12.11.14

A Poesia e a lucidez

A Poesia é muito arredia. Não é fácil encontrá-la. Mas ele a encontrou uma vez. Um descuido e ela escapou. Inconformado, durou anos a busca-la novamente. Ele era um viajante e por todas as plagas por onde passava, sempre a procurava. Às vezes achava que aquilo era loucura. Talvez teria que ficar em estado de insanidade para poder enxerga-la. Seria isso? A lucidez a teria escondido?

Numa dessas viagens ele caminhava por uma rua da grande cidade quando se viu apertado para usar o banheiro. Na incapacidade de encontrar um banheiro público, parou diante de um grande edifício residencial. Havia um sonolento senhor sentado em um banquinho na entrada do que parecia ser uma enorme garagem com seus portões totalmente abertos. Perguntou-lhe sobre um banheiro e ele lhe apontou rapidamente o fundo para logo voltar à sua modorra. Curiosamente, havia um supermercado na parte térrea de edifício. Foi até o banheiro, aliviou-se e saiu, retornando à entrada da garagem. Foi quando a avistou, estática, virada em direção ao supermercado, em meio às pessoas que o abandonavam, a Poesia!

Ela olhava para ele, com seus cabelos acariciados pelo vento da tarde, um vestidinho solto, olhos penetrantes e aquele sorriso mal disfarçado que agora ele percebia, só ela tinha. Acometido de uma súbita vertigem, controlou-se e se aproximou dela com passos lentos. Ela não dizia nada, apenas o mirava. Na falta do que fazer, parou diante dela e, na total incapacidade de fazer outra coisa, pegou-a pela cintura. Ela parecia tão pequena, tão frágil... O beijo foi uma consequência. Primeiro os lábios se encontraram, depois mais seguro, ele a trouxe mais para si, sentiu a maciez do seu corpo, sua mão passeou por suas costas e eles ficaram ali naquele interminável beijo que durou algumas existências, enquanto ele com os olhos semicerrados, sentia a fragrância do seu cabelo perfumado, que agora fustigava levemente seu rosto, talvez pelo vento que soprava mais forte e fazia com que tudo à volta deles rodasse vertiginosamente.

Quando o vento desassoprou, eles um tanto sem fôlego se afastaram. Vamos? Ela o convidou para caminhar pelo passeio, convite que ele jamais rejeitaria. E lá se foram os dois, de mãos dadas, ele sem saber se caminhava ou flutuava. O certo é que não se importava com os encontrões que dava nas pessoas que passavam por eles em sentido contrário, já que havia muita gente por ali. Não falaram nada e ele achou melhor assim porque preferia não estragar aqueles momentos com outra coisa que não fosse observá-la, ainda que ele não ousasse olhar para ela, nem que fosse de soslaio.

Muitas quadras depois, já quase no cair da tarde, ela lhe disse: vamos ao metrô? Era na próxima esquina à esquerda, na metade da quadra. Quando dobraram a esquina, ela se desvencilhou de sua mão e se pôs a correr. Mas não era exatamente uma corrida, era um baile, como se fosse uma borboleta esvoaçante. Aquilo lhe pareceu carregado de muito lirismo e ele se juntou à sua dança, fazendo de conta que a perseguia, enquanto ela fazia de conta que fugia dele. Duraram alguns séculos nessa brincadeira, até que ela de repente alçou voo e alcançou a plataforma da estação que era visível da calçada mas que deveria ser acessada pelos bloqueios e escadaria. O trem já estava parado. Desesperado para não perdê-la de vista, ele pensou que deveria tentar fazer o mesmo, e foi apenas o pensamento cruzar seu cérebro que o mesmo lhe aconteceu: quando deu por si, estava na plataforma. Tempo suficiente para ele perceber que a plataforma estava vazia e o trem apitava avisando que estava para sair. O tempo lhe alcançou apenas para correr e se esgueirar por uma das portas automáticas que se estava fechando.

Ele precisou de alguns segundos para se acostumar à inesperada escuridão do trem. Foi então que percebeu estar o vagão totalmente vazio. Correu desesperadamente para o outro, na semi-escuridão, para constatar, desolado, que tampouco havia um único passageiro. Alarmado, correu para uma das janelas, abriu-a, colocou a cabeça para fora e olhou de volta para a plataforma, a tempo de ver ainda a Poesia a lhe acenar, de longe, com os cabelos e o vestidinho levemente chacoalhados pelo vento do entardecer.
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

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