outros, os mais dramáticos, dias. Os últimos dias haviam sido muito estranhos, aquela sensação de que a vaca havia ido definitivamente para o brejo.  Dizia-se que o fim do mundo se daria quando os alienígenas chegassem e abduzissem a todos.

Ninguém mais saía de casa, com medo de ser alvo de um inesperado disco voador e desaparecer para sempre.

Era o seu caso também: estava trancafiado com seus parentes, paralisado. De repente, o impensável começa a ocorrer: um ruído muito forte no teto da casa, pedaços de teto se despregam e uma luz brilhante começa a invadir o cômodo. Gritaria geral. Cada um tenta se esconder onde pode, mas isso tampouco era possível porque sua casa estava apinhada de gente além da sua família: toda a vizinhança estava lá, hipnotizada pelos discursos apocalípticos que seu pai proferia com inigualável oratória.

Como não tinha para onde escapar, ele teve uma ideia insana: abriu a porta da frente e tentou correr. Conseguiu, até olhar rapidamente para o telhado da casa e enxergar aquela coisa enorme, tão brilhante que fustigava os olhos. A imagem o paralisou. Seus pés ficaram pesados, como que carregando os tambores aterrorizantes da Marcha Imperial de Star Wars que agora parecia zumbir na sua memória auditiva. As forças lhe faltaram. Taquicardia. Mesmo assim, ele se arrastou lentamente em direção à rua deserta, onde se podiam ver somente alguns postes solitários e as árvores com folhas tristemente olhando para o chão, naquele calor insuportável do sol a pino.

Aliviado por não ter sido notado, esgueirou-se escondido pelo muro até a esquina e, antes de atravessar a rua para tentar uma fuga desesperada para alguma direção incerta, criou coragem e olhou novamente para o telhado de sua casa e... surpresa! Peraí! Aquilo é um carro! Um carro antigo, quadradão, esquisito! Havia alguém dentro dele, movimentando umas alavancas como se aquilo fosse um trator. Ele não entendeu nada. Isso é uma alucinação? Ou a alucinação era antes? Por via das dúvidas, tomado de uma súbita valentia, encontrou um pedregulho, aproximou-se, mirou e o lançou. Ouviu o estalo do choque na lataria. O sujeito dentro do veículo, que tinha os vidros fechados, parou um momento, olhou para os lados, procurando o que ocorrera, e logo voltou a mexer nas alavancas, absorto e desinteressado do mundo lá fora.

O mundo não vai acabar!!! Que coisa boa! Pensou em voltar correndo para sua casa e dar as boas-novas aos parentes e vizinhos atônitos com a iminência de serem abduzidos para outra dimensão. Mas lhe ocorreu uma dúvida: e se não acreditarem? E se o último acontecimento lhes foi tão convincente na materialização de seus medos que eles julguem o surtado ser eu?

Deu de ombros, aproveitou uma súbita brisa setentrional que causara um lindo bailado nas copas das árvores sorridentes e começou a descer a rua, pulando e dançando sozinho, aproveitando que não era sempre que ela ficava tão vazia de veículos.
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

15.1.15

Humor e ofensa

Rir de si próprio é uma virtude. Rir dos outros nem sempre. O humor vive do riso. O humor é necessário em vários sentidos. Por exemplo, quando serve de contraponto à tensão da vida. Ele alivia. O humor também serve para denunciar a opressão, as injustiças. Esse caráter político do humor é fundamental.

É válido rir do outro quando o outro é o opressor, quando o outro é o poder que massacra, corrompe, que se utiliza de suas prerrogativas em benefício próprio. O humor pode ser uma arma muito poderosa para denunciar e expor tais agentes ao ridículo diante dos demais. Enxovalhá-los.

O humor é condenável quando se ri de quem está em uma situação de inferioridade ou que não detém o poder e é explorado. Esse tipo de humor é cruel, canalha. Soma-se, à exploração sofrida pela pessoa, a ignomínia do deboche. Feio. Nos dias atuais, a maior consciência desses desequilíbrios de força impulsionou as atitudes politicamente corretas e limitaram consideravelmente o limite do humor. 

Há outra forma de humor que é rir das nossas incoerências, deixando de lado um pouco essa questão das forças políticas. Esse tipo de humor, além de muito engraçado, nos lembra por vezes o quanto somos contraditórios, preconceituosos, inconsequentes. Eu gosto muito desse tipo de humor. É o que eu prefiro porque me parece muito muito divertido rir das minhas próprias mazelas e, muitas vezes, me enxergo nesse humor retratado.

As religiões se baseiam em muitas contradições, preconceitos e até mesmo exploração dos mais fracos pelos líderes. Natural que seja assim porque as religiões são expressões humanas. Então elas carregam dentro de si todas essas características. Portanto, não é de se surpreender que as religiões sejam rica fonte de material para sacadas humorísticas. Infelizmente, as pessoas tendem a achar que não se pode rir das religiões, como se as religiões devessem ser isentas de qualquer julgamento ou crítica. Some-se a isso fundamentalistas dementes, provavelmente corroídos por inveja do estilo de vida “pecaminoso” dos infiéis e com uma boa dose de sentimento de inferioridade. Porque, fossem religiosos equilibrados, teriam a grandeza de não se ofenderem com piadas. Aliás, não se espera de um praticamente religioso no mínimo a grandeza de espírito?

Enquanto houver seres humanos contraditórios, imperfeitos, problemáticos, haverá gente com dificuldade de saber qual o limite do humor e haverá gente com sensibilidade demais reagindo desproporcionalmente.
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

14.1.15

Liberdade de expressão ou libertinagem nas expressões?

A Liberdade Expressão é um direito em todas as democracias mundiais e, nos garante autonomia em dizer, pensar, escrever ou publicar aquilo que quisermos, claro sempre prezando o respeito sobre si mesmo, o outro, o governo em questão (constituição de cada país), bem como a funcionalidade das pessoas que nos rodeiam.

A “Libertinagem nas expressões” acontece todas as vezes que ferimos nossas vidas pessoais e a de outrem, ou seja, “Libertinagem é um termo oriundo do francês "libertinage", significa devassidão e é a característica de alguém que vive uma vida de libertino.” É quando perdemos a noção de liberdade de si mesmo e do outro, ou seja, perdemos o bom senso.
Creio que estamos vivendo um tempo onde o “Bom Senso” entre Liberdade e Libertinagem se confundem. Devido nossa criação e formação nas gerações X e Y que desembocaram na geração Z, os conceitos e diferenças dessas palavras se perderam e, com isso, perderam-se também os princípios básicos do senso comum ou bom senso sobre o que é verdade ou mentira e também do certo ou do errado.

Creio que devemos nos auto avaliar antes de tomar qualquer decisão entre liberdade ou libertinagem, pois até mesmo essas palavras dependendo de quem somos e onde vivemos tem significados totalmente diferentes, eu por exemplo estou usando como base para escrever, meus princípios de um homem de 48 anos que nasceu e vive no Brasil, onde passamos recentemente por um período de ditadura e estamos engatinhando no que diz respeito a república e democracia. Logo, muito provavelmente estou “julgando” essas a palavras (Liberdade e Libertinagem) dentro somente dos meus parâmetros. Cabe a cada um de nós observarmos de verdade o que eu acredito e sei sobre Liberdade de Expressão? Também  acredito que é fundamental que avaliemos a palavra Liberdade, o que ela significa para mim? Como eu aplico a Liberdade em minha vida? Como vejo a liberdade na vida do outro?
E, juntamente com a liberdade, deveríamos avaliar o que é libertinagem, pois através desse consenso entre Liberdade e Libertinagem poderíamos traçar processos de entendimento sobre a tal “Liberdade de expressão”...
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- Paulo Bregantim
Psicanalista Clínico. Escreve sobre a alma e coisas simples. Simples assim.
Atende na clínica Reciclar Unidade II.

13.1.15

Je (nous) suis (sont) limite

Sempre fui um sujeito bem humorado. De fazer piadas e tirar sarro, iniciando por mim mesmo. Piadas onde eu mesmo me ridicularizo são vastas em meu repertório, tudo isso porque pra mim o humor é essencial para uma vida leve. Rir é bom.

A adolescência é uma fase onde se testam e se descobrem os limites, pra quase tudo, inclusive pro humor. Tirar sarro de um amigo pode ser bem divertido, mas em excesso, pode ser um trauma.
Já aguentei tiração de sarro sem nenhum problema, ria junto dos amigos, mas já me irritei profundamente (fiquei puto) com situações até menores, mas provocadas por pessoas que eu não havia liberado que me zuasse. Claro que essa liberdade eu dava e tomava, sem que ninguém soubesse em que lista estaria.

No colégio técnico, na sala com 40 alunos, a grande maioria eram homens. Apenas umas 6 meninas. O ambiente era hostil no que se referia ao humor. A mãe de ninguém ali era santa, tampouco as irmãs. Quem ousasse ter namorada naquela época, estava condenado. Chamávamos esses de sócios.
Um dia todos tiravam sarro de um carinha da sala que tinha uma namorada chamada Sílvia. Ele era grande e eu um pequeno imbecil. Visivelmente ele não estava aprovando as brincadeiras, mas bastou que eu cantasse a famosa música do Camisa de Vênus 'ôôô Silviaaa piranhaaa' que o carinha abriu um caminho inexistente entre as carteiras e me pegou pelo pescoço. Fui salvo pelos gritos da professora (sim ela estava na sala) e pelos amigos mais próximos que tinham tamanho para combatê-lo.

Naquele dia eu aprendi uma importante lição. O tal limite do humor. O limite do humor vai até onde o próximo aguenta e tolera. Quando este não tolera mais, ele responde de maneiras distintas. Uns se calam, uns se deprimem, outros revidam verbalmente e há os que agem com violência.

Não preciso nem mencionar que nunca mais brinquei desta maneira com aquele rapaz e que passei a tomar bastante cuidado com meu humor. Ou seja, coloquei limites nele.

Também já parti para a briga (da forma que eu podia) contra meu irmão, por exemplo. Eu aguentava piadas numa boa, mas do irmão é difícil hein. Me sentindo ultrajado, já joguei o que estava em meu alcança contra ele, numa fúria tão cega e burra, porque sempre havia o troco e ele era bem maior e mais forte que eu.

Aprendi então a dominar meus impulsos violentos e mesmo perdendo a calma, não demonstrar isso, ou demonstrar de uma forma pacífica. 

Em 2006, jornalistas da Noruega publicaram uma charge onde o profeta Maomé era ridicularizado. Isso é errado? Não, não é, a Noruega é um país livre que permite tal coisa. Viva a liberdade. Acontece que o mundo não é apenas habitado por pessoas dispostas a rir das situações, ainda existe e muito, os carinhas que irão agir com truculência. A baixada da Noruega, não me lembro em qual país, foi alvo de atentado, jornalistas foram mortos, houve bastante confusão. Alguém não considerou aquela piada engraçada; alguém julgou que o limite do humor fora excedido.
Em resposta à piada do jornal Norueguês, alguns muçulmanos radicais agiram com violência. Em resposta à essa violência, o grupo do Charles Hebdo agiu com mais sátiras, republicaram a tal charge dos colegas da Noruega e muitas outras.

Nada justifica a violência, nada. A liberdade é um direito de todos, incluindo a de imprensa e opinião. Em um mundo perfeito, viveríamos todos de bem. Acontece que o mundo é mau.

Então qual o limite do humor? Não há. Esse é o ponto. O limite do meu humor é o limite da paciência do meu próximo, mas o que dizer de um jornal, uma revista?

O humor é agressivo em sua essência. Qualquer piada, da mais boba que seja, é agressiva, pois está sempre denegrindo a imagem de alguém para provocar riso. E se alguém de nome João não gostar de piadas envolvendo 'Joãozinho'? O que dizer das piadas que envolvem homossexuais? E de Português, Argentino...etc

O humor como resposta, na minha concepção é sempre válido. Se em nome de qualquer que seja o deus mata-se quem é que seja ou comete-se absurdos, é válido que tenha reprovações ao redor do mundo, incluindo as reprovações em forma de charges, piadas, sátiras.
Se o humor, ao contrário, não responde mas antes ataca, há de se tomar cuidado, pode-se estar ultrapassando aquele limite que não existe ou que não é comum.

Não conheço tão bem o Charles Hebdo para saber se eles respondiam ou atacavam. Ou talvez, ambos.
O que não podemos é colocar na mesma medida terroristas e humoristas. Não dá.

Torço para um mundo onde possamos aprender a respeitar a liberdade tão bem quanto respeitar as posições.
Que o limite seja não atacar e também seja não retrucar com violência.

Não tenho muita fé nisso.
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Ev Melo
Um sujeito que pensa que pensa.

11.1.15

Soneto de aniversário

Um ano atrás, exatamente
Havia no ar o aroma da paz
Exatamente um ano atrás
A vida se apresentava diferente

Um sentimento frequente
Um encorajador "sentir-se capaz"
Exatamente um ano atrás
Havia um olhar inocente

Mas o tempo - Ah! O tempo! - passou, no entanto
E ventos alísios sopraram com violência
Levando consigo valores, amores e sabores...

Foi-se com ele a paz, foi-se a dita inocência
O hoje, pode-se dizer, figura bem menos cores
Mas há algo memorável a ponderar-se: continua ventando!

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- Priscila Ferminio
Um ser inquieto e talvez um tanto inconformado (demais). Uma alma oito ou oitenta - sempre em luta com a segurança do oito diante da graça do oitenta... Implanta sistemas de gestão fiscal pra ganhar a vida. Canta e brinca de confeitaria pra vivê-la.