30.10.14

Como surgem as tais opiniões chutadoras de bundas

Cara, tenho uma teoria interessante 

Porque eu acho que vou discordar disso?

Porque você não ouviu ainda.

Tenho escolha?

Não. Estava pensando sobre toda essa discussão política e ideológica que rolou no Face essa semana.

As palavras discussão, política e ideológica junto ao Face não fazem o menor sentido a muito tempo.

Que seja. O que pautou todos os diálogos foi uma coisa simples que todos tem, ou deveriam ter.

Um coração?

Uma opinião.

E porque todos devem ter uma opinião?

Porque não deveriam?

Por uma série de motivos, mas continue, minha estação está chegando.

A opinião é como uma macinha de modelar, enquanto está só ela é maleável, fraca e pode ser destruída facilmente. Mas quando você junta sua opinião outras ela fica forte, indestrutível e destruidora. Eficaz.

É a coisa mais idiota e superficial que já ouvi hoje.

Já tenho uns quinze amigos que agregaram suas opiniões a minha teoria e agora ela já pode chutar umas bundas por aí.

Então sua opinião serve pra chutar bundas?

Se for a de algum candidato em questão, é justamente para isso.

Minha estação chegou, espero que não seja a mesma que a sua. Mas antes de eu ir, me diz quando você chegou a esta teoria.

No intervalo da novela, aquela com a música dos beetles. Porque?

<sorriso> Nada, isso explica muita coisa. 


__________
- Nuno Junior
Tentou de tudo. Tentou escrever, tentou fotografar, tentou tocar, tentou desenhar e tentou pintar mas  nunca conseguiu. Até hoje ele não sabe se os seus padrões são muito altos ou seu talento é muito baixo,  mas o Nuno não desistiu.

Hino à Bandeira

o Kol Brasilis está entrando em uma nova fase: resolvemos desempoeirar nossos arranjos e publicá-los no Youtube.

A estreia é com o Hino à Bandeira. Ficarei muito feliz se você assistir, gostar, assinar nosso canal para não perder os próximos arranjos e compartilhar esse primeiro.



Se você puder ouvir com um bom fone de ouvido, desfrutará melhor da percussão.

Se você é músico e gosta de partituras, pode acompanhar o arranjo aqui.

Se você gosta de ler, pode ver um breve histórico dele aqui:

Abraço,
__________
- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

29.10.14

EGO – ISMO

Ás vezes, confundimos um pouco sobre a que vem a ser o EGO e o que significa o EGO-ismo. Creio que podemos de forma simples descrever um pouco sobre o que é um e o que é outro.
“ Ego significa o eu de cada um, é o defensor da personalidade, é um termo muito utilizado na psicanálise e na filosofia. A principal função do ego é procurar harmonizar os desejos e a realidade, e posteriormente, entre esses e as exigências; os valores da sociedade.”. Gosto dessa definição de EGO, pois descreve a função dele(EGO) em nossas vidas, ou seja, “procurar harmonizar os desejos e a realidade”.

O desejo e a realidade são características dos seres humanos, sim, todos nós temos desejos que na realidade são vontades que aparecem muitas vezes sem que tenhamos um real entendimento do que são, mas aparecem isso é fato. E, as realidades são os contra pontos dos desejos. Mais ou menos assim: Eu tenho desejo de comprar um carro novo( desejo), mas, não tenho dinheiro para comprar(realidade), logo, vou deixar para depois esse desejo. Na maioria das situações na vida acontecem assim.

O EGO é quem administra os desejos e as realidades de nossas vidas e, tanto um como o outro estão muito mais relacionados com o consciente do que o inconsciente, claro, que o EGO também está até um determinado “espaço” atuando no inconsciente, porém é no consciente onde o EGO mais atua e administra os desejos e as realidades.

De forma normal o EGO faz seu papel de forma simples e fácil, ou seja, os desejos aparecem e, as realidades são demonstradas e aí decidimos o que fazer.
O problema começa quando o “ISMO” ou “CENTRICO” entram em ação. Para falarmos um pouco sobre isso vamos avaliar o que significa o “ISMO”.

“ "ismo", sufixo de origem grega que exprime a ideia de fenômeno linguístico, sistema político, religião, doença, esporte, ideologia etc.” Bem, como lemos, o “ismo” é um sufxo e, que é colocado na sequencia de uma palavra relacionada como: Marx, fica Marxismo, Islã – Islamismo, Cristão – cristianismo. EGO – Egoísmo, e por aí vai.
Bem, quando colocamos esse sufixo na maioria das vezes é porque colocamos a frente de tudo, ou seja, um “ismo” é na realidade o que EU quero antes de tudo. 

Falando especificamente  sobre Egoísmo (ego + ísmo) é o hábito ou a atitude de uma pessoa colocar seus interesses, opiniões, desejos, necessidades em primeiro lugar e realidades, em detrimento (ou não) do ambiente e das demais pessoas com que se relaciona. Neste sentido, é o antônimo de altruísmo.

Quando não controlamos nosso EGO, podemos correr o risco de nos contaminarmos pelos “ismos” e isso, pode ser muito prejudicial para nossas vidas e para as vidas daqueles que nos rodeiam.

O controle do EGO pode ser feito entendo sobre nossos “desejos” e sobre nossas “realidades”, quando consigo administrar essas duas em minha vida consigo capacitar meu EGO a diminuir o “ismo”. Quando não consigo controlar meus “desejos” e minhas “realidades” abro brechas para que o “ismo” invada meu EGO e, ai podem acontecer muitos processos desagradáveis na vida e na vida dos que me rodeiam.

Simples assim,
__________
- Paulo Bregantim
Psicanalista Clínico. Escreve sobre a alma e coisas simples. Simples assim.
Atende na clínica Reciclar Unidade II.

27.10.14

Sobre amigos bloqueados nas redes sociais

Nas últimas semanas tenho visto relatos de pessoas citando que foram bloqueados por outros por conta de seus posicionamentos políticos. Os comentários sobre isso são quase unânimes: “se lhe bloqueou, não era seu amigo”.

Permita-me discordar. Primeiro, esqueça a balela da música: “Eu quero ter um milhão de amigos...” Isso não existe. Isso é impossível. Amigos mesmo se contam nos dedos da mão. Quando muito, precisamos recorrer aos dedos dos pés também. Amigo é aquele que você pode contar a qualquer hora, em qualquer circunstância. É aquele que lhe empresta dinheiro quando você está na pior e, pasme, sem esperar que você devolva depois! Amigo é aquele que, se acha que você se empolgou e passou dos limites, não tem receio de lhe confrontar e lhe dar uma carinhosa dura. E, se você não concordar com ele, tudo bem, ele não vai deixar de ser seu amigo. Amigo é aquele que está realmente interessado em saber como você está, como vai sua vida e, sem que precise muita logística, está acessível. Etc.

Agora faça um inventário dos seus “amigos” do facebook, por exemplo, e veja quantos que se encaixam nesse perfil. Provavelmente seus dedos das mãos e, eventualmente, dos pés, darão conta do recado: não precisarei emprestar meus dedos. Portanto, os demais, são conhecidos, pessoas com afinidades em comum, enfim, o nome que você quiser dar. Mas não podem ser considerados amigos de verdade.

Isso posto, se alguém lhe bloqueou em alguma rede social por conta da sua posição política, relaxe, isso não tem nada a ver com amizade. Eu mesmo tenho um exemplo pessoal. Tenho um casal de amigos de longos anos conectados pelo facebook. De uns tempos para cá eles me davam uns “toques”, algumas “reprimendas” por julgarem minha forma de pensar – diferente da deles – errada (em contraste com a forma de pensar deles, supostamente a “certa”). Eu sempre vi esse tipo de manifestação como sincera preocupação deles comigo. Por outro lado me preocupava um pouco o fato de eles se preocuparem tanto com minha forma de pensar em questões que as pessoas podem ter opiniões tão divergentes. Até que recentemente eles me bloquearam. Oh!!! Que decepção, achei que fossem meus amigos!!! Nada disso. Seria injusto da minha parte não considera-los meus amigos somente porque me bloquearam no facebook. Seria mais razoável pensar que eles não conseguiram conviver comigo, ainda que virtualmente, dado que eu penso em algumas questões diferente deles. O que eu posso concluir disso? Simples: eles não estão tão preparados, como eu acho que seria razoável, para conviver em um espaço plural; eles têm dificuldades de conviver com pessoas que pensam diferente; eles preferem se afastar dessas pessoas. Deve ser difícil para eles ver um amigo dizendo coisas tão “horríveis”.

Voltemos às pessoas que bloqueiam quem pensa diferente nas redes sociais. Eu diria que há 2 grupos de pessoas: (1) aquelas que não querem ler nada que fuja muito do que elas pensam e já bloqueiam de cara: essas pessoas deveriam ser mais criteriosas quando aceitam/fazem convites de amizade e não encaram essas redes como um espaço em que pessoas, ainda que pensem diferente, possam se relacionar e, de repente, descobrirem pontos em comum, e (2) aquelas pessoas que estão dispostas, sim, a se relacionarem com outras, ainda que virtualmente, mas se incomodam tanto com os que pensam diferente que, basta uma discussão mais acalorada e, ploft!, dá-lhe bloqueio.

Eu diria que o primeiro grupo são de pessoas que tendem para o egoísmo (“pensou diferente de mim, eu bloqueio mesmo!”) e o segundo grupo de pessoas que não têm maturidade emocional para trocas de ideias mais divergentes. E ambos, me desculpem a sinceridade, carentes de mais maturidade.

Portanto, se você foi bloqueado por pensar diferente, não perdeu um amigo, provavelmente perdeu apenas um adulto imaturo, infantilizado.
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

23.10.14

a carverna de platão e a caverna do dragão

​no dia do assombro, com lâmina afiada, começamos a cortar os pulsos. desde então prosseguimos.
​devo me perguntar qual este o espanto que nos arrebatou? nasceu como os tumores silenciosos? foi fabricado furtivamente? estava no mofo dos livros que sem permissão aprendemos a ler.
porque fomos tomados de um desassossego, um que nos tirou do mundo para jamais regressarmos, fez de nós os inquilinos quase-mortos, de alma que não nos deixa, antes é, agora, inchada, arrogante-soberba, e nós ficamos do lado de fora inquirindo o quê das coisas, quê vivido, quê ausente, quê alheio. agoniados de existir, agoniados e admirados de que haja mundo!
enquanto desce, reluzente e fria, uma lâmina, abrimos portas encontrando após elas senão, outras tantas e mais portas. aprisionados ao tempo, ao corpo, à alma mesma, os inquilinos herméticos e sangrantes, e tanto mais: desnecessários...
o sábio imperador sabia: quando nos falta o pensador, permanecemos  aliviados, assim os povos deambulam, conjecturam, demandam, esgotam-se, esvaem-se. e nós, as criaturas de asas alquebradas, dês-construtores e dês-esperados, ficamos muito vivos, suspensos por este incômodo inevitável, por este desassossego e pelo espanto que nos tirou da caverna e nos tirou algo mais, um algo irrecuperável e desconhecido.
inquilinos desnecessários e sem sossego, desconhecemos o dia natal, caminhantes ao inesgotável, até o nada perpétuo, embora sermos, contudo, os sem-solução, os sem-resposta, os sem-remédio, lavoramos esta empresa, sentados nalgum degrau em silêncio, olhos cautos admiram maravilhas e também horrores.
já por esta manhã, posto que perdidos os significados e relativizados os hábitos, não restou-nos ordem nem eixo no universo e nós... inquilinos silenciosos, irremediáveis desnecessários desde o dia irreconhecível que nos arrebatou do mundo e nos atou em pulsos dilacerados, nós sangrantes, sentados nalgum degrau agoniados olhamos a volta de nós os escombros de todos os prédios que pusemos à baixo, esperamos, oportunamente, que a noite se atrase para que possamos abrir mais uma porta, exaustos há dias e acordados para sempre.
estamos existindo no avesso das coisas, na beleza do inalcançável.
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- kelly guimarães
filósofa das letras pequenas. textos profundos e maiúsculos, tudo em letras minúsculas.

20.10.14

A mala vazia

A cena era a seguinte, uma mulher comum é obrigada a ser 'mula' de traficante, ou seja, traficar droga dentro do corpo de algum país da Ásia para a Europa. A droga não é uma droga comum, trata-se de uma droga sintética que consegue imitar um hormônio, ou algo do tipo, que uma mulher grávida produz em determinado estágio da gestação onde ocorre uma aceleração no desenvolvimento do bebê.
Esta mulher, bastante bonita (Scarlet Johanson), fica à mercê de terríveis traficantes que resolvem tirar uma casquinha. Ela, muito valente, resiste e por isso apanha um tanto. Dentre muitos golpes, a embalagem da super droga que estava dentro da moça se rompe e ela absorve uma quantidade cavalar. Overdose, morte?! Não, ao invés disso, a super dosagem confere super poderes à menina.
Ela passa a ter super inteligência e super força, capaz de botar pra dormir uma meia dúzia de capangas armados, sobe no teto, pula, rodopia… de deixar Neo com medinho...
No final da cena, a moça que vestia uma camiseta regata, pega a jaqueta de um dos capangas e a jaqueta a veste certinho. Foi então que escutei uma voz carregada de indignação vinda da cadeira de trás:
- Ahh tá, a jaqueta serviu!

A cena teve tudo de surreal e …silêncio… foi a jaqueta no tamanho certo que despertou a indignação, afinal aquilo não era provável, possível e aceitável.

O fato me remeteu às minhas mais antigas lembranças de assistir filmes com meu pai. Não importava qual era o enredo, a trama ou a improvabilidade das cenas, aparecia alguém carregando uma mala e lá vinha meu pai dizendo:
- Xii, mas a mala está vazia.

Eu e meus irmãos nos olhávamos, as vezes ríamos, as vezes nos irritávamos, mas ele ainda continuava:
- Nem pros caras colocarem alguma coisa dentro. 

De fato, não custava o contra-regras colocar alguma porcaria qualquer dentro, pra passar maior veracidade na mala, mas tenho a impressão que aquilo só incomodava mesmo era meu pai.

Extraterrestre capaz de fazer crianças de bicicleta voarem, tudo bem. Agente inglês capaz de criar e acabar com uma guerra sozinho, beleza. Soldado desertor que amarra uma faixa na cabeça e mata um exército inteiro, ok. Um coroa com rabo de cavalo que acaba com uma trama internacional lutando karatê (ou era kunf-fu?), isso passa.

Mas se aparecia a tal da mala. Ah, aquilo era imperdoável, afinal ninguém carregaria uma mala vazia, não faz o menor sentido né.

Isso nunca teve fim, até hoje é só aparecer uma mala sendo carregada que o pai, crítico de cinema, arremata:
- Ahh, mas a mala está vazia.

P.S.: A cena descrita é do filme Lucy, que nem é lá essas coisas.
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- Ev Melo
Idealizador e curador deste espaço. É uma pessoa rara, como outra qualquer.

17.10.14

Felipe e o cemitério


- Olha, pai, um cemitério!

O Felipe está na fase de descoberta de histórias de vampiros e zumbis. Está fascinado. É preciso controla-lo porque é o seu maior interesse. E ele é muito pequeno ainda: mistura muito a fantasia e a realidade. Talvez por isso o seu interesse por cemitérios. Ele vive me pedindo para que o leve a cemitérios. Já fui com ele. Outro dia fomos a um cemitério bastante tradicional perto de casa e as lápides, na infinidade de estilos e cores, eram o mais interessante. Ficamos bastante tempo passeando entre as lápides, ele a perguntar sobre onde estavam enterradas as pessoas, o que estava escrito nas lápides, perguntas sobre anjos, “o” Jesus, Deus... E, claro, não faltaram momentos em que ele me tranquilizava: “Pode vir, não precisa ter medo!”

Recentemente um grande amigo morreu e fomos ao velório. Sua mãe queria deixa-lo na escola antes. Não concordei: como ele gosta tanto de cemitérios, seria quase um crime contra ele privá-lo dessa experiência. Fomos ao cemitério. Ergui-o para ver a face do amigo falecido. Aos 5 anos ele parece mais familiarizado com a morte do que eu quando tinha 6 anos, primeira vez que fui a um velório, que eu me lembre. E talvez a familiaridade se dá justamente porque o tema da morte o alcançou muito mais precocemente quanto a mim e hoje em dia essas questões estão menos mistificadas, o que permite as crianças mais novas encararem o tema com menos medo. Na minha experiência dos 6 anos, restou a memória daquele caixão enorme na casa da família do morto a me perseguir durante um bom tempo (naquele tempo os mortos eram velados em suas residências).

Depois de ver o amigo morto, ele me pediu para ir ver o que realmente lhe interessava: as lápides. Lá fomos nós à expedição de exploração das lápides. Como se trata do cemitério municipal da cidade, as lápides são em maior número mas padronizadas. Não existe a riqueza do outro cemitério. Ele não gostou muito, ainda que exista uma parte delas, mais antiga, do tempo em que não havia tanta padronização, com um pouco mais de riqueza. Por isso ele me pediu para que voltássemos ao outro cemitério novamente porque ele queria “visitar os parentes”, referindo-se ao motivo que lhe dei e que justificava a presença das pessoas que havíamos visto no outro cemitério a contemplar as lápides gélidas.

Foi nesse contexto, na sua enésima cobrança para irmos ao cemitério, que paramos em um semáforo e ele apontou para um portal que dava para uma alameda sinuosa e arborizada, o endereço bem na altura do semáforo, e me mostrou: “olha, pai, um cemitério!”


Eu lhe respondi de imediato: “Não, Felipe, isso não é um cemitério!” Mas imediatamente me arrependi, por conta das perguntas que poderiam vir dessa minha informação. Afinal, naquele sítio viceja vida, apesar de guardar alguns paralelos com o cemitério, já que apesar da vida, há muitos componentes que podem estar mesclados, como a dor, o abandono, a queda, e tantos outros sentimentos complexos que, de sua maneira, remetem à morte, e é sempre muito difícil, e de fato muitas vezes impossível, determinar o limite de cada elemento dessa paleta de possibilidades, desde a vida, com suas alegrias, coloridos, explosões de prazer e felicidade, até o outro extremo onde pode aparecer os tons cinzas da dor, do desengano, do lamento ou até mesmo da morte, por que não? Apesar da violência e caráter definitivo da morte, além do seu impacto de reflexões existenciais que ela nos causa, aquele portal com sua alameda me parecia muito mais complexo de explicar para meu filho de 5 anos. E foi por isso que fiquei feliz a ver que ele perdera o interesse imediatamente e eu disfarcei enquanto o rádio tocava “Twelve’s It” com a Marsalis Family, afinal, não seria muito fácil explicar para meu garoto de 5 anos o conceito de motel.
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

13.10.14

Reflexão sobre Felicidade e passado

Se quiser saber de verdade onde está a felicidade, olhe para o passado. Vasculhe, perceba, entenda e aí viva... 
Felicidade é ter vivido o hoje, que amanhã será o ontem... Deus é sempre bom. 
Felicidade mesmo é não ter um monte de respostas para um monte perguntas, porém ter certeza que Deus mesmo sem responder essas perguntas nos mantem vivos... 
Felicidade é passear pelo passado e perceber que muitas pessoas e coisas se moveram para que eu me tornasse o que me tornei... 
Felicidade é o que Deus fez até aqui. E, se ELE fez no passado, com certeza fará no presente e no futuro. 
Felicidade é passear por algumas imagens do passado e perceber que a alegria esteve presente. Isso é o próprio Deus agindo. 
Felicidade é passear por momentos delicados e difíceis da vida e perceber que no momento certo apareceu a pessoa certa para nos ajudar, isso foi ação de Deus... 
Felicidade é passear pelos momentos passados e perceber que em pequenos detalhes da infância Deus se manifestou e nos fez feliz... 
Felicidade é passear pelas amizades que tivemos durante a vida e, entender que Deus esteve presente em muitas delas... 
Felicidade é passear pela mente e entender que Deus Não nos abandona nunca... 
Felicidade é passear pelo passado e verificar que Deus esteve lá em muitas situações... Assim que penso.
__________
- Paulo Bregantim
Psicanalista Clínico. Escreve sobre a alma e coisas simples. Simples assim.
Atende na clínica Reciclar Unidade II.



10.10.14

Um homem não nega um duelo

Era domingo.
Em algum lugar da África fui a uma casa de Americanos que vivem por lá.
Eu não conhecia a maioria das pessoas e como sou tímido quando não conheço ninguém, me sentei no sofá depois de receber a permissão dos donos da casa.
Os outros na casa conversavam em um outro ambiente do mesmo cômodo e de repente ele chega, senta-se no sofá em frente ao que eu estava e sem ao menos se apresentar começa a falar, falar e falar.
Depois, com aquele ar superior de americano, começa a perguntar coisas da minha vida como se fizesse parte da polícia secreta ou talvez um jornalista sensacionalista querendo encontrar algo interessante para as massas.
Percebendo o teste a que eu estava sendo submetido fui respondendo tentando com muita dedicação eliminar meu sotaque brasileiro. Até nos finais das frases eu lançava aquelas típicas expressões que apenas nativos falam.
Ele continuava me interrogando como se a etiqueta e os limites não existissem.
Alguém passa e menciona a ele que eu toco violão e poderia ajuda-lo a melhorar na execução do instrumento. Ele desconversa, mas outros insistem e ele cede. Ele chega com o violão, tira da capa, coloca na minha mão e diz: “Let me see what you’ve got”. 
Eu tímido e pressionado pelo status de músico brasileiro que à força me impuseram sinto a pressão de que teria que usar os super poderes de Tom Jobim, Chico Buarque e Toquinho juntos para mostrar harmonias desumanas, voz emocionante e sensibilidade à flor da pele. 
Toco meu melhor número, aquela música que está sempre bem preparada debaixo da manga.
Quando termino penso: Ufa, acho que me saí bem.

Alguém fala do fundo: “Ensine uns acordes bem brasileiros a ele”.
Ele me olha com aquela cara de quem não está gostando, mas que sabe que é inevitável passar por isso. 
Eu partilhava do mesmo sentimento, mas devido à situação mostrei alguns acordes. Ele fingiu interesse, tentou algumas vezes, guardou o violão e mudou de assunto para um assunto que ele dominava: vídeo games.
Ele falou sobre vários jogos até chegar no de futebol.
De repente parou por um momento, me deu aquele olhar do velho oeste quando se chama outro homem para um duelo e perguntou: Quer jogar uma partida?
Eu nunca fui muito de jogar vídeo games e sabia que provavelmente eu perderia, mas um homem honrado não nega um duelo. Um jogo de vídeo game pode parecer coisa de criança, mas pode significar a honra de um homem.
Retruquei o olhar confiante e disse: Com certeza!
Chegamos em frente à TV. Eu, ele e seu irmão. Eu disse: Normalmente não jogo vídeo game então me fale para que serve cada botão e começaremos.
Dito isso eu tirei a pressão de mim, afinal ele era o cara que sabia todas as táticas e comandos. 

Começamos o jogo. 

Enquanto ele pegava a bola e fazia jogadas de efeito eu tentava manter a bola longe da minha área. Fui me adaptando ao controle, pensei que daria para arrancar um empate.
Peguei a bola e em 3 toques estava eu e o goleiro. Apertei o botão para chutar. A bola vai em direção ao gol, mas o goleiro defende.
Logo em seguida ele faz uma jogada de contra ataque e abre o placar.
“Vamos que ainda dá.” Pensei comigo.
Faço uma jogada boa, chuto e a bola entra.
Por dentro comemoro como se tivesse feito o gol de uma final de copa do mundo, mas por fora faço cara de normalidade e confiança.
A partida continua e quando percebo o jogo está 4 x 1 para ele.
“Preciso reagir.” Pensei.
Lanço a bola, corro em direção ao gol e ele com uma entrada violenta, comete pênalti.
O Juiz apita, aponta o centro da área, tira o cartão vermelho e expulsa o jogador sanguinário.

Corro, chuto e GOOOLLL!

O jogo segue e ele comete outra falta violenta perto da área. Outro cartão vermelho para ele. Ele contesta. Eu em silêncio tento bater a minha primeira falta perto da área. Nem sei qual botão apertar. O irmão dele tenta dar palpites para me desconcentrar. Coloco um pouco para a esquerda contando com o efeito na bola que na minha mente funcionaria com um botão extra na parte de trás do controle. Aperto o botão e torço. A bola ganha o efeito desejado, faz uma curva a lá Roberto Carlos e GOOOOLLLL!
O marcador mostrava 4 x 3 para ele e faltando mais ou menos 1 minuto para terminar a partida.
Como ele tinha 2 zagueiros a menos, resolvi jogar no contra ataque. Roubava a bola, chutava para o meio, tentava pegar a bola e lançar para os meus atacantes. 
Em uma das minhas tentativas, fiz o gol de empate!
Só precisava de mais um.
Decidi continuar com a mesma estratégia. A posse de bola era minha. 
Fiz uma troca de passes e me vi cara a cara com o último zagueiro. Não havia tempo para esperar alguém chegar para passar a bola. Resolvi tentar uma jogada de efeito que espiei meu adversário fazendo durante a partida. 

Minha única alternativa era tentar. 
Tentei. Consegui.
A zaga estava toda batida. 
O goleiro era meu último obstáculo para a glória.
Perguntei-me como Ronaldo o Fenômeno faria.
Joguei a bola para um lado, peguei do outro lado e em um chute preciso a bola balançou a rede.

Dei um grito: GOOOOLLLL!!!!

Logo após a partida acabou.
Olhei para o meu adversário, ele olhou para mim, estendeu a mão e me cumprimentou.
Eu havia provado àquele menino de 10 anos quem era o homem ali.
Na caminhada.
__________

- Rafael Bertolino
Missionário da 'Operação Mobilização' servindo no navio Logos Hope ao redor do mundo. Fala de futebol e teologia ao redor da mesa, as vezes ao mesmo tempo. É músico por insistência e escreve por necessidade própria. Corinthiano e sofredor pela graça. Seguidor do Jesus de Nazaré acima de tudo, acredita que o reino de Deus é um reino de amigos.

3.10.14

Petrushka - Igor Stravinsky

Meu emprego de office-boy aos 15 anos, na concessionária Ford Mercantil São Caetano, me proporcionou algumas alegrias na adolescência. Primeiro que eu tinha de viajar para pegar cheques de consórcio em clientes. Meus pais tiveram que assinar um termo liberando-me para fazer viagens de ônibus a partir do Terminal Rodoviário do Tietê, já que algumas viagens eram para o interior paulista. Para um garoto de 15 anos daquela época era uma experiência ímpar.

Outras alegrias proporcionadas por esse trabalho foram a possibilidade de eu assinar a Revista Veja, que eu lia inteirinha, inclusive as propagandas (imagine isso!), me permitiu fazer um curso chamado “Tecnologia Intelectual” no IADI que abrangia técnicas de oratória, leitura dinâmica, aprendizagem veloz, memorização, motivação e concentração. Eu havia visto um anúncio em um ônibus e, numa das minhas idas à Av. Paulista, passei no escritório deles dizendo-me interessado pelo curso. Era um lugar bastante chique. Tive a impressão que a recepcionista ficou surpresa com meu interesse, já que descobri depois que eu era o único adolescente do curso: o restante eram pessoas em cargo de gerenciamento. Daí eu entendi porque a moça do curso pediu para eu não divulgar o valor que eles estavam cobrando de mim para ninguém. Acho que lhes pareceu tão engraçado um adolescente se interessar pelo curso que resolveram me fazer um preço especial. Provavelmente o curso era caro para minhas possibilidades.

Outra alegria proporcionada pelo trabalho foi quando recebi meu primeiro salário. No sábado seguinte fui até a Rua São Bento, em uma loja de discos, e comprei os meus primeiros discos de vinil: Scheherazade, poema sinfônico de Rimksky Korsakov (minha peça sinfônica predileta naquela época e durante muitos anos) e Petrushka, balé de Igor Stravinsky. Poderia falar bastante de Scheherazade, por conta da minha ligação emocional com ela, mas hoje será sobre Perushka.

Desde a primeira audição, o balé me cativou por conta das suas ideias que me pareciam muito extravagantes, estimulantes, diferentes do tipo de música que eu ouvia, mais melódica, mais regular ritmicamente. Eu devo ter gasto o vinil de tanto ouvir o balé. Inclusive acompanhava com minha flauta doce. Cheguei a transcrever o solo de trompete pelo prazer de tê-lo transcrito (https://www.youtube.com/watch?v=hNYaBUFxPOc). Anos mais tarde, na faculdade, deixei-o escrito em uma lousa de uma das salas no IMES (atual USCS) e sempre imaginei qual seria a reação das pessoas ao se depararem com aquele manuscrito musical.

Falar da peça é chover no molhado pois se trata de uma peça popularíssima e há incontáveis referências a ela na internet. Como se trata de uma peça um pouco mais extensa, não há espaço para falar sobre ela, mas um bom resumo pode ser lido aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Petrushka_(ballet). Algo que me agrada muito em Stravinsky é seu caráter percussivo: suas obras são bastante percussivas. Já ouvi alguém dizer que Stravinsky conseguiu provar que o piano é, de fato, um instrumento de percussão.

Por fim, gostaria de ressaltar um aspecto que muito me agrada: transcrições. Um dos meus prazeres favoritos na música é ouvir diferentes versões de uma determinada composição. Coisa de arranjador. Transcrições bem feitas são um deleite à parte. Transcrições para piano dessa peça são bastante comuns, inclusive a 4 mãos, para darem conta de todas as ideias musicais da peça. Infelizmente não encontrei nada no Youtube em que pudéssemos ver a peça completa. Somente excertos. Esse vídeo é um bom exemplo de um excerto para piano solo muito bem executado: https://www.youtube.com/watch?v=8MyAkZpGv60.

Falei de transcrições porque gostaria de citar uma que eu gosto bastante, para duo de acordeons. Infelizmente não encontrei no Youtube. Mas usuários dos Spotify podem encontrar a gravação a que me refiro ao pesquisar por “James Crabb & Geir Draugsvoll”. É uma interpretação muito boa! É delicioso, para quem conhece a peça tão bem quanto eu, ouvir uma versão em um instrumento solo (ou duo) com a partitura multi-instrumental reduzida a um instrumento apenas. Quando garoto eu gostava de fazer esse exercício: reduzir peças orquestrais para flauta doce a algumas vozes: é preciso se fixar no essencial. Um ótimo exercício.

É isso aí. Sugestão de link para ouvir a peça inteira, em 3 partes: https://www.youtube.com/watch?v=4J9OypE80UE

(a propósito, nesse vídeo que enviei, o trompetista comete um erro crasso no solo do trompete. Será que ele foi demitido? Brincadeira. Erros assim não são tão raros. Imagino que o trompetista ficou um bom tempo remoendo o seu erro. Vamos ao erro: o solo começa com 2 arpejos, um ascendente e outro descendente: la-do-fá (ascendente), do-la-fá (descendente). De novo outro arpejo, agora atingindo a 7ª maior do acorde: la-do-mi (ascendente), do-la-fa, seguido da frase sol-la-si-do-re-mi-re-do-si-do-re-mi-re-do-fa. Ocorre que, no primeiro arpejo ascendente, ele se equivoca e toca la-do-SOL, em vez de lá-do-FA. Isso pode ser observado no minuto 2:26 do segundo vídeo dessa gravação. Na repetição da frase ele acerta a nota)
__________
- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

2.10.14

O trabalho mais ingrato de todos os tempos


O pior trabalho do mundo é o trabalho que foi designado ao tempo. Em toda história de que nos valemos não há nada de mais ingrato, difícil e lento do que o trabalho designado ao tempo. Nem mesmo o próprio universo, imponente e infinito, tem um trabalho mais árduo (até porque este não possui trabalho algum, apenas o dom de existir e ser grande).

Ao tempo foi dado a incumbência de fazer, dia após dia: manhãs, alvoradas, entardeceres, auroras e anoiteceres. Todos os dias, de igual forma. O tempo também faz, com menos rapidez, mudanças gigantescas naquilo que chamamos geografia, arrastando continentes e conteúdos ao longo de longas décadas, milênios de modo que nós não nos esforçamos em contar.

Quanto a nós, humanos, reles humanos, também estamos nas incumbências do tempo. O tempo se encarrega de nos ensinar, de nos orientar, repreender. O tempo faz cair nossos músculos e tirar o vigor de nossa carne. Faz minúsculas fissuras em nossos rostos assim como as faz fissuras, minúsculas, na face da terra. O tempo nos mata e nos faz nascer. Na nossa forma míope de enxergar, o tempo corrre nos fins de semana e nos prazos curtos, se arrasta nas primeiras experiências e nas segundas-feiras. O tempo nunca nos engana, apenas nos da tempo o suficiente pra nos sentirmos traídos, pois nunca entendemos o seu trabalho.

Terrivelmente lento o tempo tem o papel de matar o Sol, resfriar lua, formar a história e andar, a passos lentos, sempre ao seu tempo. Nunca houve um tempo em que o tempo não existiu, o tempo sempre foi e sempre será. Esteve no inicio de todas as coisas, acompanhou todas as coisas e, com suas próprias mãos, destruirá todas as coisas. Fará isto da forma mais enfadonha, lentamente, até o fim dos tempos.

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- Nuno Junior
Tentou de tudo. Tentou escrever, tentou fotografar, tentou tocar, tentou desenhar e tentou pintar mas  nunca conseguiu. Até hoje ele não sabe se os seus padrões são muito altos ou seu talento é muito baixo,  mas o Nuno não desistiu.

1.10.14

Vida após a vida

O dia mais traumatizante da minha vida, foi o dia da minha morte. Digo da primeira e por enquanto única.
Estava vivo e conforto abundava. Hoje sei que era escuro. Sei o que é escuro, porque tenho o claro. Mas quando não se tem antônimo, tudo lhe é sinônimo. 
A vida era boa naquele desconhecido escuro.

Cresci naquele universo, imenso, suficiente e feito à medida, quentinho, seguro e sem pagar impostos.
Passava parte do tempo em descobrimento, de mim mesmo e do ambiente em que vivia, a outra parte eu dormia. Durante o sono profundo o descobrimento permanecia, desta vez guiado não por mim (pelo menos não propositalmente) mas pelo que hoje sei ser o subconsciente. Sonhos disformes e abstratos me alertavam tantas coisas, o futuro até, talvez. 
Ouvia sons, como vozes ecoando em um vale longínquo, abafado. Uma delas, a que mais ouvia, meiga e acalentadora. Que graça! Nem sei explicar porque, mas que graça. Era ouví-la e meu coração parecia querer dançar. 
Eu sorria. Será que de onde vinha aquele som, aquela voz, eles sabiam que eu sorria?
Outro som, este mais grave feito um alegre trovão, vinha ocasionalmente. Passavam-se infinitos tempos até que chegasse, mas quando vinha, que alegria. Eu sorria e me esticava. Meu corpo em vontade própria produzia movimentos enigmáticos. E eu sorria.

Hoje, na minha segunda vida, o tempo parece mais farto, flerta com o infinito.
Na vida anterior pensava o mesmo, mas foi tudo tão rápido, que tristeza eu senti ao ver que o tempo que eu julgava ser eterno passara e lá se ia minha vida toda. Descobri depois que foram 9 meses. Na verdade 8, encurtaram minha primeira vida. 

Não que eu tenha pensado nisso, de fato não, mas se me perguntassem na época se eu acreditava em vida após a morte, diria que não, que eu jamais morreria, aliás, o que é morte?

Traumatizante.

Em um dia estou feliz e brincalhão com a mão que acabara de descobrir, no outro sinto como se o mundo em que vivia não me quisesse mais, e ele deixava isso bastante claro.
Pressão de cima, dos lados, opressão. Dor, incômodo, primeiros sinais de angústia. Sentimento que me acompanha desde então.

Já sentiu dor sem poder gritar? Eu não podia, por não saber, nem sabia que eu mesmo poderia produzir sons. Mas aquele momento adicionado de angústia pareciam querer me ensinar.
Algum tempo, ainda intangível e portanto infinito tempo para mim, se passara e um feixe, quase uma flecha, atravessara a segura atmosfera em que passara a vida toda, me atingindo o corpo, os olhos. Sinto a dor do corpo precisando se ajustar depressa àquele novo universo. Os pulmões de dilatando pela primeira vez dão os primeiros sinais de que àquela nova vida não seria das mais fáceis.
Estou morrendo. - a sensação era essa, ainda que ignorasse a expressão 'morte'.

Algo me puxa para fora do meu mundo. Certamente era um ser superior, talvez um deus. Descubro então que tenho um grito adormecido dentro de mim e a todo pulmão o acordo. Berro até perder o ar que acabara de achar.
Droga de morte, não poderia ser menos dolorida?!
Esse deus, vestido de azul claro e de olhos atentos, tinha uma cara bem estranha, uma coisa branca ao invés de boca e nariz.
Será que eu fiz algo errado na minha vida e estou sendo castigado por esse deus azul claro?

Ele então me apresenta alguém, descansa meu corpo ao lado daquela voz. "Oi filho". Ouço aquilo e meu coração palpita. Parece que não sei mais sorrir. Era a mesma voz, o mesmo timbre, melodia, e agora nada abafada, era nítida como uma pérola.
Castigo aquilo não era.

Em seguida chega o trovão alegre, me diz "Oi menino". Meu corpo se estica de emoção, mas como não sabia sorrir nem falar, chorava. Mas era riso, vocês me entendem?
Descobri mais tarde que não se tratava de um deus azul claro, apenas um médico. Deus era outro. Morreu e nasceu menino. Morreu e renasceu, Deus.

Desde o dia da minha morte, vivo minha segunda vida e já me disseram que ela é finda.
Por saber que a vida é finda e o tempo distraído, passo parte do tempo observando, respirando e poetisando. A outra parte, lamento.
Há dias em que tenho a clareza de que morri e fui para o inferno. Dias de angústia (que insiste em ser companheira).
Mas são raros, logo passam, feito chuva de verão.

Também não acho viver o céu, não, talvez quem sabe na próxima vida. 
Assim seja, Deus.
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- Ev Melo
Idealizador e curador deste espaço. É uma pessoa rara, como outra qualquer.