21.11.14

Qual é a do sorriso? - Réplica de Nuno Junior

- Não devíamos ter algum tipo de fiscalização quanto a isso? Ninguém conseguiu ver que estavam nos desmascarando antes de acontecer? Cade o Luís? Eu quero o Luís aqui imediatamente!

- Bom, onde estávamos? É Evandro né? - ao dizer isso apontou para o Evandro com um calhamaço de papéis rascunho, todos projetos re design muito bons para serem recusados por qualquer cliente, mas devido a sua condição de rascunho, assim foram. Bom Evandro, você vem aqui apresentando esta tese absurda de que nós publicitários usamos indiscriminadamente o sorriso para fins mercadológicos. Mas antes de te dar uma resposta - CADE O LUIS? - eu quero saber para quem você trabalha.

- Não trabalho para ninguém - retrucou Evandro, com a voz séria, escondendo sua opinião quanto ao absurdo que estava ocorrendo naquela sala.

- Bem, se não trabalha para ninguém deve querer um emprego aqui. Tá bem, ROBERTA, TEMOS VAGA NA MÍDIA? Pelo menos você faz contas, sabe fazer contas? Excell? Gosta de ganhar presentes? Todo mundo gosta, vai ficar perfeito em mídia.

- Não senhor, não quero um emprego, eu quero um contra argumento, um motivo para haver sorriso enquanto as pessoas passam manteiga no pão!

- Não temos vaga em midia - e está era a Roberta, falando com desdém mas deixando um charme escapar pelo olhar em direção ao Evandro. Não que fosse intencional, faz parte da rotina numa agência de publicidade Paulista dos anos 80.

- Realmente senhor Evandro, não temos vagas para o time de midia. Se puder deixar seu telefone entramos em contato assim que surgir uma vaga.

- Senhor, não saio daqui sem uma resposta - disse Evandro que raramente perde a calma, mas naquele momento ela estava junto do Luís, seja lá quem ele era ou onde estava.

Ok Evandro, você quer a verdade? Você não aguenta a verdade. ROBERTA, FECHA A PORTA DESTA SALA QUE O RAPAZ AQUI VAI OUVIR UMAS POUCAS E BOAS.

Pouco antes da Roberta fechar a porta da sala entra um garoto apressado e ofegante, se desculpando copiosamente e carregando algo que Evandro viu poucas vezes na vida, e jamais provou. O garoto carregava uma garrafa de Deus, uma cerveja tão boa que era comparada diretamente aos melhores champagnes do mundo.

LUIS, DA PRÓXIMA VEZ QUE VOCÊ DEMORAR ASSIM VOLTA PARA O REFILE. ENTENDEU?

O garoto estava transtornado e tremia ao servir uma taça ao Evandro, que estava incrédulo com toda essa situação, mas como não tinha escolha, decidiu beber um gole apenas.

- Evandro - disse o publicitário atrás da mesa, com muita classe desta vez - você está bebendo uma das melhores cervejas do mundo, uma cerveja que tem uma produção limitada a 15 mil garrafas por ano, que passa por um longo processo de dupla fermentação, uma na Bélgica, e outra na França. Durante um ano, esta cerveja passa pelo remuage, processo que consiste em girar diariamente a garrafa para que os sedimentos das leveduras se depositem no gargalo. Ao final, as impurezas são expulsas da garrafa, que é novamente fechada, com rolha definitiva, de cortiça, igual às dos melhores vinhos. Em seguida, retorna à Bélgica, de onde ela veio para o Brasil, chega através das mãos descuidadas do Luís para esta taça, escorre pela sua boca e muda a sua vida.

Evandro, um pouco inebriado pela grata surpresa (e por ter enchido a taça duas vezes enquanto o publicitário falava), apenas concordou com toda a argumentação apresentada pelo velho publicitário. E dá mais um largo gole.

- Evandro - disse mais uma vez o publicitário - consegue resumir tudo o que eu falei sobre em apenas uma palavra?

Evandro tentou encontrar palavras mas não conseguiu, era um líquido tão divino e com um processo de fabricação tão maravilhoso que nenhuma palavra cabia para descrever. Evandro sorriu.

O publicitário sorriu também, mas com um sorriso de predador quando vê sua presa pronta para o abate, e retrucou - Fazer manteiga não é um processo tão refinado, demorado ou poético assim. Mas o sorriso resume tudo.

- LUIS, SERVE UM PÃO COM MARGARINA PARA ESTE RAPAZ ANTES DELE IR. E VÊ SE FAZ ISSO SORRINDO.
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- Nuno Junior
Tentou de tudo. Tentou escrever, tentou fotografar, tentou tocar, tentou desenhar e tentou pintar mas  nunca conseguiu. Até hoje ele não sabe se os seus padrões são muito altos ou seu talento é muito baixo,  mas o Nuno não desistiu.

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