12.9.14

Imóvel

Disseram que o conserto seria feito entre nove e doze da manhã. Acordara as seis e dez, para não correr o risco de o homem chegar e ele estar no meio de um banho ou do café. Ser pego desprevenido o assustava. Resolveu que só o banho bastaria. O café-da-manhã era um risco. Precisava ajeitar tudo antes que o homem viesse. Começou a faxina as seis e trinta, logo após o banho. Limpou todos os cômodos do apartamento com primor, como se um parente querido ou membro da realeza o fosse visitar. Após terminar a faxina, outro banho. Oito e quarenta e cinco. Tudo estava pronto. Nem parece minha própria casa, pensou. Não parecia casa de ninguém. Perfeito, disse, deixando o som escapar pela boca. Enrubesceu com a própria satisfação. Sentou-se no sofá, cruzou as pernas e, não fosse por um pé balançando incessantemente, aguardava imóvel. Passaram-se dez minutos das nove horas. Nenhum som. A campainha não tocou. Ninguém chamou pelo interfone da portaria. Começou a preocupar-se. O homem do conserto não vem? Ainda era cedo. Continuou imóvel, não fosse o pé que teimava em balançar. Nove e trinta. Tudo igual. Arriscou um suspiro, que saiu um pouco torto. Não sabia o que fazer de si enquanto não tinha o que fazer. Dez horas. O homem do conserto não vem. Era certeza. Entretanto, havia programado todo o dia em função do conserto. O que faria? Começou a ofegar. Um dia inteiro sem planos. Eram horas demais para preencher consigo mesmo. De repente, a poltrona ao seu lado começou a se mover. Era isso o que mais temia. A mesa de centro derretia lentamente e escorria pelo tapete. Os livros alfabeticamente organizados transbordavam letras, sujando todo o chão de tinta preta. A televisão brilhava. Ele ofegava com mais ânsia. Um dia inteiro. Um dia inteiro daquilo. Um dia inteiro de nada. As paredes começaram a ranger, lembrando-o de seu próprio bruxismo. Por que o maldito homem do conserto não veio? Seu peito inflamava. Como poderiam dar a ele um dia todo assim de graça? Sem qualquer aviso prévio que fosse. Não era justo dar dias às pessoas sem que antes elas pudessem planejar como ocupa-los. Ocupava todos os dias com cuidado, todos os minutos. Mas por conta do desleixo e desrespeito do homem do conserto, agora a mesa de jantar pulava qual cavalo e o café passado entrava em erupção na garrafa térmica. Não tinha mais jeito. Levantou-se justo na hora que o sofá abriu-se numa fenda para o próprio inferno. Corria pelo apartamento apertado, desviando dos garfos na cozinha e tomando cuidado para não pisar na mesa derretida no centro da sala. Transpirava. Num momento de distração, deixou-se encurralar pelas paredes do banheiro. Agachou e aguardou seu fim. Seria espremido ali mesmo, ou engolido pelo vaso sanitário. Tinha certeza. O absoluto de um dia diante de si era demais. A campainha. A campainha! Correu para a porta. Os móveis se puseram em seu lugar. As paredes se aquietaram. A mesa de centro. Abriu a porta. O homem do conserto chegou. Molhado de suor abraçou-o como se fosse o próprio Cristo que viera salvar-lhe da condenação eterna. Sentou-se no sofá. Dez horas e quinze minutos. O homem consertava. Seu pé, imóvel. 
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- Renato Malkov
Canta, dança, sapateia e inventa histórias. Inclusive essa.

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