15.12.14

a alquimista

que avós são seres evoluídos, que cumpriram suas sentenças como pais e no papel de avós tem a simples função de curtir, não é novidade.
que eu tenho avós especiais, já escrevi por aí. talvez só não tenha falado ainda que além disso tudo, minha avó lola é ainda alquimista.

na tentativa de perpetuar as boas lembranças e de não deixar que se percam em tempo e poeira, tenho buscado recordar fatos de minha infância e trazê-los à memória, para que ganhem mais anos de vida.

por isso, dias desses me aventurei na cozinha para fazer pão caseiro. o pão da ceia de minha vó.

os primeiros sábados de cada mês eram especiais para aquela comunidade da assembléia de deus da vila alpina. dia de celebrar a santa ceia. aqui, dentre outras, está uma pequena diferença de costumes entre cristãos católicos e cristãos evangélicos. enquanto os católicos utilizam a hóstia, que simboliza o pão que por sua vez simboliza o corpo de cristo, os evangélicos ainda mantêm como tradição celebrar este momento em memória do sacrifício de jesus, comendo um pedaço de pão e bebendo um cálice de **vinho** suco de uva (ok, os católicos mantiveram o vinho, merecem meu respeito). 

hoje em dia, as igrejas estão aderindo a essa mania de simplificar o que não é complexo. dei o nome a essa mania de 'mania de jobs'.
os cálices são industrializados, selados e prontos para o consumo. o pão, geralmente de forma, só precisa ser cortado em pequenos cubos (ou será que já não vem assim?). mas até meus tempos de menino, as coisas eram mais românticas. preparava-se o suco, enchia-se os pequenos cálices, ou ainda, enchia-se uma taça grande que era compartilhada, gole a gole, pelas pessoas da igreja (ok, um pouco nojento).
quanto ao pão, era caseiro, uma pessoa com talento tal, se dispunha a fazer os pães da ceia. é aqui que entra minha vó lola. 

era ela quem no primeiro sábado do mês se lançava cedo à cozinha, colocava avental, separava os ingredientes, e iniciava o milagre do pão. 
esquenta a água, dilui o fermento biológico até que desapareça, mistura o açúcar, sal, depois os ovos, o óleo e a manteiga e por último a farinha é sendo integrada à toda aquela alquimia do bem. 
e a massa vai surgindo e sendo amassada. quanto mais amassa a massa, mais macia massa fica. é um trabalho braçal, requer força e paixão.
depois da massa bem amassada, separa-se porções menores e dá-se forma aos pães. com movimentos rápidos e precisos, uma ida, uma volta e outra ida com a mão e pronto, um pão estava formado. na minha tentativa, precisei de muito mais movimentos para no final conseguir um deformado pãozinho.

e então chegava o momento que mais me encantava, o momento alquimista de minha vó lola, que aprendera com sua mãe, avó e que foram aprendidos pelas gerações passadas, e que muito provavelmente não sabiam explicar cientificamente o motivo daquilo, mas o faziam.

coloca-se os pães a descansar, então fazia uma bolinha de massa e colocava em um copo com água. a bolinha de massa imediatamente afundava. e ali permanecia, por um tempo, até que magicamente (quimicamente), a bolinha subia.
passava a boiar, indicando que a massa crescera e estava pronta para assar.

trinta, quarenta minutos depois, com a casa inundada pelo cheiro de pão quente, o milagre estava completo. bastava uma xícara de café, manteiga (que muitas vezes também era caseira) e pronto.

vale ressaltar que a primeira tentativa nem sempre é a melhor. errei na quantidade de farinha, meu pão ficou pesado e longe de se parecer com o da minha avó, mas valeu a experiência, prometo continuar tentando.

aqui a receita, escrita pelas mãos da vó lola.












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Ev Melo
Escreve reminiscências, para que elas não lhe sejam apagadas.

7 comentários:

  1. me emocionei ao ver a imagem da receita e me lembrei da bolinha na água, minha mãe também fazia dessas alquimias; tempo divino, a gente esperando a mágica acontecer. cheiro de pão na casa era cheiro de colo. oh deus! pra onde foi tudo isto? maravilha de vida!

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    1. para onde foi? será que foi ou ficou?

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  2. Lembrei-me da receita da minha mãe e sua maneira de controlar o tempo de levedura. Muito bom, Mas o melhor vinha depois - o cheiro, a prova, as opiniões, o congraçamento ... Bons tempos que devemos resgatar em algum momento !

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    1. coisa boa!
      obrigado pelo comentario!

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  3. Me fez lembrar dos tempos que eu passava o sábado inteiro na igreja, em ensaios aulas e conversas e comendo pouco. Assim, na hora da ceia, o pão caseiro não me lembrava só o sacrifício de Cristo, mas também a fome, que saciava naquele momento.

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    1. é rapaz... o sacrificio com manteiga e cafézinho

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