6.8.14

Aquário

Parei à frente de um aquário numa sala de espera essa semana, fiquei a contemplar a beleza daquele ambiente. Colorido, limpo, seguro... Os peixinhos ali dentro não correm riscos. Não há, naquele espaço, predadores naturais ou riscos climáticos que ponham em perigo a vida dos habitantes. Nem comer demais eles podem, já que até isso é controlado. Tudo é controlado: temperatura, ph da água, transparência... seria este o mundo perfeito?
Seria, não fosse tão chato e limitado. Já pensou? Passar a vida numa sala, por mais bonita que seja? Terrível.
Pois é, mas parece que essa é a ideia que fazemos da vida quando nos relacionamos com o divino. A ideia de um deus-aquarista seduz a muitos de nós. E não precisamos ir longe para fazer essa constatação, basta assistirmos alguns minutos de qualquer programa gospel-show televisivo e nos deparamos com líderes oferecendo para seus liderados o ambiente Igreja-aquário, em que todas as suas necessidades físicas e espirituais serão atendidas plenamente. Mas não só isso, é comum em ambientes menos extremados, fora do neo-pentecostalismo, encontrarmos pessoas que ficam suplicando à Deus resposta para tudo. O cara vai viajar: pede proteção; vai comprar um carro pede discernimento. Até pra arrumar uma namorada precisa da intervenção divina. Me incomoda a ideia de um deus distraído que precisa ser cutucado pela oração da ovelha antes de pegar a estrada e dizer: vamos lá anjinhos fiquem em volta daquele carro e deem a ele uma viajem tranquila e segura. Num país que mata cerca de 60 mil pessoas por ano nas estradas como o nosso, não é difícil projetar que, uma boa parcela desse cadáveres tenha orado antes de botar o pé na estrada. Não se trata, porém, de abrir mão da prece, mas de amadurecer essa relação com o Pai. A Igreja, para muitas pessoas, deveria ser como um aquário. Deus deveria ser como um aquarista que transforma o ambiente ao seu redor em uma redoma de vidro. Que lhes dá alimento, saúde, segurança, enfim: uma vida longa e feliz.
Acontece que, infelizmente (ou graças à Deus), não funciona assim. A vida (para o bem e para o mal), é um conjunto de possibilidades. Deus jamais vai limitar as pessoas. Mas isso tem um preço. Estamos sujeitos aos assaltos, às doenças, ao trânsito, poluição, e demais circunstâncias inerentes à nossa condição humana.  Não dá pra tirar a dor, a morte, a desilusão, e afins, do pacote vida. Tá tudo junto e misturado "mano". A expectativa infantilizada que temos (em boa medida incentivada por líderes carismáticos) de Deus, é fonte de angústia e desilusão, quando o nosso "pedido de oração" não é atendido, ou quando a "porta de emprego" (evangeliquês) não é aberta. Mas, ao contrário do que possa parecer, - atenção meus amigos - isso não é ruim. Saber que podemos ir aonde quisermos, comer, beber e amar livremente, é a maior benção dessa nossa maravilhosa vida. Não vamos transformar Deus em "ESTADO TOTALITÁRIO" que determina tudo que podemos ou não fazer. Vambora irmão, pula fora desse aquário, na verdade, ele nem existe.

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- Pedro Serafim
Microempresário e só por isso merecia um Nobel. É da esquerda e torce pelas massas. Quando sobre tempo,  cozinha e cozinha bem.



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