24.12.14

Rompimento

Bem, o ano está findando, e aí a gente começa a pensar na vida, certo?  Certo. Ficamos emotivos, lembramos do que deu certo, e sobretudo, do que deu errado.

E se você é meu amigo (ou repara em meu facebook, rs) sabe que tive um rompimento recente. Mas não foi essa a motivação para falar sobre esse assunto (e também não será a tônica deste texto). Tampouco o fato de ter tido um ano difícil, cheio de curvas, derrapadas, altos e baixos. Aliás, que ano! Pode ir, querido, não sentirei saudades - é minha mensagem a 2014.

No texto anterior, contei um pouco de minha história e de meus "porquês". E quando escrevo, é disso que costumo falar. Digo do que sei por ter vivido, e não por ser especialista nisto ou naquilo. Aliás, não ser especialista em coisa alguma é assunto para outro texto.

Voltando aqui ao ponto, casei-me aos 20, separei-me aos 24, divorciei-me aos 27 (mera formalidade). Esse simples histórico faz de mim alvo fácil de um grupo de pessoas: amigos, colegas ou conhecidos com problemas conjugais,  na maioria das vezes, cristãos. Por alguma razão, me tornei algum tipo de 'case  de sucesso' para pessoas que se vêem em situação de conflitos e começam a pensar nesta palavrinha que, de tão carregada, escreverei em letras grandes: ROMPIMENTO.

E nestes anos todos, tento compreender as entrelinhas dessa associação e só uma coisa me vem à mente: as pessoas que começam a pensar em rompimento precisam de apoio. Eu precisei. E a razão é muito simples: desejar romper com algo ou alguém traz consigo uma grande carga de culpa, sobretudo em cristãos, que durante toda a vida são ensinados que Deus não tolera rompimentos "a não ser que" (vocês já conhecem essa listinha de exceções...). Sendo assim, para aplacar a culpa, a pessoa procura apoio em outrem. E é aí que entro: a moça cristã, exemplo em sua comunidade, cuja história sempre parecera conto de fadas, ou conto de Deus - 7 anos de namoro cristão, casamento lindo, vestido branco, música ao vivo, festa - do nada, vira escândalo. 'Larga' o marido e muda-se para um bairro afastado. Algum tempo depois, é vista 'em bom estado',  vivendo bem e, ao contrário do que se esperava, nenhuma maldição lhe sobreveio. Sucesso!

Acredito ser essa a explicação para essa atração que exerço sobre pessoas nesta situação específica, uma vez que  acreditam que encontrarão em mim o apoio de que precisam para superar a culpa, e colocar em prática seus planos de rompimento.

No entanto, amigos, lamento dizer que eu sempre decepciono, na medida em que não incentivo alguém a levar adiante tais planos. E o que isso diz sobre mim? Que sou confusa? Contraditória, talvez? Ou seria hipócrita?

Rompimento: Ato ou efeito de romper, de quebrar, despedaçar; (...) quebrar com violência; dilacerar ; separar em pedaços; esquartejar; rasgar; entrar violentamente por; interromper o curso regular de; quebrar; violentar; destruir (...) ("rompimento", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/rompimento [consultado em 22-12-2014].)

A separação não foi uma escolha fácil. Foram longos 4 anos até entender(mos) que era nossa única opção. E o que veio depois? O que te parece vir depois de um rompimento? Eu digo o que vem: dor, sofrimento, solidão, culpa, sentimento de fracasso imensurável e mais uma série de outros sentimentos de longa e indefinida duração, independente das condições em que se dá o rompimento.

Ninguém sai ileso de um rompimento, por maior que fosse o desejo de separação. A forma abrupta com que se dá, machuca, fere profundamente, atinge o que se tem de mais precioso, aquilo que Salomão em toda sua sabedoria aconselha que seja protegido, guardado, sobre todas as outras coisas. Falo do coração, falo da alma. Trata-se de uma marca, meu amigo, que vai levar consigo por toda a vida, e se nela acreditar, pela eternidade.

Por essa razão, ninguém jamais encontrará em mim apoio para levar adiante planos de rompimento, a menos que tudo o que se possa fazer já tenha sido feito.  É sob essa perspectiva que vivo, mesmo depois de ter um "divorciado" em meu estado civil, e de ter encontrado pelo caminho pessoas que vivem sob perspectiva totalmente contrária (sim, falo de pessoas para quem relacionamentos e pessoas são descartáveis), que é e sempre será minha escolha.

Se pudesse voltar no tempo e refazer algumas escolhas, viveria de forma que apenas um tipo de rompimento me fosse inevitável: aquele que ocorre quando o Criador chama para si alguém que já cumpriu o que lhe estava proposto a essa vida. Aquele rompimento imposto pela morte. Tendo (sobre)vivido a esse tipo também, caro leitor (posso escrever isso em todos os textos, Ev Mello? Hahaha), lhe asseguro que não há distinção nessas dores, ao menos por definição. Todo rompimento provoca dores inigualáveis e cicatrizes que nem sempre serão saradas.

"Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida" - Provérbios. 4:23
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- Priscila Ferminio
Um ser inquieto e talvez um tanto inconformado (demais). Uma alma oito ou oitenta - sempre em luta com a segurança do oito diante da graça do oitenta... Implanta sistemas de gestão fiscal pra ganhar a vida. Canta e brinca de confeitaria pra vivê-la.                     

22.12.14

O tablet

Acontece todos os dias. Religiosamente. Ao meio-dia o alarme da fábrica toca. É um teste apenas, todo colaborador é avisado no processo de integração. Acaba funcionando como um aviso de que já está na hora do almoço. Os empregados do escritório começam a interromper suas atividades e, dentro de alguns minutos, dirigem-se em grupos ao refeitório. A fila para o almoço é invariavelmente longa por conta do afluxo simultâneo de pessoas ao refeitório, engrossado por empregados de alguns turnos da produção que almoçam no mesmo horário.
Por isso mesmo o Consultor prefere esperar as 13 h. Quando o pessoal está quase voltando do almoço, religiosamente bloqueia seu computador, pega o cartão magnético, o tablet, dirige-se à cantina da empresa onde compra o almoço que, embora não seja um valor simbólico, é razoavelmente barato, ainda que o Consultor não entenda bem o protocolo burocrático, uma vez que ele compra o almoço na cantina da empresa que lhe reembolsa o valor depois, dirige-se ao restaurante, entrega o vale-refeição, passa pelo bloqueio, escolhe um bandejão, em vez da tradicional bandeja e prato preferidos pelo pessoal do escritório, porque para ele o bandejão é mais prático uma vez que permite separar bem as porções escolhidas, escolhe um pouco de cada porção à disposição, ignora a mistura principal e se dirige à seção de grelhados onde, invariavelmente, pede um filé de peixe, para consumir menos calorias. Pega os talheres, o guardanapo, meio copo de suco e escolhe um local nas inúmeras mesas em que ele possa ficar sozinho. Acomoda-se, abre a capa do tablet e a posiciona, de pé, a um ângulo de 107 graus. Liga o tablet, executa o mesmo aplicativo de sempre e, enquanto almoça, não retira os olhos do tablet, com regulares toques na tela.
Naquele dia fatídico, como sói ocorrer nos momentos que precedem os grandes cataclismos, tudo ocorreu na mais religiosa e monótona normalidade: o alarme da fábrica soou, alguns minutos depois os escritórios foram se esvaziando aos poucos, às 13 h o Consultor desceu, passou pela cantina, repetiu o ritual de todos os dias úteis, escolheu o filé de peixe e se instalou em uma mesa sozinho, olhos fitos no tablet.
Duas mesas à frente, havia um grupo de empregados que trabalhavam no mesmo escritório onde estava instalado o Consultor e, entre os assuntos que conversaram, alguém observou os hábitos solitários do Consultor que, sistematicamente, se sentava sozinho e ficava fazendo algo naquele tablet enquanto almoçava. Ele é meio esquisito! Nada, ele é gente boa! Parece ser meio tímido, mas sempre se enturma bem quando falamos com ele. O que ele tanto faz naquele tablet? Estranho, né? Ele traz todo almoço. Ele é meio nerd. Por que ele não almoça com a gente? Ninguém o convida. Eu já o convidei, mas ele disse que prefere ir mais tarde. O Gerente Um, que tem mais intimidade com o Consultor, arrisca uma pergunta de longe:
- E aí, Consultor, está programando?
- Não... responde o Consultor, com um sorriso.
Momentos mais tarde, quando todos se dirigem ao local para descarte dos restos do almoço, passam pelo Consultor que cumprimenta a todos com um aceno de cabeça cordial. Movido pela incontrolável curiosidade de desvendar o mistério do consultor e seu tablet, o Gerente Dois sai da fila que se dirige ao descarte, se aproxima do Consultor e, enquanto tenta ver o que aparece na tela do seu tablet, pergunta-lhe:
- Está fazendo o quê?
- Estou lendo um livro.
- Ah... – responde o Gerente Dois, levemente decepcionado.
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

19.12.14

Reflexão sobre ESPERANÇA

ESPERANÇA É O PRÓPRIO DEUS.
Esperança é JESUS que afirmou ser o Caminho, verdade e a vida.
Esperança é esperar com paciência. Se quiser leia o Salmo 40:1
Esperança NÃO é crença, é DEUS.
Esperança é motivação de Deus para nossa vida.
Esperança é a aplicabilidade de Deus sobre a vida do ser humano...
Esperança é a voz de Deus dizendo: Continue, continue, persevere e persevere.
Esperança é a voz do Espírito Santo em nossa alma.
Esperança são sinais do Céu que alcançam as nossas almas.
Esperança são os ANJOS que acampam ao nosso redor. Simples assim.
Esperança é DEUS esperando do seu lado a solução. Fica tudo bem mais leve.
Estar vivo é um sinal de esperança.
Esperança NÃO é esperar. Esperança é DEUS agindo.
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- Paulo Bregantim
Psicanalista Clínico. Escreve sobre a alma e coisas simples. Simples assim.
Atende na clínica Reciclar Unidade II.

17.12.14

Hino à Bandeira – De Ivan Lins a Benjamin Britten

Na década de 90, quando ouvi pela primeira vez o arranjo do Ivan Lins para o Hino à Bandeira, fiquei bastante impressionado porque sua leitura era bem diferente das minhas reminiscências da infância. Na minha infância, quando passava horas solfejando as partituras encontradas nos cadernos e livros de música do meu pai, uma das melodias que eu mais gostava era do Hino à Bandeira. A melodia me parecia maravilhosa e a música me parecia um pouco mais especial que as outras por ter quatro bemóis na armadura de clave (lá bemol maior) e por ter aquela rápida modulação no final da estrofe, antes do refrão, que fazia minha imaginação musical voar. Entretanto, cresci com a concepção militar da música, o ritmo de marcha que a partitura do meu pai me sugeria. Portanto, foi surpreendente e arrebatadora a experiência de ouvir a melodia despojada do seu caráter militar e com o lirismo da interpretação do Ivan Lins. Imediatamente eu imaginei como seria um arranjo escrito por mim para algum dos coros que eu trabalhava na época. E aquilo ficou: um dia ainda vou escrever um arranjo coral dessa música.

Quando formei o Kol Brasilis com meus amigos, uma das primeiras músicas que me ocorreu para arranjar foi justamente o hino. No entanto, eu não queria fazer um arranjo qualquer: eu queria escrever um arranjo à altura do meu apreço pelo hino. Eu queria fazer um arranjo com aquele lirismo que eu sentia na interpretação do Ivan Lins. Mas daí surgiram as dificuldades: como manter um arranjo interessante por 4 estrofes? Como escrever algo lírico, que não se repita, que não se torne desinteressante aos poucos? Eu comecei a pensar em formas de resolver a questão e nunca encontrei. Agravavam isso dois fatores: o final de cada estrofe deveria ter uma ponte para o arranjo não ficar muito burocrático e o Himn to St. Cecilia, de Benjamin Britten, um fantasma que me perseguia sempre que eu pensava em um arranjo para o Hino à Bandeira. A composição de Britten é uma obra de arte e uma das peças que mais me impressiona do repertório coral. Essa peça está na minha preferência entre as peças corais inglesas assim como o Gloria de Francis Poulenc entre as francesas. O Hino a Santa Cecília tem todo esse caráter lírico, etéreo, que quase me hipnotiza e tem algo muito interessante, o seu refrão curtíssimo em relação às 3 estrofes, que soa para mim quase como uma ponte que interliga as estrofes (“Blessed Cecilia, appear in visions. To all musicians, appear and inspire: Translated Daughter, come down and startle. Composing mortals with immortal fire.”). Também há outro aspecto muito interessante na composição de Britten e que me servia de paradigma: cada estrofe é totalmente diferente da outra; se eu conseguisse fazer algo parecido no meu arranjo, seria perfeito. Por esse motivo, o Hino a Santa Cecília era meu referencial maior de ideias para meu arranjo. Obviamente, uma grande bobagem porque, além de uma régua altíssima, existe o fato de que o hino de Britten é uma composição e ele tinha liberdade para trabalhar a melodia como quisesse, sem falar que o texto permitia essa liberdade. Mas o fato é que, se eu fosse fazer algo lírico, um tributo à composição de Britten seria um bom ponto de partida, ainda que qualquer tipo de comparação fosse no mínimo uma insanidade.

Como eu geralmente elaboro mentalmente o arranjo antes de escrevê-lo, passei alguns anos pensando de vez em quando no desafio e não me ocorreu nenhuma ideia interessante para fazer algo lírico, que não perdesse o interesse nas 4 estrofes e que fosse diferente entre as estrofes (para não ficar algo muito burocrático). A questão da ponte estava praticamente resolvida porque, no arranjo do Ivan Lins, ele faz uma ponte instrumental ligando cada estrofe o que permite que o resultado não fique burocrático. Eu poderia me aproveitar dessa ideia. 

Depois de alguns anos sem me ocorrer qualquer ideia minimamente razoável nas poucas vezes que me dediquei a pensar na questão, resolvi desistir do que seria o mais difícil resolver: um arranjo lírico, etéreo, sem uma marcação de compasso muito evidente: qualquer outra solução que excluísse isso me serviria. Foi então que me ocorreu: simples, é só fazer sincopado, evocando o samba. A ideia me pareceu perfeita porque, afinal, o samba tem mais a ver com nossa terra que aquelas melodias etéreas de compositores europeus que me impressionam tanto. Como a harmonia é um dos elementos da música que mais me atrai, pensei que trabalhar de forma diferente a harmonia nas 4 estrofes era uma maneira eficiente de não deixar o arranjo burocrático e incrementar a sofisticação da harmonia aos poucos faria com que ele não se tornasse desinteressante e cansativo ao longo das estrofes. Daí, numa das minhas caminhadas de 1 hora pelo bairro, defini sua estrutura, que seria:

Estrofe 1 – uníssono
Estrofe 2 – harmonização mais básica, favorecendo mais os aspectos rítmicos
Estrofe 3 – fazer várias modulações ao longo das frases
Estrofe 4 – arregaçar na harmonização para fechar o arranjo

A ponte, aproveitando a ideia do Ivan Lins, em vez de concluir o “da amada terra, do Brasil” com um V-I seguido de um V7 para a estrofe seguinte, eu faria um V-IV-I/3-II-V7 e repetiria “meu Brasil” nesse trecho, até para deixar o hino mais sentimental.

Alguns meses depois parei para escrever o arranjo e, de cara, alguns problemas apareceram: se eu fizesse a primeira estrofe em uníssono, teria que ser em um tom que desse para todos cantarem na mesma oitava (escrever em duas oitavas me parecia uma solução ruim, pouco eficiente para o lirismo que eu ainda queria manter). Daí a coisa complicou de vez porque eu teria que ficar modulando de estrofe para estrofe, até terminar o arranjo em um tom que permitisse fazer um fechamento grandioso, se fosse o caso. Fazendo as contas, se eu começasse em dó maior e subisse um tom por estrofe, estaria resolvido o problema. Mas aí ficaria algo muito chato e previsível: cada estrofe finalizar com uma modulação que, a propósito, teria que ocorrer na ponte. Horrível! E mais: como ficaria a linha melódica, uma vez começaria muito grave? Em que vozes eu distribuiria a melodia? Ficaria trocando de naipe? Comentando um dia com a Ira, contralto, que já havia me dito querer fazer o contralto desse arranjo, ela me perguntou: “por que você não põe um solo de contralto?” Daí ela poderia fazer o solo, obviamente. Era isso! Solução encontrada! A música seria solada pelo contralto a partir da 2ª estrofe com inserções ocasionais das 4 vozes fazendo o “tutti”.  Mas ainda tinha a questão das modulações. Foi aí que me ocorreu outra ideia para acabar com a mesmice da modulação previsível em cada estrofe: eu começaria em dó maior, da primeira para a segunda estrofe eu modularia para dó menor; o ouvinte praticamente não sentiria a modulação, mas eu teria que deslocar a melodia uma terça menor acima para dar certo com o relativo menor, o que me permitiria elevar de cara a melodia. No meio da estrofe eu modularia para mi bemol e essa modulação nem seria sentida. De quebra ainda terminaria o arranjo em sol maior, onde poderia conseguir um resultado mais brilhante das vozes. Perfeito. Nas duas modulações seguintes, tentei chegar à tonalidade subsequente sem o previsível V-I para o tom seguinte.

E foi assim que surgiu o arranjo, com a diferença que abdiquei de forçar demais a harmonização na 4ª estrofe pois ficaria muito pesado. Em vez de manter o ritmo de samba com uma harmonização mais intrincada ainda, como tinha planejado, decidi voltar à estrutura rítmica original da música e dar à 4ª estrofe um ar mais solene. Com isso, eu manteria cada estrofe diferente, como se fossem variações da proposta original da música e, na 4ª estrofe, finalmente chegaria na ideia original da música. No refrão utilizei o material na 2ª estrofe e uma minúscula coda com o material das pontes para fechar.

Por fim, uma consideração sobre a melodia. Eu mudei algumas notas da melodia. Inicialmente, mudei o intervalo das duas últimas sílabas da primeira frase, em “esperança”. Originalmente, o intervalo é de uma 3ª maior. No entanto, eu sempre ouvi as pessoas cantarem com um intervalo de 5ª justa e que me parece mais bonito, inclusive. Também apliquei a mesma alteração na 2ª estrofe. Na 3ª estrofe, onde eu faço as modulações, tive que fazer algumas mudanças na melodia para permitir as modulações. Acabou ficando uma espécie de variação da melodia original. “Contemplando seu vulto sagrado” o intervalo das duas últimas sílabas mudou de uma 3ª maior para uma terça menor e a melodia perpassa pelo mezzo e soprano. No solo do mezzo, “Poderoso e feliz há de ser” também fiz uma ligeira alteração em “e feliz há” para viabilizar a modulação em curso. 
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

15.12.14

a alquimista

que avós são seres evoluídos, que cumpriram suas sentenças como pais e no papel de avós tem a simples função de curtir, não é novidade.
que eu tenho avós especiais, já escrevi por aí. talvez só não tenha falado ainda que além disso tudo, minha avó lola é ainda alquimista.

na tentativa de perpetuar as boas lembranças e de não deixar que se percam em tempo e poeira, tenho buscado recordar fatos de minha infância e trazê-los à memória, para que ganhem mais anos de vida.

por isso, dias desses me aventurei na cozinha para fazer pão caseiro. o pão da ceia de minha vó.

os primeiros sábados de cada mês eram especiais para aquela comunidade da assembléia de deus da vila alpina. dia de celebrar a santa ceia. aqui, dentre outras, está uma pequena diferença de costumes entre cristãos católicos e cristãos evangélicos. enquanto os católicos utilizam a hóstia, que simboliza o pão que por sua vez simboliza o corpo de cristo, os evangélicos ainda mantêm como tradição celebrar este momento em memória do sacrifício de jesus, comendo um pedaço de pão e bebendo um cálice de **vinho** suco de uva (ok, os católicos mantiveram o vinho, merecem meu respeito). 

hoje em dia, as igrejas estão aderindo a essa mania de simplificar o que não é complexo. dei o nome a essa mania de 'mania de jobs'.
os cálices são industrializados, selados e prontos para o consumo. o pão, geralmente de forma, só precisa ser cortado em pequenos cubos (ou será que já não vem assim?). mas até meus tempos de menino, as coisas eram mais românticas. preparava-se o suco, enchia-se os pequenos cálices, ou ainda, enchia-se uma taça grande que era compartilhada, gole a gole, pelas pessoas da igreja (ok, um pouco nojento).
quanto ao pão, era caseiro, uma pessoa com talento tal, se dispunha a fazer os pães da ceia. é aqui que entra minha vó lola. 

era ela quem no primeiro sábado do mês se lançava cedo à cozinha, colocava avental, separava os ingredientes, e iniciava o milagre do pão. 
esquenta a água, dilui o fermento biológico até que desapareça, mistura o açúcar, sal, depois os ovos, o óleo e a manteiga e por último a farinha é sendo integrada à toda aquela alquimia do bem. 
e a massa vai surgindo e sendo amassada. quanto mais amassa a massa, mais macia massa fica. é um trabalho braçal, requer força e paixão.
depois da massa bem amassada, separa-se porções menores e dá-se forma aos pães. com movimentos rápidos e precisos, uma ida, uma volta e outra ida com a mão e pronto, um pão estava formado. na minha tentativa, precisei de muito mais movimentos para no final conseguir um deformado pãozinho.

e então chegava o momento que mais me encantava, o momento alquimista de minha vó lola, que aprendera com sua mãe, avó e que foram aprendidos pelas gerações passadas, e que muito provavelmente não sabiam explicar cientificamente o motivo daquilo, mas o faziam.

coloca-se os pães a descansar, então fazia uma bolinha de massa e colocava em um copo com água. a bolinha de massa imediatamente afundava. e ali permanecia, por um tempo, até que magicamente (quimicamente), a bolinha subia.
passava a boiar, indicando que a massa crescera e estava pronta para assar.

trinta, quarenta minutos depois, com a casa inundada pelo cheiro de pão quente, o milagre estava completo. bastava uma xícara de café, manteiga (que muitas vezes também era caseira) e pronto.

vale ressaltar que a primeira tentativa nem sempre é a melhor. errei na quantidade de farinha, meu pão ficou pesado e longe de se parecer com o da minha avó, mas valeu a experiência, prometo continuar tentando.

aqui a receita, escrita pelas mãos da vó lola.












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Ev Melo
Escreve reminiscências, para que elas não lhe sejam apagadas.

12.12.14

a primeira poesia

A primeira poesia que ouvi nem era poesia. Bom, na essência era, mas não nasceu poesia. Tampouco eu, uma criança na primeira série do primário, sabia o que era uma poesia. 
Mas desde menor ainda já sabia admirá-las, mesmo não sabendo que as admirava. A primeira poesia que ouvi, jamais esqueci. Sem nenhum esforço para decorá-la.  Poesias não são decoradas, são tatuadas na pele da alma.
A primeira poesia que tenho consciência foi dita pela professora Carmem na aula de ciências. Foi curta, simples e direta. E bela, não esqueçamos da beleza.
A primeira poesia da minha vida de tantas outras, me abriu os olhos como uma criança diante do recém surgido Papai Noel. Me despertou os sentidos, me acordou de um sentimento de que as aulas não serviam para muita coisa senão para receber elogios ou broncas em casa. Me fez perceber que há sentido nas palavras. A primeira poesia de minhas lembranças, ouvi quando pequeno, na aula de ciências pela boca da professora Carmem (ou era Lúcia? Áurea, talvez), foi simples e direta e me ensinou a respirar vida.
E tudo isso por uma simples lição contida numa curta frase: O vento, é o ar em movimento.
A primeira poesia de minha vida me colocou em movimento. Como o vento.
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Ev Melo
Uma pessoa rara, como outra qualquer.

10.12.14

Sobre Depressão e Melancolia - Sem medo de falar

Em uma conversa com uma amiga ela me relatou sobre melancolia, depressão e entendimento sobre o tratamento e a doença.
A Depressão e melancolia afetam muitas pessoas como essa minha amiga e, infelizmente muitas pessoas próximas, familiares e profissionais de saúde ainda não entendem e não respeitam pessoas que sofrem de Depressão e Melancolia.
Creio que em cada relato que recebo ( relatos corajosos) de pessoas que sofreram e ainda sofrem de Depressão e Melancolia sinto-me encorajado a estudar mais, esclarecer mais sobre o assunto, ajudar e respeitar as pessoas que convivem com essas enfermidades.
O entendimento da Depressão e Melancolia é uma ótima possibilidade para que as pessoas parem de julgar e interpretar de forma errônea sobre essas enfermidades.
Que esse relato e tantos outros possam um dia ecoar nos corações de todos nós e, que possamos ajudar mais do que julgar.

Segue o Relato:
Paulo, sobre esta questão de depressão crônica, vou te dizer em: eu me lembro de uma infância e uma adolescência bem melancólica. Aos 11 anos, tive uma febre reumática e chorei na escola todos os dias por um semestre. Então operei as amídalas e melhorei. Pelo que sei, febre reumática pode tb causar algum probleminha cardíaco (tomei remédio para isso por 10 anos) e depressão. 
Fui diagnosticada em 2004 e há uns meses a médica disse que 'cronificou'. Tenho acompanhamento psicológico no serviço público, felizmente uma profissional ótima. 
Tenho altos e baixos. A luta contra o que paira na minha cabeça é diária. No entanto, sei quanto minha vida custou para Deus e para meus pais, que se sacrificaram para que eu pudesse ser alguém decente. Por isso, jamais chegaria perto de pensar no pior. Sou grata a Deus. Tem gente que vive muito pior. E pronto... 
Digo isso só para você saber. Talvez seja útil para seu trabalho em algum momento. Abração!

Quem quiser passar seu relato fico à disposição: paulo.bregantin@superig.com.br
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- Paulo Bregantim
Psicanalista Clínico. Escreve sobre a alma e coisas simples. Simples assim.
Atende na clínica Reciclar Unidade II.

8.12.14

1982...2014

1982, escola estadual de primeiro e segundo grau carmem cotta, coronel fabriciano, minas gerais

quando aprendi a ler foi o divertimento [de diverso, coisa diferente!]. a menina de olhos arregalados no auge dos seus sete anos... sem me dar conta o mundo assumiu outra aparência: eu sabia ler! eu podia ler! aquilo que antes eu observava nos adultos, como que um segredo de se fazer, foi um mistério que se revelou a mim, na verdade, a menina achava que eles inventavam tudo que liam, cada um inventava sua história de palavras e por serem adultos, todos se entendiam.

desde então, pela combinação das sílabas, devorei as palavras, lia tudo, primeiro por desafio e depois por gosto.  naquela infância, minha mãe comprara, daqueles vendedores de porta em porta, uma coleção de contos de fadas; li e reli aquelas páginas dezenas de vezes por anos da vida, e mesmo já sabendo a história havia uma vontade de chegar a tal parte para ler [ou ver] de novo. ainda tenho gosto por aquela sensação das imagens e das palavras que tocam meus ouvidos e minha mente.

não me tornei uma grande leitora, apenas uma ansiosa por guardar em mim todos os livros do mundo. as palavras lidas me deram acesso a algo que minhas mãos não poderiam tocar, e levou meu pensamento por céus inexistentes, assim como minhas reflexões; até ao ponto que faltaram palavras para significar o que penso.

ao fim, por alguma qualquer razão, me veio o desejo de escrever, nalgum instante aquele mesmo sentido que me foi dado por outros se tornou vontade em mim. não sei qual a fisiologia desta vontade, nem o espaço que ela ocupa na vastidão do universo. me resta, pela conservação da minha sanidade e pelo instinto de respirar e ser que eu esteja sempre lá... eu e as palavras.

2014. são bernardo do campo, uma cidade no mundo
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- kelly guimarães
filósofa das letras pequenas. textos profundos e maiúsculos, tudo em letras minúsculas.

3.12.14

Oração de um paulista crente que votou certo no segundo turno da eleição presidencial

Essa noite, preocupado com o futuro incerto do nosso país por causa da grande burrada que foi o resultado da eleição do domingo, perdi o sono. Resolvi levantar para interceder pela nossa nação mas, quando dobrei os joelhos, apesar do buraco sem fundo que estamos nos metendo, só me vieram palavras de agradecimento a Deus:

Obrigado, Senhor, pelas tuas bênçãos, teu favor ilimitado que esclareceram tanto minha mente e fizeram de mim alguém com tanto discernimento. Obrigado, Senhor, por abrir meus olhos para enxergar o que a maioria dos brasileiros não vê. Obrigado, Senhor, por me dar inteligência e empreendedorismo para vencer na vida. Obrigado, Senhor, por não me fazer preguiçoso e, mesmo saindo de uma família humilde do ABC paulista, ter sido sempre trabalhador e não precisar mendigar nenhum programa social para vencer na vida. E eu venci, Aleluia! Obrigado, Senhor, por ter me feito nascer no ABC, terra com tantas oportunidades de emprego que eu, tinhoso como sou, sempre soube aproveitar. Obrigado, Senhor, por ter me feito responsável, cumpridor dos meus deveres, cidadão de bem, que estudei numa das tantas faculdades que existem por aqui. Obrigado, Senhor, por eu ter utilizado todo esse conhecimento e sabedoria conseguidos à custa de muito estudo e trabalho honesto para saber o que é melhor para mim e para aquele miserável nordestino preguiçoso e analfabeto.

Aliás, obrigado, Senhor, por não me fazer indolente com os nordestinos que só querem viver à custa do bolsa miséria. Obrigado, Senhor, por ver que os paulistas, assim como eu, rejeitam essas esmolas do governo corrupto do PT. Obrigado, Senhor, por saber que São Paulo não precisa disso, que essas bolotas de porco sejam despejadas nesses nordestinos burros e bovinos. Obrigado, Senhor, por colocar pessoas sábias como o Diogo Mainardi para denunciar essa calamidade. Só não entendo, Senhor, porque São Paulo é um dos maiores beneficiários do bolsa esmola! Isso só pode ser fraude e a corrupção típicas do PT desmoralizando o programa: nordestinos safados que devem estar utilizando dois endereços diferentes, um naquela terrinha ridícula e outra aqui nesse local de tantas bênçãos, para ganhar o benefício em dobro. Aliás, um governo que, para ganhar uma eleição tenha que recorrer à fraude, eu li por aí, só pode dar esse tipo de incentivo mesmo. Obrigado, Senhor, por não ter permitido que eu nascesse naquela terrinha miserável de gente feia e fedida que nem banho toma, afinal, nem água lá tem! Obrigado, Senhor, por ter dado sabedoria e inteligência aos meus pais que, quando se casaram, saíram daquele lugar de gente deplorável e vieram aqui para essa terra de oportunidades, onde construíram uma família linda e de quem me orgulho bastante. Só lamento que essa gente preguiçosa nordestina, que vive às custas das esmolas dadas pelos analfabetos, corruptos e comunistas do PT, quando quiser subir na vida, venha pedir emprego aqui nessa terra maravilhosa governada com tanta competência pelos acadêmicos, ilustrados e distintos políticos do PSDB. Que apodreçam no nordeste, porque São Paulo é lugar de gente ordeira, trabalhadora.

Senhor, quando chegar no teu reino, além de querer conhecer pessoalmente Abraão, Isaque e Jacó, quero fazer duas perguntas que me incomodam bastante: a primeira, para onde vão as canetas quando desaparecem, a segunda, porque São Paulo é uma terra tão próspera, tão cheia de gente de bem, trabalhadora, que leva esse miserável país nas costas, que paga o bolsa esmola desses desocupados do nordeste, enquanto o nordeste é um lugar tão desagradável, pobre, cheio de gente inferior e analfabeta. Apesar de eu ser extremamente culto, inteligente, ler tantos livros, conhecer tudo de História, principalmente a do Brasil, ter um discernimento acima da média, como é comum nos paulistas bem sucedidos como eu, e se não bastasse, estar cercado de amigos igualmente notáveis como eu, muitos deles praticamente cientistas políticos, outros economistas informais de extraordinário saber, e como dizia, apesar disso, eu não entender porque essa discrepância toda entre nordeste e sudeste. Que carma esse miserável povo do nordeste tem, Senhor? Qual foi o pecado deles? E eu, por que Senhor, tenho que ficar sustentando esse bando de vagabundos? Eu sei, Senhor, que os seus desígnios são profundos, incompreensíveis, e o entendimento total desse mistério só terei quando estiver nas Bodas do Cordeiro ou quando chegar no Paraíso, se eu morrer antes do Arrebatamento.

Também entendo, Senhor, que a vitória do PT foi sua vontade permissiva, porque tua boa, agradável e perfeita vontade seria o PSDB ganhar porque assim ele acabaria com essa palhaçada dessa bolsa miséria o colocaria os vagabundos do nordeste para trabalhar. Nós, teus servos, falhamos quando não oramos e jejuamos suficiente. Seu servo Marco Feliciano até nos conclamou para tirarmos esse partido diabólico do poder mas nós somos desunidos: falhamos! Perdão, Senhor.

Mesmo assim, Senhor, tua benignidade é tão grande e a despeito de nossas falhas, tu nos abençoa sempre, até mesmo por meio de uma jesuscidência! Justamente agora, nas vésperas da eleição presidencial é que comprei meu Hyundai HB20 branco zero quilômetro. Foi em boa hora para poder postar uma foto no facebook com minha bênção e esfregar no nariz dos meus primos vadios nordestinos qual a diferença entre quem depende do bolsa esmola e quem trabalha de fato. Obrigado, Senhor! Momento melhor não havia. Ah, e ademais para mostrar aos meus vizinhos, invejosos e não invejosos, que eu também posso comprar um carrão, que eu sou servo de Deus, que fui colocado por cabeça, e não cauda! Eu te peço, Senhor, que nunca me falte emprego para eu poder pagar as 60 parcelas do financiamento e desde já eu repreendo toda cilada do inimigo, declaro que o diabo está derrotado e o devorador não tem poder sobre minhas finanças! Eu sei em quem tenho crido e tu és fiel, dia após dia, por isso não me faltará dinheiro para continuar pagando o seguro, o IPVA, as revisões e a gasolina aditivada, porque declaro que só vou colocar combustível decente na minha bênção.

Senhor, obrigado, obrigado, obrigado, eu te louvo, eu te adoro, acima de tudo eu te amo, por me fazer um paulista inteligente e não um nordestino burro.


(Se você chegou até aqui e se sentiu ofendido ou achou o texto muito estranho, deixa-me explicar: esse é um texto irônico. Textos irônicos por vezes são difíceis de serem compreendidos. A ideia do texto é mostrar como esse tipo de pensamento, que infelizmente surgiu bastante nas eleições presidenciais de 2014, é ridículo. Procurei colocar cores fortes mas ainda assim algumas pessoas me disseram que há de fato pessoas que pensam exatamente assim, o que mostra o quanto isso é triste. Eu me inspirei em uma parábola de Jesus, a do fariseu e do publicano, em que o fariseu se julgava melhor que o publicano. É essa postura condenável que vemos em muitos cristãos, paulistas em particular, que se julgam melhores que nordestinos que votaram em uma alternativa política diferente das deles. Duplamente lamentável por se dizerem cristãos, já que tais atitudes demonstram que não entenderam direito a mensagem do cristianismo. Finalizando, paulistas arrogantes e xenófobos que se julgam melhores e mais inteligentes que nordestinos, não passam de infelizes tolos e patéticos).
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

1.12.14

RESSONÂNCIA LÍMBICA: O que é? Como age? Quem pode viver este processo?

Ressonância Límbica é uma capacidade dos mamíferos  de entrar em sintonia com as manifestações internas dos outros.
É a capacidade de sentir e até mesmo entender o que o outro sente, é um fenômeno que podemos dizer físico, anatômico,  psicológico e espiritual.

A Ressonância Límbica facilita a leitura das emoções das pessoas que nos cercam de modo que intensificamos nossas sensibilidades e percepções aos sentimentos e emoções das pessoas que estão em contato conosco. 

É uma capacidade ’não verbal” que permite a adaptabilidade do nosso comportamento sem ferir ou agredir as emoções das pessoas que nos rodeiam.
Esse processo acontece quando ficamos face a face e olhando para os olhos das outras pessoas, como se fosse “amor a primeira vista”.

Outros exemplos que podemos dar sobre a Ressonância Límbica é o que sentimos como “frio na barriga”, quando o coração acelera e não temos como controlar. As mamães e papais sentem quando necessitam acordar de madrugada para aquietar seus filhos. Quando os olhos dos papais e mamães encontram os olhos dos bebês que choram e, do “nada” vão aquietando, isso é a ressonância Límbica.

Diferente de animais como por exemplo a tartaruga que coloca a cabeça e os membros dentro do casco, os seres humanos são seres sociáveis e a todo momento estão exercitando a Ressonância Límbica, pois a cada contato visual ou sensitivo estamos liberando esse processo em nossas vidas.
Essa sintonia, se assim podemos chamar, permite uma regulagem das nossas manifestações emocionais, e é fundamental para o início e manutenção dos relacionamentos.

A ressonância Límbica é um processo cérebro-emoção ( Razão – Emoção) com desdobramento físicos e mentais imediatos. A troca entre as pessoas acontecem em milésimos de segundos. É um olhar, um toque, um gesto, uma sensação e pronto, Estamos conectados no processo da Ressonância Límbica. É algo MARAVILHOSO. Afeta o batimento cardíaco, a regulação hormonal, as funções imunológicas e todas as características do sono. Sim! Todos os estágios do sono inclusive o sono REM.

Quanto mais exercitamos a Ressonância Límbica mais demonstra que estamos apaixonados pelas pessoas e por nós mesmos, já a baixa ressonância Límbica é a causadora das barreiras entre as pessoas e o afastamento de si mesmo de dos outros em nossa vida.

Engraçado, pois quando somos crianças (desde bebês) existe dentro de nós uma busca incessante pelo processo de Ressonância Límbica pelos pais, pois acredita-se que por não conhecer ainda o mundo exterior e suas possibilidades vivemos apegados aos pais e, isso é fundamental para o nosso desenvolvimento como pessoa e aprendizado da conservação e prazeres da vida. Porém, quando iniciamos o processo de independência e diminuímos a dependência dos pais e dos nossos cuidadores perdemos “parte” desse processo fisiológico e espiritual da Ressonância Límbica.

O afastamento do processo da Ressonância Límbica, pode ser o causador de dores profunda que chamo de “dores da alma” e, consequentemente produzir traços de depressão e ansiedade, pois quando ficamos sem olhar para as pessoas e perdemos as sensibilidades das questões da vida corremos o risco desviar do caminho normal da vida. Dessa forma, ficamos mal humorados, tristes, angustiados e desenvolvemos doenças psicossomáticas.

Já quando estamos buscando (consciente ou inconsciente) o processo da Ressonância Límbica podemos desenvolver o bom humor, dando cores as lembranças da vida, criando possibilidades para as questões da vida, abrindo o mundo de oportunidades, verificando as percepções de si mesmo e dos outros, diminuindo os julgamentos e aumentando o carinho com as outras pessoas, criando em fim um desejo de interdependência e mutualidade gerando o desejo intrínseco de viver em comunidade e comunhão com as pessoas.

Claro que com advindo das redes sociais perdemos um pouco desse processo, pois hoje estamos vivendo um novo tempo e, precisamos nos adaptar a essas realidades, pois não creio que o mundo vai voltar, mas que seremos cada vez mais consumidos pela tecnologia e informações digitais. Então, torna-se fundamental nutrir as amizades e os relacionamentos familiares.

A ressonância Límbica é um processo maravilhoso que podemos retomar dentro de nós mesmo e quem sabe aprender a cada dia e com os que nos rodeiam que a sensibilidade e as emoções são passadas de pessoa em pessoa e, que somos um todo dentro de tudo e, que não podemos viver isoladamente, mas em coletividade, harmonia e amo.

Nós somos muito mais que razão, somos emoção e espiritualidade. Somos infinitamente mais que imaginamos, pois quem no CRIOU, nos deu algo muito maior que nem temos idéia. Cada pessoa tem em si mesma uma fagulha divina e que pode acender a si mesmo e tantas fagulhas que conseguir. 
Todas as mudanças estão dentro de nós. TODOS NÓS PODEMOS VIVER ESSE PROCESSO CHAMADO RESSONÂNCIA LÍMBICA.
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- Paulo Bregantim
Psicanalista Clínico. Escreve sobre a alma e coisas simples. Simples assim.
Atende na clínica Reciclar Unidade II.