4.8.14

Réptil

Acordei lentamente e com dificuldade arrastei-me para fora da cama. Estava frio. Vi um pequeno raio de sol que penetrava pela fresta da janela e se estendia no chão. O dia deve estar bonito, pensei. Fui até aquele pequeno fio de calor e lá fiquei. Estar ali trazia-me uma leve felicidade despreocupada. Será que era  alguma data especial? Talvez fosse, e eu só não ficara sabendo. Afinal, sempre se comemora algo em algum lugar. Então, comemorava eu também ali, seja lá o que fosse. Mas não eram todos os dias assim? Sim. Não havia motivo para esse questionamento. O raio de sol não se questionava. Simplesmente era. Era calor, amarelo, vivo. Eu, em tons pastéis, certamente haveria de me questionar. O raio de sol despertava um quê filosófico que não sabia explicar. Mas eu me questionava. Inclusive, sobre essa ideia de eu. Afinal, como constituir-se um eu e saber-se eu? O raio de sol não era um eu. Mas não tinha que se preocupar. Era raio de sol e isso bastava. Eu já fui um eu. Tenho certeza disso. Lembro claramente de pelo menos quatro momentos na vida em que fui um eu. Ou acha que somos eu o tempo todo? Acho que há quem nunca chegue a ser eu. 
E  algumas pessoas nunca nem se questionam se o são ou não. As vezes, ser um eu é tão sutil que passa como um sopro e nem se percebe. Mas sou desses que se pergunta. Principalmente por conta dos raios de sol. E sei que agora não sou um eu. Saber que não se é algo já parece bastante. O pequeno rastro de luz começava a partir. Eu também precisava partir. Partir-me. Comecei pelos dedos. A carne forçava seu caminho e rompia o tecido que já não mais a comportava. Carne viva. Bicho. Precisava de mais espaço. O vazio tornara-se tão grande que a carne inchava. Rompendo as extremidades e chegando até o centro, trocava de pele. 
Réptil. Não era um eu antes. Não seria um eu agora. Algumas vezes somos eu, outras, apenas precisamos ser. Nunca sabemos o que podemos nos tornar. A carne exposta demonstrava o frescor desse ser recente. Desse novo vazio. Era preciso que endurecesse, cicatrizasse, calejasse, para que então, rompesse outra vez, dando lugar a outro novo. Ser réptil é assim. Os antigos eus por vezes tentam voltar, mas não há mais lugar. Sempre sobra. Sempre falta. Mas estão sempre Os que são e os que não foram. Pele seca. Basta olhar pra trás. E deixar pra trás.

__________
Renato Malkov
Canta, dança, sapateia e inventa histórias. Inclusive essa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário