5.9.14

Comadre Raposa e compadre Gato (da série “Contos da Dona Ilza”)

Compadre Gato e comadre Raposa eram muito amigos. O Gato chegou da na casa da Raposa, bateu palmas e a Raposa saiu.
- Bom dia, comadre Raposa!
- Bom dia, compadre Gato! Tudo bem com o senhor?
- Tudo! E com a senhora?
- Aqui vai tudo bem. O que o senhor deseja?
- Sabe o que é, comadre, eu estou sem moradia por enquanto e queria saber da senhora se a senhora me deixava ficar aqui uns dias...
- Pois não, compadre, imagina... A gente tá aqui pra servir mesmo!
- Como a senhora é boazinha, né, comadre?
O Gato ficou ali na casa da comadre Raposa. Comia, bebia, não trabalhava, só folgava. Um dia a Raposa chega para ele e lhe diz:
- Ô compadre Gato, ouvi dizer, compadre, que está vindo uma crise...
- É, comadre?
- É, tá vindo uma crise de fome e eu pretendo fazer um pote de banha deste tamanho assim, mas eu tenho um problema.
- Mas qual o problema, comadre?
- O problema é que eu tenho que guardar naquela árvore, ali, ó, e eu não consigo...
- Mas comadre, eu tô aqui na sua casa... A senhora acha que eu não vou ajudar? Pode fazer a banha que a gente põe lá em cima!
- Ah, tá, o senhor me ajuda então? Então vou fazer a banha.
Foi lá na cozinha e faz aquele monte de banha para, quando a crise viesse, ela estivesse bem prevenida. Encheu o pote enorme e, com a ajuda do compadre Gato, colocou em cima da árvore. Tapou e deixou lá. E o gato, que é doido por banha, não via a hora de comer um pouco daquela banha. Em um belo dia ele saiu, voltou e falou para a Raposa:
- Comadre, estou com um problema sério...
- É, compadre? Qual?
- Sabe, eu dei uma volta aí, encontrei uns compadres aí, e me convidaram para ser padrinho do filho deles!
- Ah, é, compadre? Mas qual o problema?
- É que eu tenho que passar minha roupa e eu não sei, comadre.
- Mas compadre, eu passo sua roupa!
- Obrigado, comadre!
A Raposa passou a roupa do Gato, o Gato se vestiu tão elegante que parecia o Gato de Botas, e foi embora para a festa. Quando ele chegou de tarde, na boquinha da noite, chegou e se deitou com o barrigão pra cima e a raposa lhe perguntou:
- E aí, compadre, como é que foi a festa?
- Mas, comadre... foi muito boa! Eu comi muito, comadre. Estou tão cansado que nem sei como vou aguentar. Hoje não vou comer mais nada.
- Ah, é, compadre? Muita comida?
- Muuuita comida!
- Ah... mas festa é pra comer mesmo! E como é o nome do seu afilhado?
- Nome do meu afilhado? Ah... Pispiô!
- Que nome, né, compadre? Pispiô...
- Pois é, Pispiô.
Passou o tempo, por volta de uns dois meses, o Gato saiu e voltou novamente, chegou e disse:
- Comadre, não sei o que esse povo tá vendo em mim não, viu?
- Qué que foi, compadre? Já convidaram de novo?
- Já me convidaram pra ser padrinho de novo...
- Gostaram do senhor, não?
- É... mas o problema a senhora já sabe, né, comadre? É a minha roupa.
- Compadre, eu já não falei, quantas vezes você quiser eu passo sua roupa?
- Ah, tá bom.
A Raposa passou a roupa do Gato, ele se vestiu e foi embora.
Foi lá, comeu, comeu, comeu, comeu... voltou para casa com um barrigão, pior do que da primeira vez. Deitou lá e ficou com as pernas abertas...
- E aí, compadre, chegou cansado de novo?
- É, comadre, muita comida! É muita festa!
- E aí, qual o nome do afilhado?
- Tanomeio.
- Pispiô e Tanomeio? Que coisa! Que nomes, né?
- É, uns nomes estranhos. Esse pessoal não sabe escolher nome, não.
Passou mais um tempão, o Gato deu uma volta lá fora e voltou novamente.
- Ó, comadre, é a última vez. Já falei que eu não vou ser mais padrinho de ninguém.
- Ah, coitado! Tudo bem, compadre. Pode deixar que eu passo sua roupa... Não tem problema nenhum!
- É, comadre, mas eu não quero mais, não! Não quero mesmo! Já disse. É a última vez. Não quero ser padrinho de mais ninguém. O que é isso! Dando trabalho pra senhora direto!
- Ah, mas por isso não, compadre!
- Mas eu não quero, não. Já decidi!
A Raposa passou a roupa como de costume e lá se foi o Gato para sua terceira festa. De tardezinha ele voltou, meio descabriado, deitou...
- E aí, compadre, foi boa a festa? E comeu bastante, pelo jeito...
- Comi! Comi tanto, olha, tô nem aguentando.
- E o nome do seu afilhado?
- Paralisô.
- Paralisô?
- É, Paralisô.
Passou-se um tempão e a Raposa disse:
- Compadre, agora a crise está chegando e é hora de a gente pegar o pote de banha.
- Então vamos lá, comadre.
No caminho, o Gato lhe disse:
- Agora, comadre, quando a gente chegar lá, a senhora vai ficar embaixo com as duas mãos assim, abertas, pra cima, porque eu vou subir e vou descendo o pote bem devagarzinho, viu, comadre?
- Tá bom, compadre.
Chegaram embaixo da árvore, coitada da Raposa, toda preparada com as patas pra cima, o Gato subiu na árvore...
- Ó, comadre, vou já soltar...
- Tá bom, compadre, tô aqui esperando!
- Olha lá... é agora, é agora!
Soltou o pote de uma vez, bem na cara da Raposa. O choque foi tão forte que quebrou o pote, a Raposa com a cara machucada, ele deu um pique e desapareceu! A Raposa ficou lá, se lamentando a dor insuportável, as lágrimas escorrendo:
- Olha, seu infeliz, você fez uma coisa dessas comigo! Tanto que eu fiz por você, você comeu toda minha banha e ainda quebra minha cara...
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

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