7.8.14

Jornal, balas e memórias

Há  dois dias comecei a receber em casa o jornal Estadão. Assim do nada. Não fiz assinatura, tampouco fui comunicado que é uma ação de marketing. 
Não sei portanto se trata-se de uma degustação ou se o entregador está me deixando feliz ao mesmo tempo que deixa algum vizinho fulo da vida.

Fato é que eu que nunca fui leitor de jornal, estou pegando gosto pela coisa. Começo o dia diferente. Levo para o trabalho me sentindo como um grande executivo, todo importante, pronto para apertar um botão no telefone e solicitar um café para a secretária enquanto tomo importantes decisões que definirão os rumos da minha empresa.
Na prática, do jeito que o jornal chega, levo embora, mal leio as manchetes principais.

Em casa sim posso desfrutar de tanto conhecimento carregado no malcheiroso papel. Cheiro aliás que foi muitas vezes usado por mim como desculpa para me livrar dos chatos vendedores de assinaturas por telefone.
- Eu tenho rinite moça, o jornal me ataca a alergia.
Não era de todo uma mentira, talvez um exagero. Mas a tática era necessária.

Esse simples acontecimento, receber jornal em casa, me despertou lembranças da minha infância, onde me lembro por exemplo de ter tido aula de leitura de jornal na escola.
Era a 4a série do primeiro grau, o professor passara o dever de casa para que todos levassem um jornal para a próxima aula. Passei na minha avó Lola e peguei o Diário do Grande ABC do dia anterior para levar para a escola. 
Na aula aprendemos como os jornais dividem os assuntos em cadernos, o que são manchetes, como localizar matérias e como manejar o jornal. Essa última era para mim a mais interessante das lições.
O tamanho da folha, A0, faz do ato de ler jornal um exercício de destreza.
A lição era, abrir o jornal, escolher a notícia a ser lida, dobrar a folha ao meio, da direita para a esquerda e depois novamente ao meio, de cima pra baixo, deixando a matéria escolhida à mostra. Uma chacoalhada no papel era sempre útil para ajeitá-lo.

Coisa que minha avó, dona Lola, mãe da minha mãe e de mais 9, fazia sem ter tido aula nenhuma.
Me lembro de sempre passar na casa da Vó Lola, que era diferente de qualquer outro lugar (antigamente casas de avó eram especialmente diferentes) e encontrá-la sentada no chão com o jornal devidamente aberto à sua frente.
A casa da Vó era sempre assim, um pouco mais fria que a minha, um pouco menos iluminada e um cheirinho único de casa de vó. Na sala os móveis antigos desafiavam os novos designs e se mantinham clássicos. Destaque para a arca. Uma grande estante de madeira escura em estilo colonial onde em uma das portas ficavam as balas de hortelã.

Até o jeito dela sentar-se no chão era especial. Acostumada a sempre usar saias, sentava-se sobre os joelhos, deixando o corpo cair levemente de lado e repousar. Óculos de armação grossa na cor marrom, o cabelo penteado formando um coque e o dedo a ser lambido para trocar as páginas. Essa era a figura da Vó Lola.

Ela dobrava minuciosamente a grande folha até que ficasse pequena e manuseável.
Depois de ler toda a página, reforçava o vinco da dobra de maneira que as pontas ficavam todas alinhadas e então colocava na pilha das páginas já lidas.
Não me lembro quais eram seus assuntos preferidos, mas me recordo bem que a leitura era diária e respeitava aquele ritual.

Depois de ganhar balas de hortelã, eu voltava feliz para casa, levando comigo balas, carinho e memórias.

P.S.: Esta crônica foi publicada na edição de Domingo, dia 28/10/2012, no Jornal diário do Grande ABC.

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- Ev Melo
Idealizador e curador deste espaço. É uma pessoa rara, como outra qualquer.

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