10.10.14

Um homem não nega um duelo

Era domingo.
Em algum lugar da África fui a uma casa de Americanos que vivem por lá.
Eu não conhecia a maioria das pessoas e como sou tímido quando não conheço ninguém, me sentei no sofá depois de receber a permissão dos donos da casa.
Os outros na casa conversavam em um outro ambiente do mesmo cômodo e de repente ele chega, senta-se no sofá em frente ao que eu estava e sem ao menos se apresentar começa a falar, falar e falar.
Depois, com aquele ar superior de americano, começa a perguntar coisas da minha vida como se fizesse parte da polícia secreta ou talvez um jornalista sensacionalista querendo encontrar algo interessante para as massas.
Percebendo o teste a que eu estava sendo submetido fui respondendo tentando com muita dedicação eliminar meu sotaque brasileiro. Até nos finais das frases eu lançava aquelas típicas expressões que apenas nativos falam.
Ele continuava me interrogando como se a etiqueta e os limites não existissem.
Alguém passa e menciona a ele que eu toco violão e poderia ajuda-lo a melhorar na execução do instrumento. Ele desconversa, mas outros insistem e ele cede. Ele chega com o violão, tira da capa, coloca na minha mão e diz: “Let me see what you’ve got”. 
Eu tímido e pressionado pelo status de músico brasileiro que à força me impuseram sinto a pressão de que teria que usar os super poderes de Tom Jobim, Chico Buarque e Toquinho juntos para mostrar harmonias desumanas, voz emocionante e sensibilidade à flor da pele. 
Toco meu melhor número, aquela música que está sempre bem preparada debaixo da manga.
Quando termino penso: Ufa, acho que me saí bem.

Alguém fala do fundo: “Ensine uns acordes bem brasileiros a ele”.
Ele me olha com aquela cara de quem não está gostando, mas que sabe que é inevitável passar por isso. 
Eu partilhava do mesmo sentimento, mas devido à situação mostrei alguns acordes. Ele fingiu interesse, tentou algumas vezes, guardou o violão e mudou de assunto para um assunto que ele dominava: vídeo games.
Ele falou sobre vários jogos até chegar no de futebol.
De repente parou por um momento, me deu aquele olhar do velho oeste quando se chama outro homem para um duelo e perguntou: Quer jogar uma partida?
Eu nunca fui muito de jogar vídeo games e sabia que provavelmente eu perderia, mas um homem honrado não nega um duelo. Um jogo de vídeo game pode parecer coisa de criança, mas pode significar a honra de um homem.
Retruquei o olhar confiante e disse: Com certeza!
Chegamos em frente à TV. Eu, ele e seu irmão. Eu disse: Normalmente não jogo vídeo game então me fale para que serve cada botão e começaremos.
Dito isso eu tirei a pressão de mim, afinal ele era o cara que sabia todas as táticas e comandos. 

Começamos o jogo. 

Enquanto ele pegava a bola e fazia jogadas de efeito eu tentava manter a bola longe da minha área. Fui me adaptando ao controle, pensei que daria para arrancar um empate.
Peguei a bola e em 3 toques estava eu e o goleiro. Apertei o botão para chutar. A bola vai em direção ao gol, mas o goleiro defende.
Logo em seguida ele faz uma jogada de contra ataque e abre o placar.
“Vamos que ainda dá.” Pensei comigo.
Faço uma jogada boa, chuto e a bola entra.
Por dentro comemoro como se tivesse feito o gol de uma final de copa do mundo, mas por fora faço cara de normalidade e confiança.
A partida continua e quando percebo o jogo está 4 x 1 para ele.
“Preciso reagir.” Pensei.
Lanço a bola, corro em direção ao gol e ele com uma entrada violenta, comete pênalti.
O Juiz apita, aponta o centro da área, tira o cartão vermelho e expulsa o jogador sanguinário.

Corro, chuto e GOOOLLL!

O jogo segue e ele comete outra falta violenta perto da área. Outro cartão vermelho para ele. Ele contesta. Eu em silêncio tento bater a minha primeira falta perto da área. Nem sei qual botão apertar. O irmão dele tenta dar palpites para me desconcentrar. Coloco um pouco para a esquerda contando com o efeito na bola que na minha mente funcionaria com um botão extra na parte de trás do controle. Aperto o botão e torço. A bola ganha o efeito desejado, faz uma curva a lá Roberto Carlos e GOOOOLLLL!
O marcador mostrava 4 x 3 para ele e faltando mais ou menos 1 minuto para terminar a partida.
Como ele tinha 2 zagueiros a menos, resolvi jogar no contra ataque. Roubava a bola, chutava para o meio, tentava pegar a bola e lançar para os meus atacantes. 
Em uma das minhas tentativas, fiz o gol de empate!
Só precisava de mais um.
Decidi continuar com a mesma estratégia. A posse de bola era minha. 
Fiz uma troca de passes e me vi cara a cara com o último zagueiro. Não havia tempo para esperar alguém chegar para passar a bola. Resolvi tentar uma jogada de efeito que espiei meu adversário fazendo durante a partida. 

Minha única alternativa era tentar. 
Tentei. Consegui.
A zaga estava toda batida. 
O goleiro era meu último obstáculo para a glória.
Perguntei-me como Ronaldo o Fenômeno faria.
Joguei a bola para um lado, peguei do outro lado e em um chute preciso a bola balançou a rede.

Dei um grito: GOOOOLLLL!!!!

Logo após a partida acabou.
Olhei para o meu adversário, ele olhou para mim, estendeu a mão e me cumprimentou.
Eu havia provado àquele menino de 10 anos quem era o homem ali.
Na caminhada.
__________

- Rafael Bertolino
Missionário da 'Operação Mobilização' servindo no navio Logos Hope ao redor do mundo. Fala de futebol e teologia ao redor da mesa, as vezes ao mesmo tempo. É músico por insistência e escreve por necessidade própria. Corinthiano e sofredor pela graça. Seguidor do Jesus de Nazaré acima de tudo, acredita que o reino de Deus é um reino de amigos.

Um comentário: