20.10.14

A mala vazia

A cena era a seguinte, uma mulher comum é obrigada a ser 'mula' de traficante, ou seja, traficar droga dentro do corpo de algum país da Ásia para a Europa. A droga não é uma droga comum, trata-se de uma droga sintética que consegue imitar um hormônio, ou algo do tipo, que uma mulher grávida produz em determinado estágio da gestação onde ocorre uma aceleração no desenvolvimento do bebê.
Esta mulher, bastante bonita (Scarlet Johanson), fica à mercê de terríveis traficantes que resolvem tirar uma casquinha. Ela, muito valente, resiste e por isso apanha um tanto. Dentre muitos golpes, a embalagem da super droga que estava dentro da moça se rompe e ela absorve uma quantidade cavalar. Overdose, morte?! Não, ao invés disso, a super dosagem confere super poderes à menina.
Ela passa a ter super inteligência e super força, capaz de botar pra dormir uma meia dúzia de capangas armados, sobe no teto, pula, rodopia… de deixar Neo com medinho...
No final da cena, a moça que vestia uma camiseta regata, pega a jaqueta de um dos capangas e a jaqueta a veste certinho. Foi então que escutei uma voz carregada de indignação vinda da cadeira de trás:
- Ahh tá, a jaqueta serviu!

A cena teve tudo de surreal e …silêncio… foi a jaqueta no tamanho certo que despertou a indignação, afinal aquilo não era provável, possível e aceitável.

O fato me remeteu às minhas mais antigas lembranças de assistir filmes com meu pai. Não importava qual era o enredo, a trama ou a improvabilidade das cenas, aparecia alguém carregando uma mala e lá vinha meu pai dizendo:
- Xii, mas a mala está vazia.

Eu e meus irmãos nos olhávamos, as vezes ríamos, as vezes nos irritávamos, mas ele ainda continuava:
- Nem pros caras colocarem alguma coisa dentro. 

De fato, não custava o contra-regras colocar alguma porcaria qualquer dentro, pra passar maior veracidade na mala, mas tenho a impressão que aquilo só incomodava mesmo era meu pai.

Extraterrestre capaz de fazer crianças de bicicleta voarem, tudo bem. Agente inglês capaz de criar e acabar com uma guerra sozinho, beleza. Soldado desertor que amarra uma faixa na cabeça e mata um exército inteiro, ok. Um coroa com rabo de cavalo que acaba com uma trama internacional lutando karatê (ou era kunf-fu?), isso passa.

Mas se aparecia a tal da mala. Ah, aquilo era imperdoável, afinal ninguém carregaria uma mala vazia, não faz o menor sentido né.

Isso nunca teve fim, até hoje é só aparecer uma mala sendo carregada que o pai, crítico de cinema, arremata:
- Ahh, mas a mala está vazia.

P.S.: A cena descrita é do filme Lucy, que nem é lá essas coisas.
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- Ev Melo
Idealizador e curador deste espaço. É uma pessoa rara, como outra qualquer.

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