29.9.14

Reflexão: Ciúme

O Ciúmes é um processo que todos nós temos e vivemos, porém, existe o processo normal e patológico. Tanto um como outro deve ser administrado pela nossa consciência e pensamentos, pois a falta de sabedoria nas ações do ciúmes podem causar rupturas nos relacionamentos.

O Ciúmes é uma ação/característica dos seres humanos e, é divida assim: Um “objeto”, “Eu” e o “outro”.

O Objeto pode ser uma pessoa, um carro, um relógio, uma casa, ou um bem qualquer. É o que desperta um desejo e, geralmente acontece quando olhamos, ouvimos, pensamos, observamos, etc algo ou alguém que nos interessa intensamente.

“EU” quer dizer a pessoa que está envolvida em querer o objeto desejado. É ação é sempre de uma pessoa(ser humano), pois como o que ativa o ciúmes é o desejo, logo somente alguém racional pode ter esse sentimento.

O “outro”, é na realidade o rival que tenta, mesmo de forma não intencional, o mesmo “objeto” que o “EU” deseja.

Por exemplo: Vamos imaginar que o “EU” tem um carro. O carro é o “objeto”. O “EU” mostra seu carro para as pessoas, porém percebe que o “outro” – uma pessoa específica- olha para o carro de forma que o “EU” acha que ele deseja o carro, logo, o “EU” tenta retirar o carro- “0bjeto” do olhar do “outro” e, para as outras pessoas o “EU” fala mal do “outro”, por imaginar que esse “outro” deseja seu “objeto”.

Outro exemplo: Vamos imaginar que o “EU” é casado com uma mulher(objeto). O “EU” não gosta de ver seu “objeto” conversando com os outros, porém, a mulher gosta de conversar com os outros. O ciúmes funciona assim: O “EU” fica bravo com a mulher (objeto) e desdenha das pessoas que estavam falando com a mulher ( outro).

No processo normal uma pessoa que tem ciúmes age alertando o “objeto” com palavras de alerta e carinho e demonstrando a importância que o “objeto” tem para ela. Comunica o “outro” sobre a importância do “objeto” para ela e solicita que a distância e respeito sejam mantidos.

No processo patológico do ciúmes a pessoa age ofendendo e brigando com o “objeto” e desdenhando do “outro”.
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- Paulo Bregantim
Psicanalista Clínico. Escreve sobre a alma e coisas simples. Simples assim.
Atende na clínica Reciclar Unidade II.

26.9.14

O tic-tac do relógio (da série “Contos da Dona Ilza”)

O homem vai à feira e compra tudo o que precisa. Tudo o que precisava, era a lista que sua mulher lhe havia passado, inclusive farinha de mandioca. Ao chegar em uma barraca, ele ficou admirado por ver uma porção de coisas que não conhecia, nunca tinha visto, inclusive um despertador. Ele perguntou para o feirante:

- Pra que serve isso?
- Isso aqui serve para marcar a hora...
- Tem mais alguma serventia?
- Tem! O senhor pode pôr ele para despertar e ele, no horário certo, acorda o senhor.
- Ah, vou levar esse bichinho aqui, que ele é muito bom!

O que ele fez? Comprou o despertador e o colocou dentro do saco da farinha de mandioca e jogou o saco nas costas. Enquanto voltava para casa, ele escutava o relógio a fazer tic-tac, tic-tac, tic-tac...

- Mas olha, ele gosta de cantar mesmo!

Quando chegou em casa, o relógio continuava no seu tic-tac, tic-tac... Quando ele tira o saco das costas, percebe que ele está bastante leve. Mas esse saco está ficando leve? Quando ele olha para dentro do saco, diz:

- Mulher, eu comprei um negócio que eu nunca vi, e o homem disse que chama relógio, serve pra acordar a gente, serve pra marcar a hora, mas o danado do relógio não comeu a farinha todinha?
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

24.9.14

A fúria de Pangéia

Essa é uma história interessante, conta a vida de África e América, dois eternos amantes.
Ela era altiva como a vida e ele, forte como o amor.

Porém, como toda história de romance, havia um outro envolvido, alguém bastante intrigante.
Seu nome era Pangéia, forte e poderoso, senhor daquela era.
Seu coração doía, ao ver os dois em alegria, seu rosto se contorcia.

Dono de toda porção de terra, decidiu declarar guerra, reuniu seu escudeiro e pediu que desse um jeito, que América viesse a ser sua por inteiro.
Jeito, para quase tudo havia, mas logo lhe avisou, morte não desfazia e paixão não se movia.

Tamanha fora a fúria de Pangéia, clamou das profundas terras, força oculta, como ninguém soubera.
Bruta força que do fundo chão brotou, fez tremer os montes, rios e lagos esvaziou.
De tanto medo, a Terra começou a tremer, chacoalhou a todos, não escapou nenhum ser.

Se amando, África e América se olharam, coisa boa que não era, logo notaram.
E Pangéia, a terra ao meio dos dois partiu, em um forte estrondo, como nunca se ouviu.

De mãos dadas os amantes não puderam conter, os blocos de terra que os separavam, de tanto tremer.
Nem a força do amor foi capaz de segurar, as mãos unidas, os dois juntos, só queriam se amar.
E lentamente América e África pequenos se viam, e novos mares surgiam, das lágrimas que não continham.

O tempo impiedoso passou, mas o amor que foi, ficou e marcou.

Hoje América busca ser grande, dar a volta por cima e se reencontrar com África, seu amante.
Enquanto África que virara motivo de pilhéria, chora amargurado toda sua miséria.

Pangéia sujeito cruel, provou do seu veneno, amargo como fel. Vive em pedaços cercado de dor, e vez por outra é possível sentir o seu tremor.

Até hoje se conta de orelha em orelha, a história de amor entre África da pele escura e América da pele vermelha.
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- Ev Melo
Idealizador e curador deste espaço. É uma pessoa rara, como outra qualquer.

22.9.14

Reflexão: Amigos e amizades - perdão

O Amigo é acima de tudo um ser humano que aprendeu a se dividir!

Ser simples Não é ser bobo, mas se ser bobo me faz simples, então quero ser bobo. Simples assim.

Ontem falando para alguns amigos e amigas eu pedi: preciso de um abraço e quero ser seu amigo. Recebi dezenas de abraços e ganhei dezenas de amigos(as) novos(as). Quando a gente quer a gente consegue. Feliz dia do amigo! Preciso de um abraço hoje, quer ser meu amigo(a)??

Somente sou o que sou porque os que me rodeiam são o que são. Somos sim nós mesmos e ao mesmo tempo frutos do meio. O tudo no todo e todo no tudo, o tempo todo, todo o tempo! Foi dai que surgiu o jargão: "juntos e misturados" boa tarde! A vida é vida quando vivida!!!!

O Reino instituído por Jesus é o Reino do amor e das amizades! Viva esse Reino! Os amigos e as amizades são as materializações do Reino do Amor e da Paz aqui na terra. Viva a vida!

Que viver seja nosso maior vício! Viva a vida!!!

Meus amigos(as) e minhas amizades são minha vida! Viva e viva muito a vida!

Economize em tudo se quiser, mas quando pensar em vida, bem, aí, esbanje e extravase tudo que puder! A vida passa muito rápida! Viva a vida. Viva! Vida.

Curta a vida, pois ela é curta.

Todo relacionamento se não houver amizade se acaba.

Deus criou muitas formas de amor para que uma delas encaixe em mim..

Não retirem de mim a esperança de um mundo melhor com pessoas melhores. Se quiser venha comigo nessa utopia.

Eu só posso ir até onde meu físico e minha alma deixarem. No mais, devo aguardar em Deus.

O mais doloroso não é a tristeza do silêncio das "massas",mas o silêncio da alma dos que deveriam mexer e modificar as "massas".

A maior força para o processo de paz interior e exterior é o perdão. Perdoar é permitir que o outro tenha a vida novamente.

O tempo é administrador de emoções. Dê tempo ao tempo.

Nada é tão sólido e real do que o tempo de Deus. Aquieta. Deus sabe. Deus é.

Ás vezes, uma satisfação vem acompanhada de afirmação e, ás vezes, de interrogação. Acalmar e aguardar pode fazer bem.
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- Paulo Bregantim
Psicanalista Clínico. Escreve sobre a alma e coisas simples. Simples assim.
Atende na clínica Reciclar Unidade II.

19.9.14

não somos apenas um número, somos uma porção deles

'nós somos apenas um número.' você já deve ter ouvido isso algumas vezes, é comum dizer e ouvir isso quando se está puto com o mundo corporativo.
mas não, não somos um número. somos um punhado deles, uma longa sequência de números organizados de maneira única. cada um dos 7 bilhões de viventes da terra tem sua própria sequência de números.
e por isso, o pessimismo no comentário "somos apenas um número" não vale de nada. o modo como o mundo corporativo se comporta são outros 500.

se você não é apenas um número, é uma tendência. mas não cabe aqui o 'apenas' . você é uma estatística, um integrante de um tal de cálculo amostral.

já se perguntou como é que funciona o ibope, datafolha e outros índices de intenção de votos, por exemplo? é tão simples (quanto complexo) quanto pegar a quantidade de habitantes de determinada região e através de cálculos, determinar qual o erro amostral (variação para + ou para - ) e com isso terá a quantidade necessária de entrevistas para conhecer a tendência, a probabilidade da verdade. e é bastante confiável.

isso quer dizer uma coisa, você nunca está sozinho. você representa um grupo de pessoas com as mesmas características, idéias e com as mesmas intenções. 
porque será que os jornais e outras mídias respeitam tanto a opinião individual de um leitor? porque não é individual. aquele leitor representa mais 10, 50, 100 pessoas com a mesma opinião.

portanto fale! você está sendo ouvido. se ainda não estiver, fale mais alto, junte-se com os que pensam parecido e falem. você representa um grupo e um grupo tem sempre mais força. mande emails para jornais, ligue para reclamar. não se prenda apenas ao 'reclame aqui', fale com o autor diretamente.

e no campo das inovações? ah porque eu não pensei nisso antes. ou ainda, quando se tem uma baita idéia super inovadora que depois de uma breve pesquisa no google vemos que já a tiveram. 
cálculo amostral, estatística, probabilidades. se você está pensando em algo agora, outros devem estar. ganha quem tem mais audácia e ligeireza de mostrar primeiro. e um pouco de sorte vai bem.

agora você pode estar pensando, puxa se é assim, não vou mais pensar em novas idéias. bingo, um grande grupo de pessoas está fazendo isso junto com você. você pode ser teimoso (eu sou) e insistir em continuar tentando mesmo sabendo que pelas estatísticas, cálculo amostral e probabilidade outras pessoas estão tendo uma idéias bastante parecida com a sua. e quando isso acontecer? bom, insista numa nova idéia, se a idéia não te traz o retorno esperado, ao menos te mantém vivo.

quem não tenta sobrevive, não vive.

eu faço parte do grupo que prefere viver. e você?
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- Ev Melo
Idealizador e curador deste espaço. É uma pessoa rara, como outra qualquer.

17.9.14

As segundas núpcias do Pastor

O Pastor era uma figura respeitada e admirada na sua comunidade. Podia-se dizer dele alguém com uma inquestionável vocação pastoral. Sua vocação também tinha explicação de berço. Filho caçula, de uma família com dois filhos, seu irmão 6 anos mais velho sempre fora um problema. Seus pais eram o típico casal de cristãos tradicionais e tementes a Deus. Apesar de todo esforço dos pais na educação dos filhos, o mais velho sempre lhes trouxera dores de cabeça. Na adolescência envolvera-se com más companhias e drogas. Apesar de caçula, o futuro pastor sempre fora capaz de perceber o que seu irmão mais velho estava a aprontar, mesmo quando os pais não desconfiavam. Mas ele não entregava o irmão para os pais porque via a dor que isso causaria neles. Por outro lado, ele também sofria pois não tinha como ajudar seu irmão mais velho que, apesar de tudo, era seu herói, por causa do seu caráter transgressor, um contraponto ao estilo tão conservador dos pais. Ele acabava sendo o eixo que equilibrava a tensão entre o irmão e os pais. Um pastor precoce. Um dia, em um assalto com outros jovens amigos tresloucados e drogados, seu irmão foi morto.

Seus pais nunca se recuperaram do golpe. Mas agradeciam a Deus por lhes ter dado o caçula, um garoto tão exemplar, tão admirável, a salvação da lavoura. O mais velho não dera certo. Mas esse seria um sucesso.

E foi: formou-se na faculdade de Arquitetura, embora seu coração estivesse mesmo nas pessoas problemáticas que cruzavam sua vida, como seu irmão mais velho. Não resistindo ao chamado, em vez de tentar a carreira de arquiteto, ingressou em um seminário. Formou-se com destaque, foi o orador de sua turma e foi lá que conheceu sua noiva. Uma jovem discreta, de modos delicados, a nora perfeita. Seus pais ficaram maravilhados. Deus tinha sido bondoso demais com eles ao compensar a dor do primeiro filho. Casaram-se na igrejinha de bairro onde ele crescera e seus pais frequentavam. Tiveram dois filhos, um casal. O primogênito e uma menina 2 anos mais nova.

Sua vocação saltava aos olhos e rapidamente ele pastoreava uma igreja. Depois outra, outra e mais outra. Até o dia em que foi convocado para um desafio internacional. Lá foi ele com a esposa e os filhos pequenos. Um sucesso. Sua sensibilidade para a dor alheia e a companhia de sua discreta e adorável esposa, fizeram-nos notórios no aconselhamento de famílias despedaçadas. E como eles recuperaram lares destroçados...

Passou muitos anos no exterior, até que voltou para seu país de origem, os filhos já adolescentes. E, um belo dia, sem nem mais nem porquês, eles avisaram, o mais discreto que podiam, que estavam se separando. Foi algo que chocou toda a comunidade. Só não foi um escândalo porque eles se separaram silenciosamente, sem vexames públicos, claramente amigos. Houve até quem dissesse que, na realidade, estavam se separando porque cada um queria servir melhor ao Senhor de forma individual: só podia ser. Usando suas economias amealhadas ao longo de mais de 20 anos de casados, puderam comprar 2 casas modestas e dignas. A mãe ficou com a garota, o pai com o menino. Até nisso eles foram exemplares. Serviram até de modelo para os que diziam ser lícito separar-se e, em alguns casos, até necessário e de boa espiritualidade, como se podia notar pelo fim do casamento do Pastor e sua digníssima esposa.

A separação durou um ano sem novidades. Tempo suficiente para eles se divorciarem e as pessoas se acostumarem com a ideia, os mais incrédulos por fim se convencerem de que não se tratava de uma pegadinha, afinal, até mesmo um casal perfeito e que restaurava famílias à beira da destruição poderia se separar.

Foi quando o Pastor avisou umas poucas pessoas que iria se casar novamente. Espanto e incredulidade generalizados novamente. Como seria possível isso? A notícia espalhou-se como um rastilho de pólvora. Todos julgavam que, uma vez separados, eles se manteriam “viúvos” para o serviço cristão! Qualquer um poderia se separar e casar novamente. Não aquele casal! Eles estavam muito acima disso! A separação se justificava porque provavelmente haveria algum propósito espiritual naquilo. Mas... casar-se novamente? Incompreensível!

O casamento foi marcado para alguns meses depois. Mas havia um fato intrigante: o Pastor não namorava ninguém, não se sabia quem era a noiva! Ele também mantinha sua reserva que era tão peculiar: não divulgou a ninguém quem seria a agraciada. Obviamente, toda essa desinformação gerou ainda mais especulação. E havia quem apostasse que, agora fazia todo sentido: ele iria confirmar os seus votos de casamento espiritual com a sua vocação! Somente alguém da sua estatura seria capaz de deixar até mesmo mulher e filhos para se dedicar totalmente à obra do Mestre. Enfim, as pessoas possuem uma imaginação muito fértil.

Nem é preciso dizer que, no dia do seu novo casamento, na mesma igrejinha de bairro onde se casara pela primeira vez, havia um público bem maior que a igreja comportava. Todos queriam saber quem era a noiva secreta. Muitos apostavam que não passava de um rito de elevada espiritualidade. Estavam tão excitados com a insólita ocasião, que ninguém sentiu a falta da ex-esposa e dos filhos.

O Pastor tampouco convidou qualquer outro ministro do evangelho para fazer seu casamento, daqueles que faziam parte do seu grupo mais próximo. Preferiu convidar um pastor que conhecera no exterior, um amigo de longa data da família, que nunca se casara. Na realidade, o celebrante do casamento ou quaisquer outras pessoas presentes eram mero detalhe, porque as pessoas queriam ver mesmo era quem seria a noiva, que até aquele momento não tinha dado o ar da graça. Na realidade, havia até algumas candidatas, mulheres na flor da idade e que consideravam o Pastor separado um partidão. E, nesses momentos, as más línguas ficam muito afiadas. Mas algumas delas já haviam sido descartadas de cara, porque faziam parte da assistência curiosa, elas, que, além de curiosas, tinham aquele olhar de ansiedade das viúvas por antecipação. Mas algumas não apareceram. Eram fortes suspeitas, portanto. Houve até mesmo aqueles mais desrespeitosos que, com um sorriso nos lábios, arriscavam um “Pastor safadinho!” quando pensavam nas virtuais candidatas, as ausentes.

Enfim, a cerimônia começou, a música serena, o Pastor entrou sozinho, mais ninguém, padrinhos, nada e, como tudo ali estava fora de lugar, ele pediu permissão ao celebrante para se dirigir à congregação.

Obviamente, ele podia, apesar de ser uma situação igualmente incomum. Dirigindo-se à assistência, com sua calma peculiar, ele começou a explicar o motivo de suas novas núpcias. O motivo é que, desde garoto, ele travara uma luta interna. Tivera uma vida de muitas renúncias e sofrimentos porque ele tinha que dar certo. Sempre fizera o que julgava o correto, o que Deus tinha preparado para ele. Dedicara-se a cuidar das pessoas, casara-se com uma mulher maravilhosa, sábia, que edificara o seu lar, que lhe dera dois lindos filhos e que, compreensivelmente, não estava presente naquele dia. Foi então que, envergonhados, os presentes se deram conta que não tinham dado até então pela falta do restante da família do Pastor. E o Pastor continuou: ele lutara toda sua vida contra o espinho na carne, pedira a Deus que o retirasse, mas nunca fora atendido. Chorara muito, penitenciara-se com o cilício da reclusão, do fechar-se em si mesmo. Até que um dia resolvera abrir-se para sua esposa, aquela mulher sábia, a única que talvez o compreendesse. Ela o ouviu, chorou muito com ele. No final das contas, disse-lhe que o seu papel de esposa era apoia-lo no que fosse preciso e era isso que ela faria. Mas, depois daquele dia, ele foi sentindo cada vez menos o peso da cruz que carregava e, não sabia como, se perdera. Ou se encontrara. Não dava para saber direito o que ocorrera. Mas foram necessários 4 anos para que seu casamento chegasse ao final. Da cumplicidade inicial da esposa, apesar da dor no primeiro momento, eles foram se distanciando gradualmente. A relação foi esfriando. E passou a achar que era injusto prendê-la naquele casamento que, por conta da sua confissão, fora ferido de morte. Foi quando se separaram.

O restante havia sido consequência. Cada vez mais ele se sentia aceito, perdoado, livre. Ainda que isso lhe parecesse tão estranho, tão surreal, tão fora dos valores que ele tanto predicara. Mas ele havia tomado uma decisão importantíssima e definitiva que tinha potencial de destruir toda sua carreira pastoral. E, com efeito, ele acreditava que isso aconteceria. Parou, respirou fundo, sorriu: “Hoje me caso com ele!” E se voltou para o pastor que conhecera no exterior, um amigo de longa data da família, que nunca se casara.

Estupefação! Torpor! Ignomínia! Revolta! Opróbrio! Desmaios! Incredulidade! Enjoo! Desespero! Ainda bem que seus pais já estão mortos para não passarem por essa humilhação! Ninguém sabe direito o que aconteceu depois. Foi tudo muito desorganizado. Num primeiro momento se ouviu um “oh!!!” geral e irrestrito, que durou alguns intermináveis segundos, aquela tensão insuportável no ar. Em seguida, fez-se um silêncio sepulcral, em que o Pastor aproveitou para tentar retomar a cerimônia da forma como ele planejara. Mas ninguém estava mais prestando atenção no que ele dizia: as mentes estavam travadas, em estado de choque. Três senhoras, das mais tradicionais da congregação, levantaram-se e começaram a se retirar. Um primo do Pastor, que não era lá muito dado a etiquetas, cerimônias, vaticinou em bom tom, interrompendo a fala do Pastor: “Primo, elas não vão ao banheiro, não! Elas estão indo embora mesmo!” Foi a senha. Um a um foi tomando coragem e abandonando o templo entre decepcionado e confuso.

No final restaram apenas o Pastor, o outro pastor que conhecera no exterior, um amigo de longa data da família, que finalmente estava se casando, o primo, que estava achando aquilo muito engraçado, e umas 10 pessoas que, num misto de êxtase e incredulidade, voando no tempo e no espaço, com um mal desenhado, mal disfarçado esboço de sorriso nos lábios, não conseguiam se despregar de seus assentos. Nem piscavam...
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

15.9.14

Sobre Depressão e solidão

Nunca abandone uma pessoa no período de depressão ou solidão. Eu escrevi "NUNCA".

Se quem você ama está com depressão ou solidão, fique do lado e apóie. Isso é amor, isso é respeito.

A depressão e a solidão por serem silenciosas necessitam de atenção por parte de quem pode sofrer ou por ventura vai conviver.

Respeitar uma pessoa que sofre de solidão ou depressão é praticar o amor.

Quem deseja cuidar ou entender alguém com depressão, doe:respeito, amor e paciência.

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- Paulo Bregantim
Psicanalista Clínico. Escreve sobre a alma e coisas simples. Simples assim.
Atende na clínica Reciclar Unidade II.

12.9.14

Imóvel

Disseram que o conserto seria feito entre nove e doze da manhã. Acordara as seis e dez, para não correr o risco de o homem chegar e ele estar no meio de um banho ou do café. Ser pego desprevenido o assustava. Resolveu que só o banho bastaria. O café-da-manhã era um risco. Precisava ajeitar tudo antes que o homem viesse. Começou a faxina as seis e trinta, logo após o banho. Limpou todos os cômodos do apartamento com primor, como se um parente querido ou membro da realeza o fosse visitar. Após terminar a faxina, outro banho. Oito e quarenta e cinco. Tudo estava pronto. Nem parece minha própria casa, pensou. Não parecia casa de ninguém. Perfeito, disse, deixando o som escapar pela boca. Enrubesceu com a própria satisfação. Sentou-se no sofá, cruzou as pernas e, não fosse por um pé balançando incessantemente, aguardava imóvel. Passaram-se dez minutos das nove horas. Nenhum som. A campainha não tocou. Ninguém chamou pelo interfone da portaria. Começou a preocupar-se. O homem do conserto não vem? Ainda era cedo. Continuou imóvel, não fosse o pé que teimava em balançar. Nove e trinta. Tudo igual. Arriscou um suspiro, que saiu um pouco torto. Não sabia o que fazer de si enquanto não tinha o que fazer. Dez horas. O homem do conserto não vem. Era certeza. Entretanto, havia programado todo o dia em função do conserto. O que faria? Começou a ofegar. Um dia inteiro sem planos. Eram horas demais para preencher consigo mesmo. De repente, a poltrona ao seu lado começou a se mover. Era isso o que mais temia. A mesa de centro derretia lentamente e escorria pelo tapete. Os livros alfabeticamente organizados transbordavam letras, sujando todo o chão de tinta preta. A televisão brilhava. Ele ofegava com mais ânsia. Um dia inteiro. Um dia inteiro daquilo. Um dia inteiro de nada. As paredes começaram a ranger, lembrando-o de seu próprio bruxismo. Por que o maldito homem do conserto não veio? Seu peito inflamava. Como poderiam dar a ele um dia todo assim de graça? Sem qualquer aviso prévio que fosse. Não era justo dar dias às pessoas sem que antes elas pudessem planejar como ocupa-los. Ocupava todos os dias com cuidado, todos os minutos. Mas por conta do desleixo e desrespeito do homem do conserto, agora a mesa de jantar pulava qual cavalo e o café passado entrava em erupção na garrafa térmica. Não tinha mais jeito. Levantou-se justo na hora que o sofá abriu-se numa fenda para o próprio inferno. Corria pelo apartamento apertado, desviando dos garfos na cozinha e tomando cuidado para não pisar na mesa derretida no centro da sala. Transpirava. Num momento de distração, deixou-se encurralar pelas paredes do banheiro. Agachou e aguardou seu fim. Seria espremido ali mesmo, ou engolido pelo vaso sanitário. Tinha certeza. O absoluto de um dia diante de si era demais. A campainha. A campainha! Correu para a porta. Os móveis se puseram em seu lugar. As paredes se aquietaram. A mesa de centro. Abriu a porta. O homem do conserto chegou. Molhado de suor abraçou-o como se fosse o próprio Cristo que viera salvar-lhe da condenação eterna. Sentou-se no sofá. Dez horas e quinze minutos. O homem consertava. Seu pé, imóvel. 
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- Renato Malkov
Canta, dança, sapateia e inventa histórias. Inclusive essa.

11.9.14

O mundo na palma da mão • 2º


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- Nuno Junior
Tentou de tudo. Tentou escrever, tentou fotografar, tentou tocar, tentou desenhar e tentou pintar mas  nunca conseguiu. Até hoje ele não sabe se os seus padrões são muito altos ou seu talento é muito baixo,  mas o Nuno não desistiu.

Que barulho é esse

- Que barulho é esse?
- Qual barulho?
- Esse, nhec-nech. Parece um grilo.
- Ah, esse. Nem reparo mais.
- Como não, é chato pra burro.
- É que já me acostumei.

Trata-se de um barulho do meu carro. Desde que saiu da concessionária fazia um barulhinho chato vindo do banco traseiro. No começo me chateou, mas a falta de tempo e paciência me impediram de levar para uma revisão. Acabou ficando e eu me acostumando.
O barulho continua lá, mas já não me incomoda.

Assim é a relação com o racismo no Brasil. Quando questionados, dizemos que não, aqui não tem racismo, somos um povo misturado. Mas quando o assunto vem à tona de uma forma mais contundente, dizemos então que existe um racismo, mas este é velado. 

Ambos pensamentos estão equivocados. Existe sim racismo no Brasil e este não é nem um pouco velado, é, ao contrário, explícito. Acontece que nos acostumamos. Já não nos perturba mais.

Não até que um evento, rotineiro (!), é flagrado por uma rede de TV e toma proporções de novidade.
A guria que foi flagrada xingando o jogador do Santos de macaco, não é única, não é minoria, não é velada.
Ela deve conviver com alguns negros e quem sabe ter uma amiga negra, mas assim como muitos outros, quando sob pressão, expõe esse comportamento primitivo.

No dia seguinte ao ocorrido com o goleiro aranha, ouvi o diálogo entre dois amigos que diziam que isso não pode acontecer, não de forma pública assim. "Uma piadinha em um ambiente fechado ok, mas em público assim não dá". - arrematou um deles.

O racismo só se torna velado quando em condições ideais de temperatura e pressão. Tem um negro na roda, então tratemos de sermos todos civilizados e evoluídos. Ele foi embora, rá, hora certa para aquelas piadinhas.

Frequento estádio de futebol em São Paulo há um bom tempo. Aqui a torcida é de fato mista, ao menos na arquibancada é, nas cativas um tanto menos. Não ouço xingamentos racistas, ninguém seria doido de chamar alguém de macaco, quando a seu lado tem negros. Mas já vi muitos amigos fazerem (será que eu mesmo já não fiz?!) isso quando em condições favoráveis, ou seja, longe de negros. O racismo no Brasil não é velado, é covarde (ou educado, como queira).

- Que barulho é esse?
- Qual barulho?

A coisa se torna mais obscena, como evidenciou Obadias em seu belo post "onde os negros não tem vez", quando a presença de negros é minoritária.
Dia desses, em visita à Porto Alegre, perguntei a uma pessoa se ele era Grêmio ou Inter. Ele de pronto respondeu, meu sobrenome é alemão. Ele era Grêmio (óbvio).

- É que já me acostumei.
__________
- Ev Melo
Idealizador e curador deste espaço. É uma pessoa rara, como outra qualquer.

10.9.14

extinção

outro dia um ​rapaz por educação e cordialidade me estendeu uma mão de boa noite, eu nunca tinha pensado nisto, mas então... meus deus! olhei o moço enquanto meu sorriso abobado erguia uma mão cúmplice de minha maldade, eu pensava:"meu rapaz por onde telefone-maçanete-canetas alheias andou esta ​tua mão?" ​meu ​sorriso ​falso ​abobado, "boa noite!"​; depois, meu braço direito pendia ao lado do meu corpo, tendo pena de minha mão envergonhada, esta mão que a mim mesma se tornou imprópria, não coçar olhos, não cutucar orifícios, não comer cutículas... e onde estaria meu frasquinho de álcool, porque neurose pouca é bobagem e para mim as coisas e as pessoas ​estariam impregnadas de infinitos seres micro-invisíveis e letais, mas as vezes também pergunto, será? 

entendo que o meu próximo é o outro. um que invade meu território, se ocupando do mesmo ar que eu, fazendo bailar no espaço suas partículas que se juntam com as minhas, mas nós não. nós nos distanciamos. nos repelimos. o outro me ameaça. eu também a ele.

há momentos que nostalgiando a história penso nas catátrofes épicas que devastaram uma civilização inteira, pestes, holocausto, inquisição. homens e mulheres escreveram a história com seu próprio pulmão, seu sobrenome, sua resignação e foram extintos. só restou a história. não eu não quero, não me interessa ​ essa poesia.

vantagem terão os laboratórios. os caras de avental branco ​ - baseados em evidências de hipóteses comprovadas​ - os caras aplicarão suas pesquisas e novas drogas surgirão ​ e as salvadoras vacinas: micro-invisíveis agora não mais letais, ​porém cambaleantes, entrando por direito e permissão em ​meu corpo para brigar com a matéria e por fim ​me fazer mais saud ​á​v​el. será? e sim, venderemos, ainda, muitas máscaras e muito álcool em gel. abençoado seja o mercado das oportunidades!

não estou alarmada, estou em pânico! pus os pés numa clínica outro dia e tive um prelúdio do apocalipse. todos os funcionários usavam máscaras verde-centro-cirúrgico. olhava a moça do atendimento se esforçando em ser compree ​n​dida​ enquan ​to falava comigo, ​seria cômico se não fosse bizarro; ​ela respirava ​o próprio hálito enquanto o elástico ​fazia uma fenda em seu rosto. o outro. eu. aquele que ameaça quando estende a mão, aquele que não pode chegar tão perto e que se oferece um pedaço de seu chocolate está afrontando um de nós, indecentemente.

mas eis o outro lado de todas as coisas: chegaremos, um a um, ao dia último. após centenas de mortes por agravo da síndrome gripal, noticiadas todos os dias - são proveitosas as tragédias, faz-nos ter assunto, ocupação, idéias, amplia o mercado, gera emprego e desvia nossa atenção - pergunto: e os homens tantos? o morto nosso de cada dia, no trânsito, numa mesa de cirurgia, de tiro, nosso morto de fome, morto de tristeza... de um jeito ou de outro, morrem todos os dias, por epidemias ou só porque já se viveu demais. há vários modos de se chegar ao inevitável.

seja o que for, um dia, aquela coisa em nós que deambulava, que se aborrecia, que amava, que acreditou em deus, que teve filhos, que fabricou vacinas, que era muito gorda, que era muito séria, que era bem feliz, que ganhou medalhas, que sonhou sempre e se entupiu de mundo, aquela coisa que dizia com os olhos, que dizia e amava, esta coisa já não estará mais aqui.

e, no derradeiro instante, restarão apenas os invisíveis letais devoradores dos humanos, para depois também eles chegarem ao fim ​, ​a involução! quando nada mais restará ​, apenas as baratas... será?


o caso é que minhas mãos estão ressecadas de tanto serem lavadas e desejo muito que, em nome do que quer que seja, esta epidemia seja controlada e a gente durma em paz achando que o mundo está em ordem. assim, eu poderei sem neurose sorrir e apertar confortavelmente a mão de um que me foi gentil ​ e finalmente deixarei de inve​ntar pensamentos e comportamentos maníacos apenas porque tenho medo da extinção!
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- kelly guimarães
filósofa das letras pequenas. textos profundos e maiúsculos, tudo em letras minúsculas.

8.9.14

Onde os negros não tem vez

Não entrei nessa polêmica do xingamento da torcedora gremista ao goleiro Aranha por causa do risco de se tomar posições binárias e nunca se sabe exatamente até onde o xingamento da garota foi reflexo do seu racismo mesmo ou de uma infeliz empolgação no jogo que a levou a aquela atitude patética. Sem dizer que é bastante complicado achincalhar uma pessoa por conta daquele erro estúpido cometido, como se isso fosse reparar o dano, e como se não fosse um problema generalizado.

Mas a polêmica serviu para trazer à tona a tão já discutida questão sobre haver ou não racismo nesse tipo de manifestação. Estava almoçando essa semana com alguns colegas de trabalho, brancos, e minha impressão é de que eles não acreditam no racismo daquele episódio, que aquele tipo de xingamento é normal. Um deles até comentou: “mas os argentinos vivem chamando os brasileiros de macaquitos!”

Ah, por falar em Argentinos, sem querer generalizar, é claro, uma vez viajava de táxi entre o aeroporto Ezeiza, nas cercanias de Buenos Aires, rumo ao hotel, quando perguntei ao taxista:
- Existe racismo aqui?
- Não, aqui não temos negros.

Esse tristíssimo episódio, na minha opinião, associado a outro que vou descrever, mostram uma das piores facetas do racismo, que é justamente a invisibilidade: se o outro não existe, não há porque ser racista.

Eu viajava muito a países sul-americanos e meu espanhol era impecável. Quando viajava a Buenos Aires, era atendido muito cordialmente pelas pessoas nos hotéis ou na rua. Até um dia que um colega de trabalho, branco, foi comigo. Depois de algumas interações na rua e no hotel, eu lhe perguntei:
- Você percebeu como as pessoas daqui são racistas?
- Não. Não vi nenhuma atitude racista delas.
- Você não se deu conta que eu falo com as pessoas e elas respondem para você?
- Sério??? Acho que não...
- Então observe.
Depois de algum tempo ele reconheceu que isso de fato ocorria. O irônico disso é que meu espanhol era impecável e ele mal arranhava o portunhol. Daí, no hotel ou na rua, quando estávamos juntos, quase que invariavelmente, quando me dirigia às pessoas para alguma informação, apesar de muito educadas, elas não respondiam para mim: respondiam para meu amigo. Se havia um diálogo, era surreal: eu falava, a pessoa respondia para o amigo e eu voltava a falar com a pessoa.

Ok, chega de bater nos argentinos, mesmo porque tenho histórias interessantes de racismo aqui no Brasil. Mas o que ficou dessa experiência é que as pessoas só conversavam comigo quando não havia outra maneira. Se elas pudessem não conversar comigo, eu me tornava invisível automaticamente.

Vi novamente esse triste sintoma de invisibilidade, que serve muito bem para justificar o “aqui não existe racismo”, no depoimento com choro forçado que a garota deu à impressa, com a ajuda do Thiago Leifert do Globo Esporte. No programa contaram as vezes que a garota se referiu ao Grêmio em comparação às vezes que ela se referiu ao Aranha: falou 7 vezes na importância do time, no seu amor pelo time, e apenas 1 vez fez um pedido de desculpas ao Aranha, meio que de passagem.

De repente existe uma comoção generalizada e a garota, que não se julga racista, se preocupa muito mais com o que vão pensar do seu time do coração do que com a pessoa que ela ofendeu. Por que isso? Por uma questão muito simples: a pessoa ofendida é o de menos, não tem a menor importância. Como poderia ser acusada de racismo se o pretenso alvo do seu racismo sequer tem importância?


Essa lógica do “não sou racista porque não existe negro” ou ainda “ele não é tão importante assim a ponto de eu achar que o que disse a ele foi de fato uma ofensa grave” é uma das facetas mais cruéis do racismo. Porque nela, o negro não tem vez. O negro não conta. O negro não importa.
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

5.9.14

Comadre Raposa e compadre Gato (da série “Contos da Dona Ilza”)

Compadre Gato e comadre Raposa eram muito amigos. O Gato chegou da na casa da Raposa, bateu palmas e a Raposa saiu.
- Bom dia, comadre Raposa!
- Bom dia, compadre Gato! Tudo bem com o senhor?
- Tudo! E com a senhora?
- Aqui vai tudo bem. O que o senhor deseja?
- Sabe o que é, comadre, eu estou sem moradia por enquanto e queria saber da senhora se a senhora me deixava ficar aqui uns dias...
- Pois não, compadre, imagina... A gente tá aqui pra servir mesmo!
- Como a senhora é boazinha, né, comadre?
O Gato ficou ali na casa da comadre Raposa. Comia, bebia, não trabalhava, só folgava. Um dia a Raposa chega para ele e lhe diz:
- Ô compadre Gato, ouvi dizer, compadre, que está vindo uma crise...
- É, comadre?
- É, tá vindo uma crise de fome e eu pretendo fazer um pote de banha deste tamanho assim, mas eu tenho um problema.
- Mas qual o problema, comadre?
- O problema é que eu tenho que guardar naquela árvore, ali, ó, e eu não consigo...
- Mas comadre, eu tô aqui na sua casa... A senhora acha que eu não vou ajudar? Pode fazer a banha que a gente põe lá em cima!
- Ah, tá, o senhor me ajuda então? Então vou fazer a banha.
Foi lá na cozinha e faz aquele monte de banha para, quando a crise viesse, ela estivesse bem prevenida. Encheu o pote enorme e, com a ajuda do compadre Gato, colocou em cima da árvore. Tapou e deixou lá. E o gato, que é doido por banha, não via a hora de comer um pouco daquela banha. Em um belo dia ele saiu, voltou e falou para a Raposa:
- Comadre, estou com um problema sério...
- É, compadre? Qual?
- Sabe, eu dei uma volta aí, encontrei uns compadres aí, e me convidaram para ser padrinho do filho deles!
- Ah, é, compadre? Mas qual o problema?
- É que eu tenho que passar minha roupa e eu não sei, comadre.
- Mas compadre, eu passo sua roupa!
- Obrigado, comadre!
A Raposa passou a roupa do Gato, o Gato se vestiu tão elegante que parecia o Gato de Botas, e foi embora para a festa. Quando ele chegou de tarde, na boquinha da noite, chegou e se deitou com o barrigão pra cima e a raposa lhe perguntou:
- E aí, compadre, como é que foi a festa?
- Mas, comadre... foi muito boa! Eu comi muito, comadre. Estou tão cansado que nem sei como vou aguentar. Hoje não vou comer mais nada.
- Ah, é, compadre? Muita comida?
- Muuuita comida!
- Ah... mas festa é pra comer mesmo! E como é o nome do seu afilhado?
- Nome do meu afilhado? Ah... Pispiô!
- Que nome, né, compadre? Pispiô...
- Pois é, Pispiô.
Passou o tempo, por volta de uns dois meses, o Gato saiu e voltou novamente, chegou e disse:
- Comadre, não sei o que esse povo tá vendo em mim não, viu?
- Qué que foi, compadre? Já convidaram de novo?
- Já me convidaram pra ser padrinho de novo...
- Gostaram do senhor, não?
- É... mas o problema a senhora já sabe, né, comadre? É a minha roupa.
- Compadre, eu já não falei, quantas vezes você quiser eu passo sua roupa?
- Ah, tá bom.
A Raposa passou a roupa do Gato, ele se vestiu e foi embora.
Foi lá, comeu, comeu, comeu, comeu... voltou para casa com um barrigão, pior do que da primeira vez. Deitou lá e ficou com as pernas abertas...
- E aí, compadre, chegou cansado de novo?
- É, comadre, muita comida! É muita festa!
- E aí, qual o nome do afilhado?
- Tanomeio.
- Pispiô e Tanomeio? Que coisa! Que nomes, né?
- É, uns nomes estranhos. Esse pessoal não sabe escolher nome, não.
Passou mais um tempão, o Gato deu uma volta lá fora e voltou novamente.
- Ó, comadre, é a última vez. Já falei que eu não vou ser mais padrinho de ninguém.
- Ah, coitado! Tudo bem, compadre. Pode deixar que eu passo sua roupa... Não tem problema nenhum!
- É, comadre, mas eu não quero mais, não! Não quero mesmo! Já disse. É a última vez. Não quero ser padrinho de mais ninguém. O que é isso! Dando trabalho pra senhora direto!
- Ah, mas por isso não, compadre!
- Mas eu não quero, não. Já decidi!
A Raposa passou a roupa como de costume e lá se foi o Gato para sua terceira festa. De tardezinha ele voltou, meio descabriado, deitou...
- E aí, compadre, foi boa a festa? E comeu bastante, pelo jeito...
- Comi! Comi tanto, olha, tô nem aguentando.
- E o nome do seu afilhado?
- Paralisô.
- Paralisô?
- É, Paralisô.
Passou-se um tempão e a Raposa disse:
- Compadre, agora a crise está chegando e é hora de a gente pegar o pote de banha.
- Então vamos lá, comadre.
No caminho, o Gato lhe disse:
- Agora, comadre, quando a gente chegar lá, a senhora vai ficar embaixo com as duas mãos assim, abertas, pra cima, porque eu vou subir e vou descendo o pote bem devagarzinho, viu, comadre?
- Tá bom, compadre.
Chegaram embaixo da árvore, coitada da Raposa, toda preparada com as patas pra cima, o Gato subiu na árvore...
- Ó, comadre, vou já soltar...
- Tá bom, compadre, tô aqui esperando!
- Olha lá... é agora, é agora!
Soltou o pote de uma vez, bem na cara da Raposa. O choque foi tão forte que quebrou o pote, a Raposa com a cara machucada, ele deu um pique e desapareceu! A Raposa ficou lá, se lamentando a dor insuportável, as lágrimas escorrendo:
- Olha, seu infeliz, você fez uma coisa dessas comigo! Tanto que eu fiz por você, você comeu toda minha banha e ainda quebra minha cara...
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

4.9.14

O mundo na palma da mão • 1º

Faz tempo que sentia vontade de voltar a fazer tiras. Pensamentos simples, traços simples, cotidiano. Enfim, misturei tudo isso e estou começando agora O mundo na palma da mão, para tratar do vício que nos aprisiona ao mundo oculto que existe nos nossos smartphones e redes sociais, como o terror do 3G, o inferno das notificações e as frases pedantes de facebook, como esta:

Eaí, quantas curtidas esse post merece?


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- Nuno Junior
Tentou de tudo. Tentou escrever, tentou fotografar, tentou tocar, tentou desenhar e tentou pintar mas  nunca conseguiu. Até hoje ele não sabe se os seus padrões são muito altos ou seu talento é muito baixo,  mas o Nuno não desistiu.

3.9.14

Resposta à "Sobre Selfie e Fome' - por Nuno Junior

Ontem publiquei a resposta do psicanalista Paulo Bregantim, sobre meu post 'Sobre Selfie e Fome'. Hoje é a vez da resposta do publicitário Nuno Junior.
***

Nunca entendi as selfies, por conta simplesmente da sua estrutura estética. Me lembro claramente do tempo da fotografia de filme, quando meu pai me ensinava a revelar fotos no banheiro do apartamento que morávamos. Enquanto tirávamos fotos em preto e branco no quarto, improvisando iluminações com papelões e flashes profissionais. Meu pai sempre tirou ótimas fotos e, como todo bom fotografo, quase nunca apareceu nas fotos. Porque a consequência de se tirar boas fotos é não aparecer nelas. Até inventarem a selfie.

Com a banalização da fotografia, que ocorreu pela derrubada de obstáculos entre clicar e ver o resultado, muita coisa mudou. As fotos hoje não são feitas, são tentativas e erros que se repetem até se ter uma imagem minimamente publicável. Percebi que tudo estava perdido quando emprestei minha DLSR grande e desajeitada para uma amiga que, logo na primeira foto com aquela grande câmera a segurou de forma invertida, virando a lente para si, esticando os braços e clicando uma foto com toda a distorção que a grande angular podia oferecer. Quando foi ver a foto, percebeu que estava muito mais gorda do que na vida real, com o rosto distorcido e que o flash da câmera tinha queimado todas as cores do seu rosto. De imediato ela achou que a câmera que eu economizei tanto para comprar, era terrível, pois não servia para uma selfie. E esta câmera não servia para registrar o egoselfie de alguém, mas sim o mundo todo de todo o mundo.

O que me deixa mais triste em relação ao selfie é que as pessoas acham mais interessante tirar uma foto de si mesma do que registrar o que está em volta. E isto é muito feio, porque em geral, as pessoas são muito feias.
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- Nuno Junior
Tentou de tudo. Tentou escrever, tentou fotografar, tentou tocar, tentou desenhar e tentou pintar mas  nunca conseguiu. Até hoje ele não sabe se os seus padrões são muito altos ou seu talento é muito baixo,  mas o Nuno não desistiu.

2.9.14

Resposta à 'Sobre Selfie e Fome'

Como comentei em meu último post 'Sobre Selfie e fome' publicado na semana passada, provoquei meus amigos, o psicanalista Paulo Bregantim e o publicitário Nuno Junior, para saber a opinião deles quanto ao tema.
Aqui vai a resposta do Paulo.
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Calma! O Selfie não é uma revolução da informática e muito menos do baixo preço das fotografias que agora tiramos com celular, ipad, etc.
Essa revolução faz parte da evolução do ser humano, pois somos seres mutáveis e, a mudança nada mais é do que matar o velho para dar lugar ao novo. Digo isso, pois se pegarmos uma pessoa com mais de 70 ou 80 anos os selfies são bem reduzidos e quase não causa impacto algum sobre a vida desses. Isso significa que uma geração está partindo e, isso não quer dizer que ela era melhor ou pior que a geração que está ficando. Somos seres mutáveis e, mudança nada mais é do que matar o velho para dar lugar ao novo.

Os Selfies, ou as pessoas que vivem(eu, você e outros tantos) nesse tempo não teremos força para melhorar ou pior o que está sendo morto, nos resta sim, é entender o que está acontecendo e implementar nossas teorias sobre o assunto – isso que estamos fazendo aqui.
Não temos muito que fazer quanto as mudanças que somos submetidos, a não ser, observar, tentar de alguma forma melhorar, evitar os excessos e, no mais deixar o tempo ditar essas formas que ele mesmo(o tempo) dita o  todo instante.

Quanto as pessoas que querem “aparecer” ante uma manifestação o aparição de grande repercussão isso acontece desde os primórdios, pois sempre as pessoas necessitam para acariciar seu ” EGO” projeções, aparições, demonstrações de ser melhor que outro. Hoje, isso acontece com as fotos e as publicações nas redes sociais. Mas nada mudou como fórmula, somente as formas que mudaram.
Quanto a rapidez das informações, isso é fato, pois a tecnologia é um caminho sem fim e, isso é apenas o começo, pois quando conseguirem colocar os outros sentidos na TV, Rádio, ou redes sociais como: Cheiro e tato por exemplo ficaremos mais aficionados do que somos hoje, pois imagina poder tocar em algo na TV ou sentir o cheiro, isso seria maravilhoso. Hoje, só temos a visão e audição sendo utilizada, mas não se iluda chegaremos um tempo onde todos os sentidos serão repartidos em tempo real, mesmo não estando presente fulano ou ciclano.
Então, o “medo” ou a preocupação que o selfie aparenta mostrar é muito pouco para as mudanças que virão e, isso bom amigo faz parte do que escrevi acima; “Somos seres mutáveis e, mudança nada mais é do que matar o velho para dar lugar ao novo.”
Valeu

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- Paulo Bregantim
Psicanalista Clínico. Escreve sobre a alma e coisas simples. Simples assim.
Atende na clínica Reciclar Unidade II.

1.9.14

Possibilidades

Nunca entenderemos muito sobre vida se ficarmos presos em nossos "umbigos". Os relacionamentos e as pessoas são as que nos ensinam sobre vida.

Tudo é útil no aprendizado do entendimento sobre eu mesmo e os outros que me rodeiam. A percepção é uma possibilidade de entendimento da vida.

Se a vida for um mar e eu um barco, bem, então preciso cuidar bem do barco e entender o máximo que puder sobre o mar.

As possibilidades são ações Divinas que aparecem em cada "esquina" de nossas vidas.

"Não somos apenas o que pensamos ser. Somos mais: somos também o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos 'sem querer'." - Sigmund Freud

Sempre existem possibilidades. Falei isso hoje e, creio de todo meu coração que isso é verdade.

A vida é uma rotina com alguns bons e maus eventos. Entre esses eventos alguns(as) pessoas se constituem amigos(as) de jornada. Acho que é isso que vale na vida!

A vida é uma rotina com alguns bons e maus eventos. Entre esses eventos alguns(as) pessoas se constituem amigos(as) de jornada. Acho que é isso que vale na vida!

A vida é uma história que não escrevemos sozinhos.

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- Paulo Bregantim
Psicanalista Clínico. Escreve sobre a alma e coisas simples. Simples assim.
Atende na clínica Reciclar Unidade II.