8.9.14

Onde os negros não tem vez

Não entrei nessa polêmica do xingamento da torcedora gremista ao goleiro Aranha por causa do risco de se tomar posições binárias e nunca se sabe exatamente até onde o xingamento da garota foi reflexo do seu racismo mesmo ou de uma infeliz empolgação no jogo que a levou a aquela atitude patética. Sem dizer que é bastante complicado achincalhar uma pessoa por conta daquele erro estúpido cometido, como se isso fosse reparar o dano, e como se não fosse um problema generalizado.

Mas a polêmica serviu para trazer à tona a tão já discutida questão sobre haver ou não racismo nesse tipo de manifestação. Estava almoçando essa semana com alguns colegas de trabalho, brancos, e minha impressão é de que eles não acreditam no racismo daquele episódio, que aquele tipo de xingamento é normal. Um deles até comentou: “mas os argentinos vivem chamando os brasileiros de macaquitos!”

Ah, por falar em Argentinos, sem querer generalizar, é claro, uma vez viajava de táxi entre o aeroporto Ezeiza, nas cercanias de Buenos Aires, rumo ao hotel, quando perguntei ao taxista:
- Existe racismo aqui?
- Não, aqui não temos negros.

Esse tristíssimo episódio, na minha opinião, associado a outro que vou descrever, mostram uma das piores facetas do racismo, que é justamente a invisibilidade: se o outro não existe, não há porque ser racista.

Eu viajava muito a países sul-americanos e meu espanhol era impecável. Quando viajava a Buenos Aires, era atendido muito cordialmente pelas pessoas nos hotéis ou na rua. Até um dia que um colega de trabalho, branco, foi comigo. Depois de algumas interações na rua e no hotel, eu lhe perguntei:
- Você percebeu como as pessoas daqui são racistas?
- Não. Não vi nenhuma atitude racista delas.
- Você não se deu conta que eu falo com as pessoas e elas respondem para você?
- Sério??? Acho que não...
- Então observe.
Depois de algum tempo ele reconheceu que isso de fato ocorria. O irônico disso é que meu espanhol era impecável e ele mal arranhava o portunhol. Daí, no hotel ou na rua, quando estávamos juntos, quase que invariavelmente, quando me dirigia às pessoas para alguma informação, apesar de muito educadas, elas não respondiam para mim: respondiam para meu amigo. Se havia um diálogo, era surreal: eu falava, a pessoa respondia para o amigo e eu voltava a falar com a pessoa.

Ok, chega de bater nos argentinos, mesmo porque tenho histórias interessantes de racismo aqui no Brasil. Mas o que ficou dessa experiência é que as pessoas só conversavam comigo quando não havia outra maneira. Se elas pudessem não conversar comigo, eu me tornava invisível automaticamente.

Vi novamente esse triste sintoma de invisibilidade, que serve muito bem para justificar o “aqui não existe racismo”, no depoimento com choro forçado que a garota deu à impressa, com a ajuda do Thiago Leifert do Globo Esporte. No programa contaram as vezes que a garota se referiu ao Grêmio em comparação às vezes que ela se referiu ao Aranha: falou 7 vezes na importância do time, no seu amor pelo time, e apenas 1 vez fez um pedido de desculpas ao Aranha, meio que de passagem.

De repente existe uma comoção generalizada e a garota, que não se julga racista, se preocupa muito mais com o que vão pensar do seu time do coração do que com a pessoa que ela ofendeu. Por que isso? Por uma questão muito simples: a pessoa ofendida é o de menos, não tem a menor importância. Como poderia ser acusada de racismo se o pretenso alvo do seu racismo sequer tem importância?


Essa lógica do “não sou racista porque não existe negro” ou ainda “ele não é tão importante assim a ponto de eu achar que o que disse a ele foi de fato uma ofensa grave” é uma das facetas mais cruéis do racismo. Porque nela, o negro não tem vez. O negro não conta. O negro não importa.
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

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