22.12.14

O tablet

Acontece todos os dias. Religiosamente. Ao meio-dia o alarme da fábrica toca. É um teste apenas, todo colaborador é avisado no processo de integração. Acaba funcionando como um aviso de que já está na hora do almoço. Os empregados do escritório começam a interromper suas atividades e, dentro de alguns minutos, dirigem-se em grupos ao refeitório. A fila para o almoço é invariavelmente longa por conta do afluxo simultâneo de pessoas ao refeitório, engrossado por empregados de alguns turnos da produção que almoçam no mesmo horário.
Por isso mesmo o Consultor prefere esperar as 13 h. Quando o pessoal está quase voltando do almoço, religiosamente bloqueia seu computador, pega o cartão magnético, o tablet, dirige-se à cantina da empresa onde compra o almoço que, embora não seja um valor simbólico, é razoavelmente barato, ainda que o Consultor não entenda bem o protocolo burocrático, uma vez que ele compra o almoço na cantina da empresa que lhe reembolsa o valor depois, dirige-se ao restaurante, entrega o vale-refeição, passa pelo bloqueio, escolhe um bandejão, em vez da tradicional bandeja e prato preferidos pelo pessoal do escritório, porque para ele o bandejão é mais prático uma vez que permite separar bem as porções escolhidas, escolhe um pouco de cada porção à disposição, ignora a mistura principal e se dirige à seção de grelhados onde, invariavelmente, pede um filé de peixe, para consumir menos calorias. Pega os talheres, o guardanapo, meio copo de suco e escolhe um local nas inúmeras mesas em que ele possa ficar sozinho. Acomoda-se, abre a capa do tablet e a posiciona, de pé, a um ângulo de 107 graus. Liga o tablet, executa o mesmo aplicativo de sempre e, enquanto almoça, não retira os olhos do tablet, com regulares toques na tela.
Naquele dia fatídico, como sói ocorrer nos momentos que precedem os grandes cataclismos, tudo ocorreu na mais religiosa e monótona normalidade: o alarme da fábrica soou, alguns minutos depois os escritórios foram se esvaziando aos poucos, às 13 h o Consultor desceu, passou pela cantina, repetiu o ritual de todos os dias úteis, escolheu o filé de peixe e se instalou em uma mesa sozinho, olhos fitos no tablet.
Duas mesas à frente, havia um grupo de empregados que trabalhavam no mesmo escritório onde estava instalado o Consultor e, entre os assuntos que conversaram, alguém observou os hábitos solitários do Consultor que, sistematicamente, se sentava sozinho e ficava fazendo algo naquele tablet enquanto almoçava. Ele é meio esquisito! Nada, ele é gente boa! Parece ser meio tímido, mas sempre se enturma bem quando falamos com ele. O que ele tanto faz naquele tablet? Estranho, né? Ele traz todo almoço. Ele é meio nerd. Por que ele não almoça com a gente? Ninguém o convida. Eu já o convidei, mas ele disse que prefere ir mais tarde. O Gerente Um, que tem mais intimidade com o Consultor, arrisca uma pergunta de longe:
- E aí, Consultor, está programando?
- Não... responde o Consultor, com um sorriso.
Momentos mais tarde, quando todos se dirigem ao local para descarte dos restos do almoço, passam pelo Consultor que cumprimenta a todos com um aceno de cabeça cordial. Movido pela incontrolável curiosidade de desvendar o mistério do consultor e seu tablet, o Gerente Dois sai da fila que se dirige ao descarte, se aproxima do Consultor e, enquanto tenta ver o que aparece na tela do seu tablet, pergunta-lhe:
- Está fazendo o quê?
- Estou lendo um livro.
- Ah... – responde o Gerente Dois, levemente decepcionado.
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

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