17.10.14

Felipe e o cemitério


- Olha, pai, um cemitério!

O Felipe está na fase de descoberta de histórias de vampiros e zumbis. Está fascinado. É preciso controla-lo porque é o seu maior interesse. E ele é muito pequeno ainda: mistura muito a fantasia e a realidade. Talvez por isso o seu interesse por cemitérios. Ele vive me pedindo para que o leve a cemitérios. Já fui com ele. Outro dia fomos a um cemitério bastante tradicional perto de casa e as lápides, na infinidade de estilos e cores, eram o mais interessante. Ficamos bastante tempo passeando entre as lápides, ele a perguntar sobre onde estavam enterradas as pessoas, o que estava escrito nas lápides, perguntas sobre anjos, “o” Jesus, Deus... E, claro, não faltaram momentos em que ele me tranquilizava: “Pode vir, não precisa ter medo!”

Recentemente um grande amigo morreu e fomos ao velório. Sua mãe queria deixa-lo na escola antes. Não concordei: como ele gosta tanto de cemitérios, seria quase um crime contra ele privá-lo dessa experiência. Fomos ao cemitério. Ergui-o para ver a face do amigo falecido. Aos 5 anos ele parece mais familiarizado com a morte do que eu quando tinha 6 anos, primeira vez que fui a um velório, que eu me lembre. E talvez a familiaridade se dá justamente porque o tema da morte o alcançou muito mais precocemente quanto a mim e hoje em dia essas questões estão menos mistificadas, o que permite as crianças mais novas encararem o tema com menos medo. Na minha experiência dos 6 anos, restou a memória daquele caixão enorme na casa da família do morto a me perseguir durante um bom tempo (naquele tempo os mortos eram velados em suas residências).

Depois de ver o amigo morto, ele me pediu para ir ver o que realmente lhe interessava: as lápides. Lá fomos nós à expedição de exploração das lápides. Como se trata do cemitério municipal da cidade, as lápides são em maior número mas padronizadas. Não existe a riqueza do outro cemitério. Ele não gostou muito, ainda que exista uma parte delas, mais antiga, do tempo em que não havia tanta padronização, com um pouco mais de riqueza. Por isso ele me pediu para que voltássemos ao outro cemitério novamente porque ele queria “visitar os parentes”, referindo-se ao motivo que lhe dei e que justificava a presença das pessoas que havíamos visto no outro cemitério a contemplar as lápides gélidas.

Foi nesse contexto, na sua enésima cobrança para irmos ao cemitério, que paramos em um semáforo e ele apontou para um portal que dava para uma alameda sinuosa e arborizada, o endereço bem na altura do semáforo, e me mostrou: “olha, pai, um cemitério!”


Eu lhe respondi de imediato: “Não, Felipe, isso não é um cemitério!” Mas imediatamente me arrependi, por conta das perguntas que poderiam vir dessa minha informação. Afinal, naquele sítio viceja vida, apesar de guardar alguns paralelos com o cemitério, já que apesar da vida, há muitos componentes que podem estar mesclados, como a dor, o abandono, a queda, e tantos outros sentimentos complexos que, de sua maneira, remetem à morte, e é sempre muito difícil, e de fato muitas vezes impossível, determinar o limite de cada elemento dessa paleta de possibilidades, desde a vida, com suas alegrias, coloridos, explosões de prazer e felicidade, até o outro extremo onde pode aparecer os tons cinzas da dor, do desengano, do lamento ou até mesmo da morte, por que não? Apesar da violência e caráter definitivo da morte, além do seu impacto de reflexões existenciais que ela nos causa, aquele portal com sua alameda me parecia muito mais complexo de explicar para meu filho de 5 anos. E foi por isso que fiquei feliz a ver que ele perdera o interesse imediatamente e eu disfarcei enquanto o rádio tocava “Twelve’s It” com a Marsalis Family, afinal, não seria muito fácil explicar para meu garoto de 5 anos o conceito de motel.
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

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