10.9.14

extinção

outro dia um ​rapaz por educação e cordialidade me estendeu uma mão de boa noite, eu nunca tinha pensado nisto, mas então... meus deus! olhei o moço enquanto meu sorriso abobado erguia uma mão cúmplice de minha maldade, eu pensava:"meu rapaz por onde telefone-maçanete-canetas alheias andou esta ​tua mão?" ​meu ​sorriso ​falso ​abobado, "boa noite!"​; depois, meu braço direito pendia ao lado do meu corpo, tendo pena de minha mão envergonhada, esta mão que a mim mesma se tornou imprópria, não coçar olhos, não cutucar orifícios, não comer cutículas... e onde estaria meu frasquinho de álcool, porque neurose pouca é bobagem e para mim as coisas e as pessoas ​estariam impregnadas de infinitos seres micro-invisíveis e letais, mas as vezes também pergunto, será? 

entendo que o meu próximo é o outro. um que invade meu território, se ocupando do mesmo ar que eu, fazendo bailar no espaço suas partículas que se juntam com as minhas, mas nós não. nós nos distanciamos. nos repelimos. o outro me ameaça. eu também a ele.

há momentos que nostalgiando a história penso nas catátrofes épicas que devastaram uma civilização inteira, pestes, holocausto, inquisição. homens e mulheres escreveram a história com seu próprio pulmão, seu sobrenome, sua resignação e foram extintos. só restou a história. não eu não quero, não me interessa ​ essa poesia.

vantagem terão os laboratórios. os caras de avental branco ​ - baseados em evidências de hipóteses comprovadas​ - os caras aplicarão suas pesquisas e novas drogas surgirão ​ e as salvadoras vacinas: micro-invisíveis agora não mais letais, ​porém cambaleantes, entrando por direito e permissão em ​meu corpo para brigar com a matéria e por fim ​me fazer mais saud ​á​v​el. será? e sim, venderemos, ainda, muitas máscaras e muito álcool em gel. abençoado seja o mercado das oportunidades!

não estou alarmada, estou em pânico! pus os pés numa clínica outro dia e tive um prelúdio do apocalipse. todos os funcionários usavam máscaras verde-centro-cirúrgico. olhava a moça do atendimento se esforçando em ser compree ​n​dida​ enquan ​to falava comigo, ​seria cômico se não fosse bizarro; ​ela respirava ​o próprio hálito enquanto o elástico ​fazia uma fenda em seu rosto. o outro. eu. aquele que ameaça quando estende a mão, aquele que não pode chegar tão perto e que se oferece um pedaço de seu chocolate está afrontando um de nós, indecentemente.

mas eis o outro lado de todas as coisas: chegaremos, um a um, ao dia último. após centenas de mortes por agravo da síndrome gripal, noticiadas todos os dias - são proveitosas as tragédias, faz-nos ter assunto, ocupação, idéias, amplia o mercado, gera emprego e desvia nossa atenção - pergunto: e os homens tantos? o morto nosso de cada dia, no trânsito, numa mesa de cirurgia, de tiro, nosso morto de fome, morto de tristeza... de um jeito ou de outro, morrem todos os dias, por epidemias ou só porque já se viveu demais. há vários modos de se chegar ao inevitável.

seja o que for, um dia, aquela coisa em nós que deambulava, que se aborrecia, que amava, que acreditou em deus, que teve filhos, que fabricou vacinas, que era muito gorda, que era muito séria, que era bem feliz, que ganhou medalhas, que sonhou sempre e se entupiu de mundo, aquela coisa que dizia com os olhos, que dizia e amava, esta coisa já não estará mais aqui.

e, no derradeiro instante, restarão apenas os invisíveis letais devoradores dos humanos, para depois também eles chegarem ao fim ​, ​a involução! quando nada mais restará ​, apenas as baratas... será?


o caso é que minhas mãos estão ressecadas de tanto serem lavadas e desejo muito que, em nome do que quer que seja, esta epidemia seja controlada e a gente durma em paz achando que o mundo está em ordem. assim, eu poderei sem neurose sorrir e apertar confortavelmente a mão de um que me foi gentil ​ e finalmente deixarei de inve​ntar pensamentos e comportamentos maníacos apenas porque tenho medo da extinção!
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- kelly guimarães
filósofa das letras pequenas. textos profundos e maiúsculos, tudo em letras minúsculas.

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