29.8.14

Glória - Francis Poulenc

Iniciei minha caminhada pela música de concerto (música clássica) pelos russos. Quando eu tinha por volta dos 10 a 12 anos, eu ouvia os russos incansavelmente, e as peças que mais me marcavam eram Uma Noite no Monte Calvo, de Mussorgsky e Danças Polovtzianas da Ópera o Príncipe Igor, de Borodin. Essa última na versão com coro, conseguia me deixar praticamente em transe. Mais tarde expandi meus horizontes e descobri a França. Os franceses foram minha segunda paixão musical.

O cristianismo proporcionou um incalculável legado às artes em geral. Na música não foi diferente. Há incontáveis obras escritas a partir da motivação religiosa e, nesse particular, há uma categoria delas dedicadas exclusivamente à missa católica. Há uma quantidade imensa de obras-primas baseadas na sua estrutura principal: Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei. No caso dos franceses, há uma composição específica que é bastante peculiar: Gloria, de Francis Poulenc. Em vez de musicar toda a missa, ele musicou somente essa seção. Ele escreveu a peça para coro e orquestra. Considerando a categoria “coro”, apesar de tantas obras-primas compostas pelos franceses, essa é minha obra coral preferida.

Poulenc também é um músico especial para mim por dois motivos. Primeiro, como sou músico – ainda que não me dedique a isso profissionalmente – encontro algumas semelhanças entre minha formação e a de Poulenc. Poulenc só estudou harmonia; os demais fundamentos eram explorados intuitivamente: contraponto e orquestração. Eu também só estudei harmonia. E mesmo antes de estuda-la, eu já considerava essa semelhança porque a harmonia foi sempre o que me atraiu mais. E essa peça, Gloria, do ponto de vista harmônico me excita demasiado. É muito rica. Além do mais, a escolha de compassos irregulares na peça também me agrada demais porque isso a deixa muito mais interessante para mim. O segundo motivo diz respeito à sua homossexualidade. Por meio da música, desde garoto aprendi a admirar a sensibilidade dos homossexuais. O meu grande herói orquestral sempre foi Tchaikovsky. Suas melodias e orquestrações tocavam minha alma de uma forma que nenhum outro compositor conseguia. Vez por outra eu topava com alguma coisa assim, de algum compositor, e de repente tropeçava com algum texto falando sobre sua homossexualidade. Samuel Barber, norte-americano e Francis Poulenc são exemplos de compositores que ouvi, alguma peça em particular me tocou de forma como outra jamais havia conseguido, e depois descobri que o cara era gay. No caso de Poulenc, a peça em questão é essa.

Antes de colocar algo específico sobre a peça, há uma coincidência também: minha primeira paixão foram os russos, incluídos os russos de um grupo de compositores nacionalistas que foram chamados de “Grupo dos Cinco” (Mussorgsky, César Cui, Rímski-Korsakov, Balakirev e Borodin), dos quais o que eu mais apreciei sempre foi Korsakov (Tchaikovsky e Korsakov foram meus heróis musicais russos da adolescência, seguidos de perto por Stravinsky). Já Poulenc fazia parte do chamado “Les Six”, claramente inspirado no grupo russo, formado por Georges Auric, Louis Durey, Arthur Honegger, Darius Milhaud, Francis Poulenc e Germaine Tailleferre, dos quais eu só conheço de verdade Poulenc; a galeria de gênios franceses que os precedeu é tão importante que deve ter obscurecido esses músicos que nasceram na virada do século XIX para o XX.

Especificamente sobre a peça, não é de fácil assimilação para um ouvinte pouco familiarizado com o estilo. Ele utiliza coro, orquestra e solista. Utiliza uma sofisticada harmonização que remete claramente a Stravinsky, alterna bastante a dinâmica da música, algo que me agrada demasiado, e utiliza melodias que me trazem por vezes a sensação de que, com elas, poderia flutuar em um espaço livre da gravidade.

A peça é dividida em 6 partes:

·         I. Gloria in excelsis deo – uma introdução orquestral inicia a peça e prepara o coro para a crescente entrada do coro numa melodia vigorosa. Gosto de como a frase do coro termina, em um acorde dissonante

·         II. Laudamus te – essa parte é alegre, brincalhona, um pouco longe do espírito sóbrio e pesado de uma missa. Poulenc chegou a dizer que partes da obra foi inspirada em uma partida de futebol jogada por monges beneditinos que ele tinha assistido. Não duvido que tenha sido essa. Aliás, há um trecho em que a peça atinge o clímax e, depois de uma grande tensão, é interrompida e retomada com uma melodia muito melancólica para depois retomar ao tema inicial, alegre. Esse trecho teria sido um pênalti seguido de um gol tomado, revés sofrido pelo time que ele estava torcendo? Sacrilégio! J

·         III. Domine deus – o solo de soprano nesse trecho é pungente; a harmonização e o coro dando o pano de fundo já quase me levaram às lágrimas em algumas das minhas incontáveis (mais de cem, talvez) escutas ao longo dos anos.

·         IV. Domine fili unigenite – a introdução orquestral desse movimento me parece genial; o diálogo que a orquestra estabelece com o coro, nas duas melodias – a do coro e da orquestra – é sensacional.

·         V. Domine deus, agnus dei – para mim o movimento mais enigmático da peça, a solista volta a atuar; é o movimento mais longo e que me soa harmonicamente mais sofisticado; gosto demais da tensão proposta entre o coro e a solista, as constantes modulações e mudanças de intensidade; são muito estimulantes

·         VI. Qui sedes, ad dextram Patris – último movimento, sua entrada soa para mim como um “grand finale”. E não poderia ser diferente: é o final grandioso da peça. Ele intercala uma seção alegre, para depois desembocar em um Amém iniciado pela soprano solo que vai aos dialogando com orquestra e coro num crescendo lento e majestoso até terminar em um amém calmo e dissonante, no melhor estilo de Poulenc

A gravação que eu tenho dessa peça, um CD que comprei há muitos anos, é uma das melhores referências que eu tenho da obra e não poderia ser diferente, já que é interpretada pelo King's College Choir, Cambridge.

Para um ouvinte de primeira viagem, sua apreciação exige algumas escutas repetidas até que seja possível sacar todas as nuances da peça e realmente desfrutar do que ela tem a oferecer. Recomendo.




- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

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