19.11.14

pertences de viagem

não sei lidar muito bem com distâncias espaciais, é difícil deixar para trás os lugares, me chateio com a idéia de estar entre o aqui e o lá, fico aterrorizada sem razão e sem medida. agora, aqui neste quarto, sei que a minha vida está lá sem mim, e que além dos pertences que trouxe na mala, trouxe junto a consciência de todas as coisas e o desalento de não saber o fim de cada uma delas. seria bom saber beneficiar-me da imprevisão e da novidade de cada dia por onde se arrasta a possibilidade de qualquer existência, mas ao contrário disto fico ruminando pensamentos insolúveis. que espécie de alma tenho comigo? ​que mal-estar é este​que sinto agora​? nauseante. sufocado. não tenho lugar dentro de mim e nas pausas de minha vidazinha fico anotando bobagens como estas nos extratos de banco que encontro na bolsa... por que vivo nesta prisão já que sei que é uma prisão? talvez porque igualmente saiba que não há saída, todo lugar é prisão, e quanto mais revolvo a terra, mais afundo exausta no nada. tenho saudade de minha casa​, qual? admiro a paisagem das serras daqui, há beleza em tudo quanto há de verde nelas, é então momento de limpar os olhos com estas imagens, concedendo à minha alma alguma serenidade, para logo depois, devolver-me às inúteis questões que me fazem sentir o nó na garganta. eis o caso do inevitável, posso aprender a deixar os lugares, posso aprender a conviver com a ausência de mim mesma nestes lugares, mas não posso deixar-me para trás como quem separou um livro e o esqueceu em cima da cama, ou como quem se convenceu de que​ ​três​ ​pares de sapato era muita coisa e decidiu levar apenas​​ ​um. me levo sempre comigo, não importa quanto espaço tenha na mala, me levo sempre comigo.
​de guimarães, dias de minas​, dezembro/2008.
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- kelly guimarães
filósofa das letras pequenas. textos profundos e maiúsculos, tudo em letras minúsculas.

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