25.11.14

Inspirar e aspirar

Nossas aspirações estão relacionadas com nossas inspirações. Diga-me o que aspira e eu te direi quem e o que te inspira.  

Quando ainda criança existe aquela liberdade de estar entre diversas cores, de lápis , pintura , papeis , é tolerável pintar fora das estruturas,  seja aquela  de uma folha, quem quando era criança avançou, quebrou as limitações do sulfite pintou o chão, a parede, o boneco, a porta os braços, a cara e a mão.

Não lembro haver escutado de nenhum menino ou menina: eu sou artista ou quero ser artista, sou criativo, basta olhar no seu ser, no seu corpo, existe poesia e articulação nas suas palavras, a busca do  novo. Ser criança é não perder a percepção  do assombro, da imaginação,  é viver tranquilamente e intensamente no mistério.

Nós adultos somos os responsáveis de pouco a pouco ir cortando as asas daqueles que são pássaros na sua essência e não somente esta atrocidade, mas também   rapidamente os colocamos em nossas gaiolas. 

Aqueles que são a inspiração para nosso mundo, são motivados a aspirar as coisas dos adultos. Enquanto se aprendia todo tempo livremente entre todos e em todo momento, agora existe o momento, o tempo, é determinado quem pode ensinar e aonde se pode aprender , porque estudar  é ter conhecimento  que nos leva  a ter poder. Assim somos estimulados para chegar ao sucesso, onde tudo parece ser calculável, reduzido a números, onde  a vida pode ser planificada, administrada, se anula a existência do mistério, nos auto- enganamos que podemos explicar todas as coisas e assim resolver todos os enigmas porque pensamos  que por meia da ciência e da tecnologia  tudo pode ser resolvido. 

Ninguém está livre da tentação de depois de ser criança querer participar no  circulo vicioso de construir  e  manter em pé as estruturas  que nos brindam uma falsa seguridade , seja ela por meio do dinheiro, por meio do acumulo de bens adquiridos, toda esta dependência e busca na verdade nos controlam, determinam e disciplinam a nossa maneira de viver, e geram uma insatisfação interminável e a incapacidade de celebrar o simples, o pequeno e o limite.  

 É necessário que para que esta ordem se mantenha  os sacrifícios sejam feitos  sejam eles humanos ou da natureza porque quem não protege a vida não tem reverencia pelo sagrado, e com isso existe e persiste somente um alvo para o grande desenvolvimento, crescimento e progresso. Como podemos pensar e agir a partir destas perspectivas em um mundo finito? Porque não pensar nas próximas gerações? Nesta grande projeto aniquilador  quem está fora quer entrar, quem está dentro faz qualquer tipo de acordo para não sair, seja até mesmo entregar sua própria vida  e da sua família no altar dos falsos deuses atuais.

A única coisa que se aspira é chegar ao lugar mais alto, ter tudo que se pode ter, consumir o que existe e o que  esta terminando, criar produtos que satisfazem desejos imediatos mesmo que os seus resíduos demorem anos e miles de anos para se decompor, pensando que tudo isso desaparece por uma questão de mágica , somos a unica especie que produzimos lixo e empilhamos em algum canto por ai.

A capacidade de criar vida de uma criança se transformou na capacidade de criar maquinas para que as maneje os adultos. O ser humano atual tornou-se um fazedor de ferramentas  e agora o seu mundo é uma gigantesca  caixa de ferramentas para satisfazer suas falsas necessidades mais egoístas e o que é desejo de poucos se tornam necessidade de todos.

  Dura, sem expressão, imaginação, mistério, assombro a humanidade perde a imagem do seu Criador, e se transformou  na imagem dos objetos feitos por suas mãos, que necessitam ser usados, explorados, o que não serve mais é jogado no lixo, também existem seres humanos abandonados em vários rincões. O nosso distanciamento do Criador e da sua criação resultou: ver a natureza como um recurso, seres humanos como objetos, que ambos necessitam ser explorados.

O que está acontecendo com o verde e todas as cores da natureza  e sua grandeza em plantas e animais que não aceitam estruturas rígidas, inquebrantáveis, mas que necessitam da liberdade para continuar  gerando a vida? Foi atropelada pelo cinza dos blocos empilhados que entre eles formam caminhos negros impermeáveis. Porque a criação do grande Criador  foi invadida  pelo o mundo dos seres humanos , que quando buscam o silencio já não se escuta os cantos dos pássaros, nem se percebe o sussurrar do vento, nem o movimento das árvores, simplesmente e constantemente se escuta  a buzinas dos automóveis e o ruído dos seus motores.   

Mas é nesse cenário  que eu encontro pessoas como Claudio Oliver, Hugo Theofilo, Eduardo Fenimam e Rene Eugenio Seifert,  que me inspiram a buscar a imaginação e a criatividade nata  das crianças. Eles  deixaram de pensar em viver para si mesmo,  se atreveram a imaginar um outro mundo possível, aquele que começa na própria casa, onde se pode tocar com os próprios pés e mãos e está ao alcance dos próprios olhos  e criaram um espaço onde seus filhos pudessem viver e aprender com liberdade, onde aprendem a  tarefa de observar  e  a preservar a vida humana e de toda a criação, estes futuros adultos  seguramente serão  inspiração a outros. 

Nesta aventura permitem que seus filhos cresçam em busca de uma vida plena, mesmo que seja  em um pequeno jardim de uma casa, onde  permitem  que flores exalem livremente o seu perfume,  em que sementes brotem e depois se tornem alimento para suas mesas, que as árvores possam dar livremente o seu fruto, que fazem habitação para os pássaros, que atraem as borboletas e as abelhas, onde as cores transformam o cinza duro e impenetrável morto em vida, o campo seco em bosques, entre montanhas, que crianças possam correr entre as cabras, que já não existam, mas limites para a vida e que esta avance de tal maneira que já não possa ser controlada e encaixotada em nenhuma estrutura física e humana. 

Esta esperança e a aspiração que tenho, porque sei que um dia chegará  onde seres humanos “farão de suas espadas arados,e de suas lanças, foices. Uma nação não mais pegará em armas para atacar outra nação, elas jamais tornarão a preparar-se para a guerra” (Is. 2. 4). “O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará ao pé do cabrito; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um menino pequenino os conduzirá. A vaca e a ursa pastarão, as suas crias se deitarão juntas e o leão comerá palha como o boi. A criança de peito brincará sobre a toca do áspide, e a criança desmamada meterá a mão na cova do basilisco.” (Is. 11. 6 – 8).
__________
- Vinicius Barajas
Amante da vida:  esposa, família,  amigos,  natureza , arte e comida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário