3.10.14

Petrushka - Igor Stravinsky

Meu emprego de office-boy aos 15 anos, na concessionária Ford Mercantil São Caetano, me proporcionou algumas alegrias na adolescência. Primeiro que eu tinha de viajar para pegar cheques de consórcio em clientes. Meus pais tiveram que assinar um termo liberando-me para fazer viagens de ônibus a partir do Terminal Rodoviário do Tietê, já que algumas viagens eram para o interior paulista. Para um garoto de 15 anos daquela época era uma experiência ímpar.

Outras alegrias proporcionadas por esse trabalho foram a possibilidade de eu assinar a Revista Veja, que eu lia inteirinha, inclusive as propagandas (imagine isso!), me permitiu fazer um curso chamado “Tecnologia Intelectual” no IADI que abrangia técnicas de oratória, leitura dinâmica, aprendizagem veloz, memorização, motivação e concentração. Eu havia visto um anúncio em um ônibus e, numa das minhas idas à Av. Paulista, passei no escritório deles dizendo-me interessado pelo curso. Era um lugar bastante chique. Tive a impressão que a recepcionista ficou surpresa com meu interesse, já que descobri depois que eu era o único adolescente do curso: o restante eram pessoas em cargo de gerenciamento. Daí eu entendi porque a moça do curso pediu para eu não divulgar o valor que eles estavam cobrando de mim para ninguém. Acho que lhes pareceu tão engraçado um adolescente se interessar pelo curso que resolveram me fazer um preço especial. Provavelmente o curso era caro para minhas possibilidades.

Outra alegria proporcionada pelo trabalho foi quando recebi meu primeiro salário. No sábado seguinte fui até a Rua São Bento, em uma loja de discos, e comprei os meus primeiros discos de vinil: Scheherazade, poema sinfônico de Rimksky Korsakov (minha peça sinfônica predileta naquela época e durante muitos anos) e Petrushka, balé de Igor Stravinsky. Poderia falar bastante de Scheherazade, por conta da minha ligação emocional com ela, mas hoje será sobre Perushka.

Desde a primeira audição, o balé me cativou por conta das suas ideias que me pareciam muito extravagantes, estimulantes, diferentes do tipo de música que eu ouvia, mais melódica, mais regular ritmicamente. Eu devo ter gasto o vinil de tanto ouvir o balé. Inclusive acompanhava com minha flauta doce. Cheguei a transcrever o solo de trompete pelo prazer de tê-lo transcrito (https://www.youtube.com/watch?v=hNYaBUFxPOc). Anos mais tarde, na faculdade, deixei-o escrito em uma lousa de uma das salas no IMES (atual USCS) e sempre imaginei qual seria a reação das pessoas ao se depararem com aquele manuscrito musical.

Falar da peça é chover no molhado pois se trata de uma peça popularíssima e há incontáveis referências a ela na internet. Como se trata de uma peça um pouco mais extensa, não há espaço para falar sobre ela, mas um bom resumo pode ser lido aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Petrushka_(ballet). Algo que me agrada muito em Stravinsky é seu caráter percussivo: suas obras são bastante percussivas. Já ouvi alguém dizer que Stravinsky conseguiu provar que o piano é, de fato, um instrumento de percussão.

Por fim, gostaria de ressaltar um aspecto que muito me agrada: transcrições. Um dos meus prazeres favoritos na música é ouvir diferentes versões de uma determinada composição. Coisa de arranjador. Transcrições bem feitas são um deleite à parte. Transcrições para piano dessa peça são bastante comuns, inclusive a 4 mãos, para darem conta de todas as ideias musicais da peça. Infelizmente não encontrei nada no Youtube em que pudéssemos ver a peça completa. Somente excertos. Esse vídeo é um bom exemplo de um excerto para piano solo muito bem executado: https://www.youtube.com/watch?v=8MyAkZpGv60.

Falei de transcrições porque gostaria de citar uma que eu gosto bastante, para duo de acordeons. Infelizmente não encontrei no Youtube. Mas usuários dos Spotify podem encontrar a gravação a que me refiro ao pesquisar por “James Crabb & Geir Draugsvoll”. É uma interpretação muito boa! É delicioso, para quem conhece a peça tão bem quanto eu, ouvir uma versão em um instrumento solo (ou duo) com a partitura multi-instrumental reduzida a um instrumento apenas. Quando garoto eu gostava de fazer esse exercício: reduzir peças orquestrais para flauta doce a algumas vozes: é preciso se fixar no essencial. Um ótimo exercício.

É isso aí. Sugestão de link para ouvir a peça inteira, em 3 partes: https://www.youtube.com/watch?v=4J9OypE80UE

(a propósito, nesse vídeo que enviei, o trompetista comete um erro crasso no solo do trompete. Será que ele foi demitido? Brincadeira. Erros assim não são tão raros. Imagino que o trompetista ficou um bom tempo remoendo o seu erro. Vamos ao erro: o solo começa com 2 arpejos, um ascendente e outro descendente: la-do-fá (ascendente), do-la-fá (descendente). De novo outro arpejo, agora atingindo a 7ª maior do acorde: la-do-mi (ascendente), do-la-fa, seguido da frase sol-la-si-do-re-mi-re-do-si-do-re-mi-re-do-fa. Ocorre que, no primeiro arpejo ascendente, ele se equivoca e toca la-do-SOL, em vez de lá-do-FA. Isso pode ser observado no minuto 2:26 do segundo vídeo dessa gravação. Na repetição da frase ele acerta a nota)
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

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