7.11.14

A bela do avião

Viagens a trabalho são uma fonte quase inesgotável de situações curiosas. Aqui vai uma delas quando eu voltava da Colômbia. Mais especificamente, quando esperava o voo numa das salas de espera, juntamente com os demais passageiros. Eu, de minha parte, deveria estar lendo algum livro. Foi quando, por um momento, o tempo parou. Chegou chegando, do jeito que só elas sabem fazer, uma morena de fechar o aeroporto (porque o comércio ela já deveria ter fechado quando da sua passagem por lá). Era uma coroa e se vestia sem exageros. Ocorre que ela era um exagero de beleza. E ainda tinha olhos verdes. Nem precisa dizer que os radares masculinos da sala começaram e fervilhar – alguns travaram. E eu, naturalmente, como também sou filho de Deus e não sou de ferro, quando dei por mim, já estava com a leitura do livro interrompida e com um “uau!” preso na garganta. A mulher era um espetáculo.  Curioso como certas mulheres ficam mais belas à medida que amadurecem! 
Deveria ser o caso dela, uma desconhecida quase Luíza Brunet . Bem, depois que a comunidade masculina se acalmou e os ponteiros dos relógios se recuperaram, o tempo voltou a se mover.

E como o tempo se move, algum tempo depois eu estava sentado na poltrona do lado da janela, a poltrona do meu lado vazia. Por pouco tempo. Adivinha quem se senta ao meu lado? Pois é, a vida é irônica mesmo. Em carne e osso, em três dimensões (e que dimensões), toda perfumada, a deusa. Entrei em pânico, uma vez que sou caliginefóbico. E agora? Fiquei acuado, músculos retesados, esperando para ver no que aquilo ia dar. Ela me perguntou qualquer coisa e eu lhe respondi qualquer coisa também. Naquela altura do torneio, eu faria o que ela quisesse, me fingiria de morto, o que fosse. E não é que a coroa era simpática? Tentou arriscar um português e saiu um portunhol macarrônico. Até então eu nunca tinha percebido como uma colombiana ficava bonita tentando falar português. Escorrega daqui, escorrega dali, a revelação: ela era carioca. Carioca??? Quase não resisti e por pouco não lhe passei uma suprema e assanhada descompostura para os meus padrões: “bonita assim, tinha que ser carioca!”.

Ela então me explicou que – não me lembro bem como – conheceu seu marido advogado colombiano no Rio de Janeiro, depois se mudaram para Manaus e, por fim, ele voltou para a Colômbia onde se radicaram. Já estava na Colômbia havia uns 15 anos e, pela primeira vez, estava retornando ao Rio de Janeiro para rever sua família, daí sua dificuldade com o português que ela iria aproveitar e treinar comigo. Lá pelas tantas, não me recordo como, descobriu meu berço evangélico. Foi quando ela se entusiasmou de vez. Explicou-me que seu marido era pastor e ela pastora. Durante os dias que antecederam a viagem ela orara a Deus pedindo muito que, no voo, tivesse a companhia de outro evangélico, algo que ela, inclusive, havia dito à sua congregação. Via em mim, portanto, a resposta das suas orações (eu estava podendo, hein?). O fato é que essa foi, provavelmente, a única viagem de retorno que não preguei os olhos. A simpática e lindíssima carioca falava pelos cotovelos. Conversamos e rimos bastante. Foi uma viagem memorável.

Como o projeto colombiano era longo, algumas semanas tive de voltar novamente a Bogotá. Embarquei numa segunda-feira de manhã em um voo da Avianca. Já dentro do avião, esperando o resto dos passageiros se acomodarem, dou uma olhada à minha volta (eu estava na fila esquerda, do lado do corredor) e, quem eu avisto umas três poltronas atrás, na fila do meio? Increíble, ela mesmo, a quase Luíza Brunet. Não acreditei. E não é que os contatos da senhora com o pessoal lá de cima, lá do alto, eram fortíssimos? Ela também mal podia acreditar. Qual seria a chance de isso acontecer? 

Esperamos todo mundo se acomodar e, como a poltrona do meu lado ficou vazia (que coisa, não?, estou ficando arrepiado – e com um pouquinho de medo, confesso), ela mudou de lugar. Voltamos para Bogotá numa animada conversa, em que ela, dentre outras coisas, falou de sua estada no Brasil.
Já no aeroporto de Bogotá, ficamos juntos todo o trajeto de passagem pela aduana e, na saída, a aguardavam o marido, vários irmãos de sua igreja, o cachorro, o papagaio, uma banda de música. 

Definitivamente, a simpática carioca era muito benquista. “Esse é o irmão do voo do qual lhe falei!” O marido ficou meio sem entender, afinal ela tinha se encontrado comigo na ida e não na volta. Ela então explicou a coincidência da volta. O marido também era uma pessoa extremamente simpática. 

Deu-me um cartão com os dados de ambos, endereço e tudo o mais, e me convidou para fazer uma visita à sua comunidade, em Villavicencio. Despedi-me de todo aquele pessoal tão simpático e fui para o hotel. Eu até pensei em visitá-los, mas como Villavicencio fica tão perto de Bogotá que não dá para ir de avião, o pessoal da petroleira onde eu estava trabalhando jamais me permitiria o passeio, pois a chance de eu ser parado na estrada por uma “batida” da guerrilha, o que era muito comum naquela época, era grande. E se eles soubessem que eu era estrangeiro, era quase certo que eu seria raptado. E eu tampouco me arriscaria.

Nunca mais falei com eles. Nunca mais a vi.
__________
- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

Nenhum comentário:

Postar um comentário