13.8.14

O dia em que o circo fugiu

Se nos dias de hoje, histórias são criadas, viajam na velocidade da internet e se transformam em verdades, credos, manias ou dogmas, quanto mais nos tempos antigos, onde as histórias iam a cavalo ou via correio (não necessariamente mais rápido). Nos tempos de cartas escritas à mão, de um telefone por vizinhança (quando havia), de pouca TV e pouca informação, as histórias chegavam e ficavam. Feito tatuagem, marcavam a pela, a memória e ali faziam morada.

Foi assim a minha infância. Eu, nascido no início dos anos 80, ainda ditadura militar, vindo de uma família humilde do interior que migrou para a cidade para uma condição melhor de vida. Mais do que isso, uma família evangélica. Mais do que isso, evangélicos da Assembléia de Deus, igreja bastante tradicional, onde muita coisa (quase tudo) era pecado.

Não quero discorrer aqui sobre a igreja e seus pecados, talvez o faça em outras crônicas, mas o que me leva a digitar aqui essas letras desalinhadas, é um pecado que me marcou até a fase adulta, o circo.

Era pecado ir ao circo. Simples e definitivo assim. Pecado.

Poucas vezes ousei questionar os porquês dessas normas, preferia ficar à espreita enquanto as outras crianças o faziam. Assim buscava informações sem correr o risco de levar uma bronca. 
'Circo é coisa do diabo', 'No circo tudo é mentira, e mentira...', 'Quem trabalha no circo não acredita em Deus', 'Lá tem mágica e magia é coisa do capeta' e por aí ia.

Com isso, passei toda minha infância com o sonho de conhecer o circo, mas com o medo de nunca poder fazê-lo, com o risco de queimar no inferno.

Naquela época, haviam muitos circos. No caminho para a casa de meus avós, em Mauá, passávamos por diversos desses pequenos e pobres circos. Minha imaginação fervia para além daquela lona suja ao passo que ouvia histórias terríveis sobre o circo.

A história que mais me perturbava, era a de sempre alguém conhecer alguém que fora levada pelo circo ou que fugiu com o circo. Talvez no interior de São Paulo isso fosse recorrente. Ou talvez, aconteceu uma vez, mas todos replicavam a mesma história sem parar e acrescentando detalhes perturbadores.

O circo era pecado e a mim cabia acompanhar com os olhos tristonhos enquanto o carro passava em frente, sem parar.

Anos (uma porção deles) se passaram e cá estou, um adulto, dono do próprio nariz. Ou quase isso.
Muita coisa mudou. Minha relação com a igreja, seus dogmas e costumes. A quantidade de circo pela cidade. Meu ceticismo quanto a histórias contadas ao vento. (...)

Mas a vida dá um jeito de nos presentear e preencher espaços em branco. Uma fábrica antiga é demolida, deixando espaço a um grande terreno. Logo imaginamos que dali sugeria um novo prédio, mas enquanto o prédio não chega, o local deu lugar a um circo. Desse de sobrenome russo, mas que logo se percebe, não é lá essas coisas. 
Circo daquele clássico como eu via pela janela do carro quando pequeno. Simples, onde o palhaço é também pipoqueiro, o malabarista é bilheteiro, a mulher do trapézio ajuda na arrumação, e assim se montava aquele circo.

Não tive dúvidas, convidei a esposa, os amigos com filhos e lá armamos nossa ida ao circo. Eu, com trinta e poucos anos, visitando o circo pela primeira vez na vida. Ah que dia.

Ri das trapalhadas manjadas do palhaço. Me empolguei com os saltos dos trapezistas. Segurei a respiração com o globo da morte (parte pela emoção, parte pelo forte cheiro de gasolina queimada). 

Voltei a ser criança, sem sentir o tempo passar.
Naquele dia cometi o pecado mortal de curtir o circo. Me encantei com a cuspidora de fogo e com os malabaristas. Vibrei com o atirador de facas. Me encantei com a menininha pulando cordas. Eita pecadinho bom esse de apreciar o circo.

No final do espetáculo, esperto, não deixei o circo me levar, tampouco fugi com ele. Naquele dia, raptei o circo, foi o circo que fugiu comigo.

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Evandro Melo
Uma pessoa rara, como outra qualquer.

2 comentários:

  1. Minha relação com o circo é muito parecida com a sua e, considerando o fato de eu ser mais velho que você, era mais pecado ainda. mas deus na sua infinita e incompreensível bondade, colocou no meu caminho o meu "tio cado", irmão caçula da minha mãe, o crente ovelha negra da família, que me desencaminhou em vários sentidos. foi com ele que, na minha infância/adolescência fui a um circo (fiquei impressionado com o globo da morte, as trapezistas de curvas generosas e maiôs cintilantes, os palhaços que faziam palhaçadas de doer a barriga de tanto rir, os equilibristas, os truques de mágica que me deixaram impressionado, os animais... bem, acho que era o circo garcia). meu tio também me desencaminhou no primeiro gole de uma bebida alcoólica em uma padaria na esquina da primeiro de maio, me levou a primeira vez a um filme de cinema no studio center (assistir 48 horas e fiquei impressionado com uma imagem de dois melões naquela tela grande, de resto, não consegui acompanhar o fluxo narrativo da história)...

    todas essas experiências e outras escondidas de meus pais.

    eita tio bão da gota... puxa, nunca lhe agradeci por isso. obrigado, tio cado!

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