11.9.14

Que barulho é esse

- Que barulho é esse?
- Qual barulho?
- Esse, nhec-nech. Parece um grilo.
- Ah, esse. Nem reparo mais.
- Como não, é chato pra burro.
- É que já me acostumei.

Trata-se de um barulho do meu carro. Desde que saiu da concessionária fazia um barulhinho chato vindo do banco traseiro. No começo me chateou, mas a falta de tempo e paciência me impediram de levar para uma revisão. Acabou ficando e eu me acostumando.
O barulho continua lá, mas já não me incomoda.

Assim é a relação com o racismo no Brasil. Quando questionados, dizemos que não, aqui não tem racismo, somos um povo misturado. Mas quando o assunto vem à tona de uma forma mais contundente, dizemos então que existe um racismo, mas este é velado. 

Ambos pensamentos estão equivocados. Existe sim racismo no Brasil e este não é nem um pouco velado, é, ao contrário, explícito. Acontece que nos acostumamos. Já não nos perturba mais.

Não até que um evento, rotineiro (!), é flagrado por uma rede de TV e toma proporções de novidade.
A guria que foi flagrada xingando o jogador do Santos de macaco, não é única, não é minoria, não é velada.
Ela deve conviver com alguns negros e quem sabe ter uma amiga negra, mas assim como muitos outros, quando sob pressão, expõe esse comportamento primitivo.

No dia seguinte ao ocorrido com o goleiro aranha, ouvi o diálogo entre dois amigos que diziam que isso não pode acontecer, não de forma pública assim. "Uma piadinha em um ambiente fechado ok, mas em público assim não dá". - arrematou um deles.

O racismo só se torna velado quando em condições ideais de temperatura e pressão. Tem um negro na roda, então tratemos de sermos todos civilizados e evoluídos. Ele foi embora, rá, hora certa para aquelas piadinhas.

Frequento estádio de futebol em São Paulo há um bom tempo. Aqui a torcida é de fato mista, ao menos na arquibancada é, nas cativas um tanto menos. Não ouço xingamentos racistas, ninguém seria doido de chamar alguém de macaco, quando a seu lado tem negros. Mas já vi muitos amigos fazerem (será que eu mesmo já não fiz?!) isso quando em condições favoráveis, ou seja, longe de negros. O racismo no Brasil não é velado, é covarde (ou educado, como queira).

- Que barulho é esse?
- Qual barulho?

A coisa se torna mais obscena, como evidenciou Obadias em seu belo post "onde os negros não tem vez", quando a presença de negros é minoritária.
Dia desses, em visita à Porto Alegre, perguntei a uma pessoa se ele era Grêmio ou Inter. Ele de pronto respondeu, meu sobrenome é alemão. Ele era Grêmio (óbvio).

- É que já me acostumei.
__________
- Ev Melo
Idealizador e curador deste espaço. É uma pessoa rara, como outra qualquer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário