23.10.14

a carverna de platão e a caverna do dragão

​no dia do assombro, com lâmina afiada, começamos a cortar os pulsos. desde então prosseguimos.
​devo me perguntar qual este o espanto que nos arrebatou? nasceu como os tumores silenciosos? foi fabricado furtivamente? estava no mofo dos livros que sem permissão aprendemos a ler.
porque fomos tomados de um desassossego, um que nos tirou do mundo para jamais regressarmos, fez de nós os inquilinos quase-mortos, de alma que não nos deixa, antes é, agora, inchada, arrogante-soberba, e nós ficamos do lado de fora inquirindo o quê das coisas, quê vivido, quê ausente, quê alheio. agoniados de existir, agoniados e admirados de que haja mundo!
enquanto desce, reluzente e fria, uma lâmina, abrimos portas encontrando após elas senão, outras tantas e mais portas. aprisionados ao tempo, ao corpo, à alma mesma, os inquilinos herméticos e sangrantes, e tanto mais: desnecessários...
o sábio imperador sabia: quando nos falta o pensador, permanecemos  aliviados, assim os povos deambulam, conjecturam, demandam, esgotam-se, esvaem-se. e nós, as criaturas de asas alquebradas, dês-construtores e dês-esperados, ficamos muito vivos, suspensos por este incômodo inevitável, por este desassossego e pelo espanto que nos tirou da caverna e nos tirou algo mais, um algo irrecuperável e desconhecido.
inquilinos desnecessários e sem sossego, desconhecemos o dia natal, caminhantes ao inesgotável, até o nada perpétuo, embora sermos, contudo, os sem-solução, os sem-resposta, os sem-remédio, lavoramos esta empresa, sentados nalgum degrau em silêncio, olhos cautos admiram maravilhas e também horrores.
já por esta manhã, posto que perdidos os significados e relativizados os hábitos, não restou-nos ordem nem eixo no universo e nós... inquilinos silenciosos, irremediáveis desnecessários desde o dia irreconhecível que nos arrebatou do mundo e nos atou em pulsos dilacerados, nós sangrantes, sentados nalgum degrau agoniados olhamos a volta de nós os escombros de todos os prédios que pusemos à baixo, esperamos, oportunamente, que a noite se atrase para que possamos abrir mais uma porta, exaustos há dias e acordados para sempre.
estamos existindo no avesso das coisas, na beleza do inalcançável.
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- kelly guimarães
filósofa das letras pequenas. textos profundos e maiúsculos, tudo em letras minúsculas.

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