27.8.14

Sobre Selfie e Fome


A selfilização é só mais um degrau escada abaixo no bom senso que viver em sociedade exige. 
Na última semana descemos mais um degrau com a senhorinha que passando pelo caixão de Eduardo Campos, não pestanejou, sacou seu celular e fez um #selfie.
Lá na Copa (lembra?! Foi esse ano!) Neymar entra de maca no hospital após o jogo conta a Colômbia e uma funcionária, aguarda na posição de #selfie esperando o momento exato em que o craque passaria por trás e #selfie nele!

Onde foi que perdemos a noção do ridículo? 

O problema mora aí. Não perdemos isso em um único momento, onde poderíamos perceber e tratar o problema na hora. Estamos perdendo essa noção de tempo e espaço (... tem hora e local para tudo ...), progressivamente, ou melhor, regressivamente (já que não se trata de progresso). E por isso, por ser em pequenos passos, não damos conta do tanto que já fizemos (e fazemos).

A revolução industrial (conjunto de mudanças que aconteceram na Europa nos séculos XVIII e XIX) mudou o modo que as pessoas se organizavam em sociedade, levando as pessoas do espaço no campo às concentrações nas cidades, trocando os trabalhos artesanais por trabalhos assalariados, moldando toda uma forma de vida. Trocamos o galo pelo despertador.

Em meados dos anos 90, iniciou-se a era a informação. Através da democratização do acesso à internet, uma quantidade muito maior de pessoas passou a acessar uma quantidade ainda muito maior de informação, tendendo ao infinito. Isso também moldou, e ainda molda, a forma em que nos organizamos e vivemos. Isso se propagou ainda mais no final da primeira década dos anos 2000, com a chegada dos smart phones, esses pequenos computadores capazes de tudo.

Mas enquanto a primeira revolução levou dezenas de anos para se notar as primeiras consequências, a segunda é acelerada, dando pouco tempo para refletir e ajeitar qualquer coisa.

Mas por que o acesso a tanta informação é ruim? 
Não é, na verdade, mas se por um lado a fome é um problema sério, a obesidade é um extremo perigoso. 
O excesso de informação e a facilidade em se fazer tudo, tem nos tornado obesos preguiçosos.

Voltando alguns anos atrás, quando tínhamos que decidir se comprávamos filme fotográfico com 24 ou 36 poses (o de 12 não valia a pena) tínhamos de escolher o que fotografar, afinal, tínhamos um limite. Minimamente tínhamos de mirar a cena, paisagem ou pessoa, porque só veríamos a foto depois de revelada. No fim, pagávamos para revelar, colocávamos em álbum e guardávamos em uma caixa. 

Não éramos doidos em fazer #selfies.

Se por um lado tínhamos fome (limites de poses, preço a pagar por foto revelada, espaço para guardar), essa fome tratava de nos fazer selecionar, escolher, optar, pensar.

Hoje temos fartura. Quanto custa tirar uma foto? 
Ficou feia? Tudo bem, deleta. 
Ficou boa (mais ou menos)? Joga no Facebook, Instagram, Twitter e qualquer outra rede social.

Não existe mais a necessidade de selecionar, escolher, optar, PENSAR.

Parece que se não temos limites, não nos preocupamos em pensar. Quando não pensamos, agimos por instinto. 
O instinto diz que nas redes sociais tudo se pode, tudo convém. Todos são felizes, e você tem a obrigação de ser.
Todos viajam, todos comem pratos apetitosos, todos tem curiosidades a mostrar, a toda hora.

Selfie do caixão de um político famoso morto em um acidente trágico?! Por que não?
Selfie do craque dando entrada às pressas no hospital, com a coluna quebrada?! Não pode passar sem um #selfie.

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Gostaria de contar com a opinião dos também colunistas do OhRaios, Nuno Junior - publicitário que atua com foco em dispositivos móveis, e Paulo Bregantim - psicanalista que trata de pessoas e observa a sociedade.

Breve, postarei as respostas aqui no !OhRaios!
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- Ev Melo
Idealizador e curador deste espaço. É uma pessoa rara, como outra qualquer.

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