3.9.14

Resposta à "Sobre Selfie e Fome' - por Nuno Junior

Ontem publiquei a resposta do psicanalista Paulo Bregantim, sobre meu post 'Sobre Selfie e Fome'. Hoje é a vez da resposta do publicitário Nuno Junior.
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Nunca entendi as selfies, por conta simplesmente da sua estrutura estética. Me lembro claramente do tempo da fotografia de filme, quando meu pai me ensinava a revelar fotos no banheiro do apartamento que morávamos. Enquanto tirávamos fotos em preto e branco no quarto, improvisando iluminações com papelões e flashes profissionais. Meu pai sempre tirou ótimas fotos e, como todo bom fotografo, quase nunca apareceu nas fotos. Porque a consequência de se tirar boas fotos é não aparecer nelas. Até inventarem a selfie.

Com a banalização da fotografia, que ocorreu pela derrubada de obstáculos entre clicar e ver o resultado, muita coisa mudou. As fotos hoje não são feitas, são tentativas e erros que se repetem até se ter uma imagem minimamente publicável. Percebi que tudo estava perdido quando emprestei minha DLSR grande e desajeitada para uma amiga que, logo na primeira foto com aquela grande câmera a segurou de forma invertida, virando a lente para si, esticando os braços e clicando uma foto com toda a distorção que a grande angular podia oferecer. Quando foi ver a foto, percebeu que estava muito mais gorda do que na vida real, com o rosto distorcido e que o flash da câmera tinha queimado todas as cores do seu rosto. De imediato ela achou que a câmera que eu economizei tanto para comprar, era terrível, pois não servia para uma selfie. E esta câmera não servia para registrar o egoselfie de alguém, mas sim o mundo todo de todo o mundo.

O que me deixa mais triste em relação ao selfie é que as pessoas acham mais interessante tirar uma foto de si mesma do que registrar o que está em volta. E isto é muito feio, porque em geral, as pessoas são muito feias.
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- Nuno Junior
Tentou de tudo. Tentou escrever, tentou fotografar, tentou tocar, tentou desenhar e tentou pintar mas  nunca conseguiu. Até hoje ele não sabe se os seus padrões são muito altos ou seu talento é muito baixo,  mas o Nuno não desistiu.

Um comentário:

  1. A única palavra que me ocorreu foi "tosco". Entretanto, imagino que o comportamento de sua amiga deve ser uma exceção, não? Espero que sim...

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