27.11.14

Por que eu não vou mais à igreja?

Recentemente minha mãe, respeitável senhora em sua comunidade assembleiana, passou por uma cirurgia. Com isso, recebemos a visita de vários irmãos, velhos conhecidos meus - já que nasci e fui criada nesta comunidade - e de seu novo pastor, a quem não conhecia, mas dissera já ter ouvido falar a meu respeito.

Bem, com essas visitas, uma pergunta voltou à tona e tive de resgatar minha coleção de respostas padrão já guardadas numa daquelas gavetas de meias velhas que só acessamos no inverno.

Mas acontece que, inquieta que sou, num dos momentos de ócio, voltei a pensar na resposta real. Aquela que dá preguiça de ficar explicando às pessoas porque a resposta imediata será que "devemos olhar pra Jesus, e não pro homem, e blá, blá, blá..." Isto porque em geral, as pessoas, essas pessoas, estão tão engajadas  em transmitir sua verdade que simplesmente são incapazes de ouvir o que você diz, ponderar, e só então argumentar, de forma a engatar o que costuma ser um diálogo.  Infelizmente, a maioria dos cristãos não são treinados pra isso. Então, de fato, raramente me dou ao trabalho de responder honestamente a perguntas como esta: "Por que você não vai mais à igreja?"

Mas existe uma resposta a esta pergunta, e ela é relativamente simples: eu represento uma "classe" de pessoas, de mulheres, sendo mais específica, para quem as igrejas não estão prontas. Nenhuma delas. Aquela mulher a quem não se pode rotular. Aquela que não se encaixa em nenhum "grupo".

E neste momento, você pode até se sentir ofendido e pensar que em sua igreja não existem tais grupos. Quer ver? Tem "os adolescentes", "os jovens", "os jovens casais", "os casais sem filhos", "os casais com crianças", "os casais maduros", "as viúvas", "as mães"... e agora é provável que você esteja se lembrando dos outros grupos que sua igreja acolhe e trata com amor e carinho. E pode até mesmo estar se indagando "de que planeta terá vindo essa moça pra não se encaixar em nenhum deles?" Ou talvez, algum leitor mais atento já tenha descoberto o motivo desta pobre garota se sentir excluída, e está morrendo de dó. Pode parar, caro leitor! (sempre quis escrever 'caro leitor'. Valeu Ev Mello!). Não é pra isso que te chamei a essa leitura, ok? Essa que vos escreve já passou dos 30 mas está longe dos 40, é divorciada, independente, não é mãe, mas tem uma, a quem ama e cuida como se filha fosse; sobrinhos aos montes e um yorkshire bebê. E te desafia a responder em poucos segundos a uma simples pergunta: "em que grupo de sua igreja me encaixaria?"

Chega a ser engraçado o desconforto que provoco nos "irmãos". Eles não sabem se me convidam pro evento dos jovens ou pro encontro das mulheres. Trata-se de estar totalmente fora da curva. Vale lembrar que a curva é: pessoas cujas vidas são dentro dos "padrões cristãos bíblicos gospel evangélicos crentes". São esses que a igreja ama, embora se iluda e realmente acredite em sua pregação que diz o contrário. Abre-se aqui uma exceção para os extremos - a igreja ama os diferentes de si ao extremo (desde) que queiram 'enquadrar-se" em seus padrões - como gays, espíritas, prostitutas, viciados, etc (espero não precisar justificar esta frase à gangue dos politicamente corretos - leia-se: chatos de plantão).

Ah, sim. É preciso esclarecer que este não é um discurso de uma pessoa ressentida com a igreja. Ao contrário, é de uma cristã resignada.

E não, não estou em crise de identidade (não desta vez). Sei exatamente quem sou e principalmente, como Cristo reagiria caso cruzasse comigo em algum poço da vida. Mas talvez a igreja esteja, pois pregam domingo após domingo sobre mim, a samaritana, com lágrimas nos olhos, mas não tem a menor idéia do que fazer quando alguém como eu resolve se juntar a eles. Ou pior, quando alguém que era como eles, se descobre alguém como eu.

Acaba o culto. É melhor sair logo e nos livrarmos todos deste desconforto. Já no carro, volto a ser eu, a divorciada de trinta (e um, quase dois), tão samaritana quanto aquela, que já teve cinco maridos e o que agora tem não é seu (isso é só licença poética - devo ter perdido a conta e não tenho nenhum no momento - hahahaha)

Chego em casa, converso um pouco com Dona Neuza, pego o Aslam no colo e recebo suas gostosas lambidas no rosto, brinco com os sobrinhos, respondo aos amigos online e percebo que meu culto começara, finalmente.

É é por isso, então, que não vou mais à igreja... 
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- Priscila Ferminio
Um ser inquieto e talvez um tanto inconformado (demais). Uma alma oito ou oitenta - sempre em luta com a segurança do oito diante da graça do oitenta... Implanta sistemas de gestão fiscal pra ganhar a vida. Canta e brinca de confeitaria pra vivê-la. 

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