29.8.14

Glória - Francis Poulenc

Iniciei minha caminhada pela música de concerto (música clássica) pelos russos. Quando eu tinha por volta dos 10 a 12 anos, eu ouvia os russos incansavelmente, e as peças que mais me marcavam eram Uma Noite no Monte Calvo, de Mussorgsky e Danças Polovtzianas da Ópera o Príncipe Igor, de Borodin. Essa última na versão com coro, conseguia me deixar praticamente em transe. Mais tarde expandi meus horizontes e descobri a França. Os franceses foram minha segunda paixão musical.

O cristianismo proporcionou um incalculável legado às artes em geral. Na música não foi diferente. Há incontáveis obras escritas a partir da motivação religiosa e, nesse particular, há uma categoria delas dedicadas exclusivamente à missa católica. Há uma quantidade imensa de obras-primas baseadas na sua estrutura principal: Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei. No caso dos franceses, há uma composição específica que é bastante peculiar: Gloria, de Francis Poulenc. Em vez de musicar toda a missa, ele musicou somente essa seção. Ele escreveu a peça para coro e orquestra. Considerando a categoria “coro”, apesar de tantas obras-primas compostas pelos franceses, essa é minha obra coral preferida.

Poulenc também é um músico especial para mim por dois motivos. Primeiro, como sou músico – ainda que não me dedique a isso profissionalmente – encontro algumas semelhanças entre minha formação e a de Poulenc. Poulenc só estudou harmonia; os demais fundamentos eram explorados intuitivamente: contraponto e orquestração. Eu também só estudei harmonia. E mesmo antes de estuda-la, eu já considerava essa semelhança porque a harmonia foi sempre o que me atraiu mais. E essa peça, Gloria, do ponto de vista harmônico me excita demasiado. É muito rica. Além do mais, a escolha de compassos irregulares na peça também me agrada demais porque isso a deixa muito mais interessante para mim. O segundo motivo diz respeito à sua homossexualidade. Por meio da música, desde garoto aprendi a admirar a sensibilidade dos homossexuais. O meu grande herói orquestral sempre foi Tchaikovsky. Suas melodias e orquestrações tocavam minha alma de uma forma que nenhum outro compositor conseguia. Vez por outra eu topava com alguma coisa assim, de algum compositor, e de repente tropeçava com algum texto falando sobre sua homossexualidade. Samuel Barber, norte-americano e Francis Poulenc são exemplos de compositores que ouvi, alguma peça em particular me tocou de forma como outra jamais havia conseguido, e depois descobri que o cara era gay. No caso de Poulenc, a peça em questão é essa.

Antes de colocar algo específico sobre a peça, há uma coincidência também: minha primeira paixão foram os russos, incluídos os russos de um grupo de compositores nacionalistas que foram chamados de “Grupo dos Cinco” (Mussorgsky, César Cui, Rímski-Korsakov, Balakirev e Borodin), dos quais o que eu mais apreciei sempre foi Korsakov (Tchaikovsky e Korsakov foram meus heróis musicais russos da adolescência, seguidos de perto por Stravinsky). Já Poulenc fazia parte do chamado “Les Six”, claramente inspirado no grupo russo, formado por Georges Auric, Louis Durey, Arthur Honegger, Darius Milhaud, Francis Poulenc e Germaine Tailleferre, dos quais eu só conheço de verdade Poulenc; a galeria de gênios franceses que os precedeu é tão importante que deve ter obscurecido esses músicos que nasceram na virada do século XIX para o XX.

Especificamente sobre a peça, não é de fácil assimilação para um ouvinte pouco familiarizado com o estilo. Ele utiliza coro, orquestra e solista. Utiliza uma sofisticada harmonização que remete claramente a Stravinsky, alterna bastante a dinâmica da música, algo que me agrada demasiado, e utiliza melodias que me trazem por vezes a sensação de que, com elas, poderia flutuar em um espaço livre da gravidade.

A peça é dividida em 6 partes:

·         I. Gloria in excelsis deo – uma introdução orquestral inicia a peça e prepara o coro para a crescente entrada do coro numa melodia vigorosa. Gosto de como a frase do coro termina, em um acorde dissonante

·         II. Laudamus te – essa parte é alegre, brincalhona, um pouco longe do espírito sóbrio e pesado de uma missa. Poulenc chegou a dizer que partes da obra foi inspirada em uma partida de futebol jogada por monges beneditinos que ele tinha assistido. Não duvido que tenha sido essa. Aliás, há um trecho em que a peça atinge o clímax e, depois de uma grande tensão, é interrompida e retomada com uma melodia muito melancólica para depois retomar ao tema inicial, alegre. Esse trecho teria sido um pênalti seguido de um gol tomado, revés sofrido pelo time que ele estava torcendo? Sacrilégio! J

·         III. Domine deus – o solo de soprano nesse trecho é pungente; a harmonização e o coro dando o pano de fundo já quase me levaram às lágrimas em algumas das minhas incontáveis (mais de cem, talvez) escutas ao longo dos anos.

·         IV. Domine fili unigenite – a introdução orquestral desse movimento me parece genial; o diálogo que a orquestra estabelece com o coro, nas duas melodias – a do coro e da orquestra – é sensacional.

·         V. Domine deus, agnus dei – para mim o movimento mais enigmático da peça, a solista volta a atuar; é o movimento mais longo e que me soa harmonicamente mais sofisticado; gosto demais da tensão proposta entre o coro e a solista, as constantes modulações e mudanças de intensidade; são muito estimulantes

·         VI. Qui sedes, ad dextram Patris – último movimento, sua entrada soa para mim como um “grand finale”. E não poderia ser diferente: é o final grandioso da peça. Ele intercala uma seção alegre, para depois desembocar em um Amém iniciado pela soprano solo que vai aos dialogando com orquestra e coro num crescendo lento e majestoso até terminar em um amém calmo e dissonante, no melhor estilo de Poulenc

A gravação que eu tenho dessa peça, um CD que comprei há muitos anos, é uma das melhores referências que eu tenho da obra e não poderia ser diferente, já que é interpretada pelo King's College Choir, Cambridge.

Para um ouvinte de primeira viagem, sua apreciação exige algumas escutas repetidas até que seja possível sacar todas as nuances da peça e realmente desfrutar do que ela tem a oferecer. Recomendo.




- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

27.8.14

Sobre Selfie e Fome


A selfilização é só mais um degrau escada abaixo no bom senso que viver em sociedade exige. 
Na última semana descemos mais um degrau com a senhorinha que passando pelo caixão de Eduardo Campos, não pestanejou, sacou seu celular e fez um #selfie.
Lá na Copa (lembra?! Foi esse ano!) Neymar entra de maca no hospital após o jogo conta a Colômbia e uma funcionária, aguarda na posição de #selfie esperando o momento exato em que o craque passaria por trás e #selfie nele!

Onde foi que perdemos a noção do ridículo? 

O problema mora aí. Não perdemos isso em um único momento, onde poderíamos perceber e tratar o problema na hora. Estamos perdendo essa noção de tempo e espaço (... tem hora e local para tudo ...), progressivamente, ou melhor, regressivamente (já que não se trata de progresso). E por isso, por ser em pequenos passos, não damos conta do tanto que já fizemos (e fazemos).

A revolução industrial (conjunto de mudanças que aconteceram na Europa nos séculos XVIII e XIX) mudou o modo que as pessoas se organizavam em sociedade, levando as pessoas do espaço no campo às concentrações nas cidades, trocando os trabalhos artesanais por trabalhos assalariados, moldando toda uma forma de vida. Trocamos o galo pelo despertador.

Em meados dos anos 90, iniciou-se a era a informação. Através da democratização do acesso à internet, uma quantidade muito maior de pessoas passou a acessar uma quantidade ainda muito maior de informação, tendendo ao infinito. Isso também moldou, e ainda molda, a forma em que nos organizamos e vivemos. Isso se propagou ainda mais no final da primeira década dos anos 2000, com a chegada dos smart phones, esses pequenos computadores capazes de tudo.

Mas enquanto a primeira revolução levou dezenas de anos para se notar as primeiras consequências, a segunda é acelerada, dando pouco tempo para refletir e ajeitar qualquer coisa.

Mas por que o acesso a tanta informação é ruim? 
Não é, na verdade, mas se por um lado a fome é um problema sério, a obesidade é um extremo perigoso. 
O excesso de informação e a facilidade em se fazer tudo, tem nos tornado obesos preguiçosos.

Voltando alguns anos atrás, quando tínhamos que decidir se comprávamos filme fotográfico com 24 ou 36 poses (o de 12 não valia a pena) tínhamos de escolher o que fotografar, afinal, tínhamos um limite. Minimamente tínhamos de mirar a cena, paisagem ou pessoa, porque só veríamos a foto depois de revelada. No fim, pagávamos para revelar, colocávamos em álbum e guardávamos em uma caixa. 

Não éramos doidos em fazer #selfies.

Se por um lado tínhamos fome (limites de poses, preço a pagar por foto revelada, espaço para guardar), essa fome tratava de nos fazer selecionar, escolher, optar, pensar.

Hoje temos fartura. Quanto custa tirar uma foto? 
Ficou feia? Tudo bem, deleta. 
Ficou boa (mais ou menos)? Joga no Facebook, Instagram, Twitter e qualquer outra rede social.

Não existe mais a necessidade de selecionar, escolher, optar, PENSAR.

Parece que se não temos limites, não nos preocupamos em pensar. Quando não pensamos, agimos por instinto. 
O instinto diz que nas redes sociais tudo se pode, tudo convém. Todos são felizes, e você tem a obrigação de ser.
Todos viajam, todos comem pratos apetitosos, todos tem curiosidades a mostrar, a toda hora.

Selfie do caixão de um político famoso morto em um acidente trágico?! Por que não?
Selfie do craque dando entrada às pressas no hospital, com a coluna quebrada?! Não pode passar sem um #selfie.

***
Gostaria de contar com a opinião dos também colunistas do OhRaios, Nuno Junior - publicitário que atua com foco em dispositivos móveis, e Paulo Bregantim - psicanalista que trata de pessoas e observa a sociedade.

Breve, postarei as respostas aqui no !OhRaios!
***
__________
- Ev Melo
Idealizador e curador deste espaço. É uma pessoa rara, como outra qualquer.

25.8.14

Julgar e perdoar

Julgar é inerente ao ser humano. Perdoar é um exercício.
DEUS É PERDÃO.
O Perdão é sério para os que brincam de viver, mas uma brincadeira para os que levam a vida sério...
Enfim o Perdão é foda!

Perdão é algo individual. É igual o ódio, um sentimento individual. O primeiro cobre o segundo.
Perdoar NÃO é modificar o outro, é sim, modificar EU MESMO. isso também é foda.
O Perdão NÃO está dentro das Instituições religiosas, ele ( o perdão) está na prática do Evangelho. Isso também é foda.

Perdoar é fazer "papel" de idiota na vista dos outros sim. Mas, é também, ser grande na vista de Deus. Complexo assim.
Perdoar implica em mudar o jeito de ver quem traiu ou errou.
Perdoar NÃO é esquecer. Perdoar é passar por cima do problema e continuar a caminhar com quem errou/traiu. Fazer isso é foda, nem todos conseguem...

Prefiro andar com os que me perdoam. Sofro em ter que andar com os que não me perdoam.
Se perdôo NÃO julgo e se julgo NÃO perdôo. É.
Todos os FDPs Julgam. Simples assim.
Julgamento é quando o PERDÃO não tem mais sentido.

TODO julgamento me torna Juiz.
Quando julgo - já perdi - a possibilidade de criar um "clima" de perdão e convivência comigo mesmo e com o outro.
Quando julgo estou na verdade "defendendo' meu ponto de vista, porém, ponto de vista é somente uma forma de ver a situação, existem tantas outras.

Quando julgo olho muito mais para meu umbigo do que a situação em questão.
Não posso julgar os outros somente pelo que "entendo" sobre o assunto, é muito importante rever e observar outros pontos e possibilidades. Quando diminuo os julgamentos vejo mais as pessoas e menos as coisas.

Quando julgo, jogo no lixo os outros e fico somente com o que acredito. Lembro que o que eu acredito muda conforme a conveniência.
__________
- Paulo Bregantim
Psicanalista Clínico. Escreve sobre a alma e coisas simples. Simples assim.
Atende na clínica Reciclar Unidade II.

22.8.14

COMPADRE GAVIÃO E COMPADRE URUBU (da série “Contos da dona Ilza”)

Diz que o Compadre Gavião estava com muita fome e resolveu sair em busca de algo para comer. Voou, voou, até que encontrou o Compadre Urubu. O Compadre Urubu vê o Compadre Gavião naquela aflição toda e lhe pergunta:
- Onde você vai, Compadre Gavião, tão afobado?
- Eu vou ali achar alguma coisa pra comer! Vamos comigo, compadre?
- Nãão, compadre, respondeu gravemente o Urubu, eu só como quando está morto, assim, sem pressa. Não gosto de sair atrás das coisas, não.
- Mas vamos comigo, me acompanhe!, insiste o Gavião.
- Não, eu só como quando está assim, deitado, no chão, quando já está morto. Eu não gosto de sair procurando a comida assim, desesperado!
- Mas vamos comigo, compadre, você vai comer já já!
- Tá bom!
Foi tanta a insistência do Gavião que o Urubu cedeu.
O Gavião, voando bem à frente, se perde em suas preocupações: “É já que eu vou encontrar alguma coisa pra comer com o Compadre Urubu.”
Logo mais à frente havia uma árvore ressequida, toda escangalhada, cheia de pontas, o Gavião, voando naquela euforia, não se deu conta e, numa fração de segundos... ploft!, estatelou-se contra uma ponta de pau e ficou travado. Desesperado, começou a bater as asas freneticamente.
Nisso vinha chegando o Compadre Urubu lá de trás, na maior tranquilidade...
Quando o Gavião olha de lado e vê que o Urubu vem chegando, suplica:
- Compadre Urubu, pelo amor de Deus, me tire daqui! Tire eu daqui, compadre, que eu não vi esse toco! Eu me enganchei aqui!
O Urubu calmamente lhe responde:
- Não, compadre, você se esqueceu? Eu só como os mortos...
- Nããão, compadre!!! Pelo amor de Deus!!!!! Não vai fazer isso comigo, não!
- Mas compadre, eu só como quando está morto mesmo...

__________
- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

21.8.14

O tempo

Os dois já estavam juntos faz algum tempo. Não questiono o tempo que realmente estavam juntos porque tempo de qualidade não é algo que se questiona, mas a tempos que quem estava ao redor queria questionar isto, mas o fazer seria perda de tempo.

O tempo é precioso, é o que dizem. Tempo não é dinheiro, porque não se trabalha para ter mais tempo, não se doa tempo para a caridade, não se distribui o tempo. Tempo não se pede, tempo não se dá. O tempo se aproveita.

Num jantar romântico, numa noite de tempo ameno as coisas não pareciam ir bem. "Já faz um tempo" ela disse "que as coisas esta estranhas entre nós, parece que está acontecendo mais coisas do que o tempo pode conter". Consternado ele responde "Isso não faz o menor sentido. O que nos falta é tempo para viver as coisas, não ao coisas para viver no tempo". 

Mas a fala dela era só uma desculpa para o que viria depois, ela não disse o que disse porque queria uma resposta, ela queria mudar o tempo e o espaço naquela mesa, a frase foi só para matar o tempo.

"Eu quero um tempo", e algumas palavras levam um tempo para a digestão, mas em um jantar o correto é ingerir e mastigar, tudo ao seu tempo. "Eu te dou um tempo. Além de todo o seu tempo de vida também te entrego o tempo da minha pra você encher de espaço e coisas. Eu te dou o que tenho de mais precioso. O meu tempo todo, todo o tempo".

Isso mudou o clima da mesa, o tempo ameno se tornou agradável e ele ganhou mais um tempo usando o que tinha, palavras. Ambos saíram do restaurante para aguardar um taxi na rua quando, num curto espaço de tempo, foram atingidos por algumas balas perdidas vindas de um tiroteio repentino.

Ele foi atingido no ombro, e levou um tempo para entender o que aconteceu, e que para ele isto foi só um contra tempo. Olhou para ela e chorou. Chorou pela promessa que fez. Chorou por que queria cumpri-la mais do que nunca, mas o tempo já tinha ido. E o tempo não volta. E ela continuaria com esta bala na cabeça por todo o tempo.

__________
 Nuno Junior
Tentou de tudo. Tentou escrever, tentou fotografar, tentou tocar, tentou desenhar e tentou pintar mas  nunca conseguiu. Até hoje ele não sabe se os seus padrões são muito altos ou seu talento é muito baixo,  mas o Nuno não desistiu.

20.8.14

Entendendo o Eu que existe dentro do meu Eu

"Penso nisso a todo instante, pois quando avalio o que está escrito na Bíblia nos primeiros versículos do primeiro capitulo de  Gênesis quando é relatado por Moisés como a vida iniciou-se acredito, não pensando como uma mente cristã ou um fanático qualquer, mas sim, como um ser em desenvolvimento, eu observo ali a manifestação da forma cósmica de cada ser humano. Veja o que está escrito: “No principio criou Deus o Céus e a Terra, e a Terra era sem forma e vazia e, o Espírito de Deus vagava por sobre a Terra... e Disse Deus: haja luz e houve luz...Haja separação entre terra seca e água... e assim foi...”


Bem nessas poucas palavras podemos avaliar uma conversa cósmica sobre as coisas, pois vemos nessa passagem o Caos “...a terra era sem forma e vazia...” tudo estava em pura energia, porém completamente desorganizada o Caos imperava sobre a terra e tudo que existia sobre ela, porém o “EU SOU” o Grande Deus, O Arquiteto, ou seja lá no Deus que você acredita manifestou seu poder e com um “gesto” mudou o Caos para o Cosmo-Sim! 

Do nada foi organizado o Caos, de uma palavra todo a terra foi transformada e dentro dessa organização Divina(Energia), La pelas tantas é criado o homem e como a bíblia relata, o homem vem do pó da terra – Mais uma vez não quero aqui exaltar o criacionismo ou qualquer outra forma de religião, estou apenas contatando que independente da “história”da criação ou não o homem está envolvido com a terra e a terra envolvida com o “CÉUS” ou o cosmo e assim fazemos parte de um território onde o todo está dentro de tudo e o tudo está interligado com o todo, sendo que o tudo é o próprio cosmo e o todo é o puramente o ser humano, na sua forma mais simples de existência.


Dentro desse tudo acredito que na integralidade do todo somos dependentes uns dos outros e essa dependência é a manifestação da necessidade de convivência com o eco-sistema e, o propósito real de estarmos nesse tempo de vida é para nos adaptarmos uns com os outros numa dimensão de realização da integração dos mundos existentes em tempo real. Bem quero com isso dizer que acredito que os mundos (internos e externos) vivem em tempo real. 

Sim! Passado, presente e futuro são estados de latência para quem está em cada um. O passado é para o presente o mesmo que o futuro é para o presente – tudo está em sintonia e por não estarmos conectados e as vezes, muito preocupados com outras coisas não percebemos as conexões entre esses mundos cósmicos(passado, presente e futuro).

Não deveríamos perder tempo, com discussões sobre de onde viemos e para onde vamos. O ideal seria nos preocuparmos com o que estamos fazendo com o agora que na realidade é o passado, presente e futuro. Sim! A descoberta de que estamos vivendo tudo ao mesmo tempo, nos revelará uma sensação de satisfação e tranqüilidade, pois hoje o que nos assusta é a ansiedade de não sabermos o       que acontecerá amanhã, ou a depressão de perceber que perdemos o tempo e não sabemos se voltará.

A descoberta do “aqui agora”, ou a cosmolidade de cada um de nós – eu fui, sou e serei – nos dará uma nova perspectiva da vida, no sentido de vivência a cada momento, pois o tempo se move como cada um de nós, pois a cada minuto somos impulsionados para o cosmo da integralidade. Nessa manifestação vemos que Jesus quando instituiu seu reino a mais de 2000 anos, ou seja, o Reino do Amor, o Reino da Mutualidade, o Reino da Justiça(equilíbrio) – Todos pensaram que isso seria uma utopia, porém não é a constituição de um novo governo e sim de um no Reino – e Reinado é instituído de dentro para fora. Sim! Nasce na mente(consciência-espírito) vai para a alma(emoções-sensações) e desemboca no coração(corpo-fisiológico) e eu acredito que estamos vivendo esse momento em nossa história humana.
  
Sei que não estou dizendo algo novo, somente estou constatando que na atual conjuntura de mundo que vivemos, a real saída para a sustentação de nossa mente, alma e corpo é de suma importância a retomada da visão cósmica. 

Sim! Na observância dos pontos de convergências entre cada um de nós e o desejo de relacionarmos com o tudo e todo e dessa forma, sairmos da catastrófica vivência com  o Caos.

Sei, claro, que o Caos tem seu valor na história, pois é sempre dele que renascemos para o aprendizado, o Caos está para o Cosmo como Deus está para o homem e vice-versa. A vida está para a morte, como a morte para a vida...Mas a busca é na real das hipóteses a integração entre todos os sistemas do mundo. Não conseguiremos mais viver isolados sem a compreensão das diferenças entre nós mesmos e com os outros seres que habitaram, que habitam e habitarão nosso sistema planetário.

Por isso, minha busca é a descoberta do “Eu” ou o “Self” sabendo que essa busca me levará sempre para a integralidade e nunca ao isolamento, por isso, cada um de nós temos como ponto fundamental, o se descobrir e ao mesmo tempo descobrirmos o outro e também o tudo que está a nossa volta. Reaprendendo a dar valor as mínimas coisas e sem medo das descobertas de nosso passado-seja ele particular ou coletivo- no presente-seja ele aqui agora ou á colá ou no futuro – seja ele nessa dimensão ou qualquer outra que possamos viver.

Como desenvolver essa capacidade Cósmica de relacionamento?

Creio que para respondermos essa questão é muito importante salientarmos que dentro da visão que tenho de mundo e vida, tudo tem solução e uma saída apropriada.

Tudo que passamos ou sentimos ou vivemos, tem na essência o desejo de aprendizado e desenvolvimento, a isso, chamamos: Amor Incondicional – que é a instituição do novo reino, conforme falamos acima.

A busca então é para aprendermos e desenvolvermos esse Amor Incondicional. Sim! Um amor que tudo suporta, um amor que tudo aceita, um amor sem preconceito, um amor sem o modelo de amor que conhecemos, um amor que não busca nada em troca, um amor sem barganhas, um amor sem crise de ser amado, um amor que busca o bem do outro, um amor que nos leva a refletir antes de qualquer ação, um amor que renova as energias para vivermos, um amor que nos remete a profunda busca do próprio Eu, um amor que nos liga com o Próprio Deus, um amor singular, que não parece com nada, um amor que surge sem sabermos da onde, um amor que se satisfaz em si mesmo, um amor que faz-nos viajar para dentro(passado) e para fora(futuro) e nos permite alegria no agora(presente), um amor onde nossas faculdades mentais são aclariadas com simples ações e gestos, um amor difuso, onde todos e tudo pode participar, um amor tradicional e moderno, um amor INCONDICIONAL.

Creio que com simples ações poderemos viver o que citamos acima:

1-     Aprenda a perdoar as pessoas a sua volta.

2-   Exercite a paciência com você mesmo e as outras pessoas.

3-   Acredite nas mudanças, sejam elas quais forem.

4-   Busca a sensibilidade entre você, natureza e as outras pessoas.

5-   Crie um ambiente saudável onde você estiver.

6-   Seja você mesmo, desde que não atrapalhe os outros.

Simples assim.
 __________
- Paulo Bregantim
Psicanalista Clínico. Escreve sobre a alma e coisas simples. Simples assim.
Atende na clínica Reciclar Unidade II.

18.8.14

Do lado de dentro

Olho pela janela e vejo o mar.
Outrora vi ruas, pessoas, mas agora minha visão alcança a imensidão e o mistério das águas.

Do lado de dentro da janela já fui muitos. Muitos e diferentes.
Já fui engenheiro, de máquinas e pensamentos.
Já fui conselheiro, pastor e cozinheiro.
Já fui marinheiro, do tipo Popeye, mas missionário.
Um marujo com missão, a missão do amor.
Já me sujei, já fiquei limpo.
Sujei a mão e a alma.
Limpei-me todas as vezes, algumas com água, outras com sangue.
Já fui ajudante, já fui mandante.
Já discordei e calei. Já falei quando não devia.
Já fui muitos. Muitos que eu gostei e alguns que odiei.
Já fui eu e já fui outro.

Daqui do lado de dentro da janela por vezes se esquece de como é viver do lado de fora, onde a vida real acontece.
O lado de dentro da janela já foi abrigo e já foi prisão.
Já foi esconderijo e labirinto.
Já foi ilusão. Digo foi, porque não me iludo mais.
Já me perdi do lado de dentro, que é tão dentro que me deixou aqui, dentro em mim.
Já tentei mudar o lado de dentro, mas é tudo tão interior, tão longe e tão perto.
Já fui a mudança e já fui mudado pelo lado de dentro, da janela e de mim mesmo.

O lado de dentro da janela é misterioso, como o mar, como a vida lá fora, como a batida aqui dentro, no fundo do peito.
Do lado de dentro da janela, Deus caminha.
Do lado de dentro do peito, Deus habita.
Do lado de dentro há paz, graça, misericórdia.
O lado de dentro da janela é casa, pra mim.
O lado de dentro do peito também é casa, pra Deus.

O lado de dentro – da janela e do peito - me intriga, me estimula, me tira o chão, pede o meu melhor, me bagunça, me resolve, me faz menos eu e mais de Deus.
O lado de dentro me expõe, me revela, me lava, cria a canção e a poesia e os põe para o lado de fora.
O lado de dentro traz sentido, cala o choro, arranca o sorriso, a dança, a arte, a crônica, a poesia da vida.

Do lado de dentro da janela já fui faxineiro, do chão e da alma.
Do lado de dentro da janela, me descobri.

Do lado de dentro do peito, fui transformado, encontrado por aquele que encontra a todos. Esteja você do lado de dentro ou de fora. Da janela ou do peito.
__________
- Rafael Bertolino
Missionário da 'Operação Mobilização' servindo no navio Logos Hope ao redor do mundo. Fala de futebol e teologia ao redor da mesa, as vezes ao mesmo tempo. É músico por insistência e escreve por necessidade própria. Corinthiano e sofredor pela graça. Seguidor do Jesus de Nazaré acima de tudo, acredita que o reino de Deus é um reino de amigos.

15.8.14

O programa

Ele não assistia muita televisão. Não tinha muita paciência para assistir programas, jornais ou mesmo filmes. Gastava seu tempo em frente à TV zapeando pelos canais, sem se fixar em nada. Por isso, conhecia quase todos os programas mas não conhecia nenhum muito bem. Os programas de auditório lhe pareciam ridículos e, se existe algo que ele não faria na vida, seria participar de um programa desses. Aquelas pessoas imbecilizadas rindo dos comentários sem graça dos apresentadores.

Um dia um amigo vizinho de bairro lhe perguntou se ele toparia lhe acompanhar a um programa de auditório. Inicialmente ele relutou mas depois a ideia lhe pareceu fantástica. Aparecer na TV, participar da experiência de algo que seria visto talvez por milhões de pessoas, aquela vibração toda... Ele topou sem reservas. Seu amigo cuidou dos aspectos burocráticos e, naquela manhã ensolarada, lá estavam os dois juntos com a pequena multidão recebendo as instruções e o lanchinho antes de começarem as gravações.

O programa começou, ele se sentou mais ou menos no meio da plateia que lhe lembrava, assim meio distante, a disposição de um cinema, se é que ele já havia estado em um cinema antes. O programa lhe pareceu interessante e a apresentadora chata era apoiada por diferentes colaboradores em quadros distintos. Um dos colaboradores apresentava um quadro com curiosidades do mundo do entretenimento e, naquele dia, trouxera uma reportagem de pessoas comuns – e desconhecidas – sósias de famosos. A reportagem promovia o encontro entre ambos e o ponto alto da reportagem era uma cidadã daquele país sósia de uma das maiores estrelas de Hollywood, a Anne Hairgrow. A repórter havia conseguido uma entrevista com a atriz e, ao colocar as duas mulheres frente a frente, era impressionante a semelhança entre elas; a desconhecida mal conseguia conter sua emoção e não disse nada, mesmo porque não entendia bulhufas do que as outras duas conversavam.  De forma inusitada, a repórter incentivara um abraço entre ambas; a atriz abraçou a desconhecida de forma cálida e afetuosa e recebeu em contrapartida um abraço frouxo e um tanto esquivo da anônima.

No final da reportagem, um desafio foi proposto aos presentes e aos colaboradores da apresentadora chata: descobrir o motivo pelo qual a desconhecida não entendera nada da conversa. Várias possibilidades foram levantadas, mas a mais plausível era porque ela não conseguiria rebater uma bola no chão com as mãos a uma certa velocidade determinada pelo ritmo de uma música romântica que iria ser tocada. Trouxeram uma bola de plástico pequena, colocaram a música para tocar, e o primeiro a tentar cumprir o desafio foi o repórter que apresentara o quadro. Sem chance: ele era incapaz de se adequar ao ritmo da música. Conseguiram outra bola, uma enorme, e nada! Os participantes foram convidados a encarar o desafio e fizeram uma fila para ver se conseguiriam. Ninguém conseguia. Foi quando ele, inquieto na sua poltrona, se levantou, invadiu o palco e disse o óbvio: “gente, basta colocar uma mesa dessa altura, subir em cima e rebater a bola a partir daí que se consegue fazê-lo no ritmo da música!” Utilizando o seu alto poder de improvisação, os assistentes de palco conseguiram uma mesinha, convidaram um dos participantes do programa que, coincidência, vinha a ser um vizinho seu da rua de trás, que subiu na mesinha, não sem antes responder ao seu cumprimento de “aê, truta!”, seguido de 23 toques diferentes de mão.

O desafio do quadro havia sido cumprido graças à sua intervenção mas, antes de refazerem o cenário, a apresentadora lhe chamou discretamente e lhe disse que ele não deveria ter se manifestado sem ser chamado e que seu cumprimento ao outro participante solicitado fora totalmente desnecessário e tumultuara o programa. Bastante desconfortável, ele retornou à sua poltrona e continuou a acompanhar o programa. Mas o fato é que o episódio com a apresentadora lhe deixara profundamente chateado e tudo aquilo perdera seu encanto. Acometido por uma sonolência incontrolável por causa da chatice que se tornara o programa, ele resolveu puxar um travesseiro e se acomodou ali mesmo na poltrona. Já estava quase engatando um sonho quando foi desperto, de maneira brusca, pela apresentadora que, com todas as câmeras voltadas para ele, o repreendia duramente por dormir durante o programa, algo extremamente deselegante.

Aquilo foi demais para ele. Do mais íntimo de suas entranhas foi surgindo uma gastura, um calor revolvendo seus órgãos internos, uma raiva incontida que foi crescendo rapidamente, subjugando-o até que explodiu pelo peito e a dor resultante saltou para fora em frases desconexas e impropérios. E ele esbravejou, xingou, descarregou todas as injustiças sofridas por seus ancestrais, sua raça, seus amigos, seus inimigos, todas vítimas daquele sistema falido, corrupto, perverso, insano, vil, que triturava as pessoas, que fazia o que queria delas, que zombava dos indefesos, que espoliava as velhinhas, que surrava os mais fracos! Gritou até ficar quase rouco. Não escapou ninguém, nem mesmo o dono da padaria que no dia anterior havia lhe devolvido 15 centavos de troco a 1 real que ele havia dado para pagar os 2 pãezinhos que custaram 81 centavos e que se fosse justo e desprendido o dono da padaria arredondaria para 80 centavos que estava mais próximo não para 85 num claro desrespeito à sua inteligência e dignidade não era pelos 4 centavos era porque aquele dono da padaria era mais um agente daquele sistema corrupto e diabólico que faz questão de oprimir os mais fracos os mais gentis os mais distraídos aquele filho da puta avarento!

E como sua raiva não terminava nunca e ninguém ousava pará-lo, estupefatos que estavam de sua inesperada reação, resolveu ligar o piloto automático, sair de si mesmo e se sentar numa poltrona próxima para se deliciar também com o espetáculo. Foi quando ele se deu conta do patético da situação. Correu rapidinho para dentro de si e encerrou o espetáculo tão logo pode controlar a torrente que emanava de sua garganta. Parou ofegante, suado e meio zonzo. Envergonhado, começou a se afastar, trôpego, rumo à porta de saída.

Uma jovem senhoura foi a única a reagir e ensaiou uma reprimenda com o dedo em riste quando ele passava por ela: “Seu maluco de...” Mas ele ainda tinha bala na agulha e a interrompeu bruscamente: “Epa, epa, epa! Pega esse dedo nojento e enfia bem no meio do seu nariz, sua puxa-saco!” E arrematou: “Pensou que eu iria dizer outro lugar, né? Não dá porque ele está cheio de merda!” A assistência explodiu numa gargalhada.

Em passos rápidos ele alcançou a porta lateral e se meteu em um corredor escuro, rumo à saída, ainda a tempo de ouvir a apresentadora chata chorando inconsolavelmente em uma sala no piso superior, ao fundo do estúdio de gravação, provavelmente a sala do diretor do programa, se é que existe isso.

Lá fora, uma garoa fria e irritante caía. Ele se encolheu, escondeu as mãos nos bolsos da calça e sumiu no escuro da noite meneando a cabeça: “bando de malucos!”
__________
- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

13.8.14

O dia em que o circo fugiu

Se nos dias de hoje, histórias são criadas, viajam na velocidade da internet e se transformam em verdades, credos, manias ou dogmas, quanto mais nos tempos antigos, onde as histórias iam a cavalo ou via correio (não necessariamente mais rápido). Nos tempos de cartas escritas à mão, de um telefone por vizinhança (quando havia), de pouca TV e pouca informação, as histórias chegavam e ficavam. Feito tatuagem, marcavam a pela, a memória e ali faziam morada.

Foi assim a minha infância. Eu, nascido no início dos anos 80, ainda ditadura militar, vindo de uma família humilde do interior que migrou para a cidade para uma condição melhor de vida. Mais do que isso, uma família evangélica. Mais do que isso, evangélicos da Assembléia de Deus, igreja bastante tradicional, onde muita coisa (quase tudo) era pecado.

Não quero discorrer aqui sobre a igreja e seus pecados, talvez o faça em outras crônicas, mas o que me leva a digitar aqui essas letras desalinhadas, é um pecado que me marcou até a fase adulta, o circo.

Era pecado ir ao circo. Simples e definitivo assim. Pecado.

Poucas vezes ousei questionar os porquês dessas normas, preferia ficar à espreita enquanto as outras crianças o faziam. Assim buscava informações sem correr o risco de levar uma bronca. 
'Circo é coisa do diabo', 'No circo tudo é mentira, e mentira...', 'Quem trabalha no circo não acredita em Deus', 'Lá tem mágica e magia é coisa do capeta' e por aí ia.

Com isso, passei toda minha infância com o sonho de conhecer o circo, mas com o medo de nunca poder fazê-lo, com o risco de queimar no inferno.

Naquela época, haviam muitos circos. No caminho para a casa de meus avós, em Mauá, passávamos por diversos desses pequenos e pobres circos. Minha imaginação fervia para além daquela lona suja ao passo que ouvia histórias terríveis sobre o circo.

A história que mais me perturbava, era a de sempre alguém conhecer alguém que fora levada pelo circo ou que fugiu com o circo. Talvez no interior de São Paulo isso fosse recorrente. Ou talvez, aconteceu uma vez, mas todos replicavam a mesma história sem parar e acrescentando detalhes perturbadores.

O circo era pecado e a mim cabia acompanhar com os olhos tristonhos enquanto o carro passava em frente, sem parar.

Anos (uma porção deles) se passaram e cá estou, um adulto, dono do próprio nariz. Ou quase isso.
Muita coisa mudou. Minha relação com a igreja, seus dogmas e costumes. A quantidade de circo pela cidade. Meu ceticismo quanto a histórias contadas ao vento. (...)

Mas a vida dá um jeito de nos presentear e preencher espaços em branco. Uma fábrica antiga é demolida, deixando espaço a um grande terreno. Logo imaginamos que dali sugeria um novo prédio, mas enquanto o prédio não chega, o local deu lugar a um circo. Desse de sobrenome russo, mas que logo se percebe, não é lá essas coisas. 
Circo daquele clássico como eu via pela janela do carro quando pequeno. Simples, onde o palhaço é também pipoqueiro, o malabarista é bilheteiro, a mulher do trapézio ajuda na arrumação, e assim se montava aquele circo.

Não tive dúvidas, convidei a esposa, os amigos com filhos e lá armamos nossa ida ao circo. Eu, com trinta e poucos anos, visitando o circo pela primeira vez na vida. Ah que dia.

Ri das trapalhadas manjadas do palhaço. Me empolguei com os saltos dos trapezistas. Segurei a respiração com o globo da morte (parte pela emoção, parte pelo forte cheiro de gasolina queimada). 

Voltei a ser criança, sem sentir o tempo passar.
Naquele dia cometi o pecado mortal de curtir o circo. Me encantei com a cuspidora de fogo e com os malabaristas. Vibrei com o atirador de facas. Me encantei com a menininha pulando cordas. Eita pecadinho bom esse de apreciar o circo.

No final do espetáculo, esperto, não deixei o circo me levar, tampouco fugi com ele. Naquele dia, raptei o circo, foi o circo que fugiu comigo.

__________
Evandro Melo
Uma pessoa rara, como outra qualquer.

11.8.14

Reflexão para si mesmo

A sincronicidade é o puro envolvimento do campo energético que é atemporal e funciona dentro de cada ser humano. Simplesmente eu chamo de alma.

Aquietar, na realidade, é conseguir olhar para dentro, sem tornar-se narcisista e nem castrador de si mesmo e do outro.

Difícil é calar, falar é fácil.

Silenciar é na verdade perceber o que Deus fala.

Diminuir o ritmo é cuidar de si mesmo, dos outros e das coisas dentro da nossa capacidade física e emocional.

Silencie nas falas e, ouça a alma.

Silenciar é na realidade um exercício em ouvir e não somente escutar o que nós mesmos e os outros falamos.

Quem discute DEUS, não tem tempo para ADORÁ-LO.

Os que ficam, não falsificam. Os que não ficam, falsificam.

Falsificar a "Palavra" não significa falar ou escrever algo errado, significa agir mal consigo mesmo e com o semelhante.

Na verdade e no final das contas, somos nós contra nós mesmos, então, buscar o autoconhecimento é o caminho mais sólido para viver bem consigo mesmo e com os outros.


A vida são sensações, percepções e realizações. Que nessa semana as sensações, percepções e realizações sejam de paz e amor.

Simples assim.

__________
- Paulo Bregantim
Psicanalista Clínico. Escreve sobre a alma e coisas simples. Simples assim.
Atende na clínica Reciclar Unidade II.

8.8.14

Carla

Ele era baixinho e feio. Talvez mais baixinho que feio. Ou o contrário. Na realidade, talvez nem fosse tão feio assim. Era mais esquisito do que feio. Esquifeio? Pode ser. De prático é que, tirando o fato de ser bom aluno, fora da sala de aula era um zero absoluto. Bem, nem tanto, porque era um garoto amável. Mas não tinha qualquer habilidade para prática esportiva, por exemplo. Quer dizer, corria bastante. Talvez por ser pequeno, magro e lépido, correr mais que os outros era o seu trunfo esportivo. Veja bem, de repente era uma grande vantagem aos 8 anos, idade em que esportes coletivos ainda não haviam brotado totalmente dentro da garotada. Ele viria a ser humilhado anos mais tarde, por sua total incompetência com o esporte bretão (bretão? Isso é necessário mesmo?) e, convenhamos, uma certa inapetência que não ajudava nem um pouco. Mas ele gostava muito de correr.

Também havia outra atividade que lhe seduzia demais: apaixonar-se. Ah, como ele gostava de se apaixonar! Ele se apaixonava pelas deslumbrantes, pelas bonitinhas e pelas feias. Cada uma por um motivo diferente. As lindas porque eram lindas, deslumbrantes. Bastavam surgir na sua frente e o estrago estava feito. Ele era incapaz de esquecê-las. Ficava atônito. Sua timidez natural o paralisava. E a paralisia é a condição ideal para o deslumbramento: você fica lá, temporariamente (ou eternamente) paralisado, vítima do encantamento, feliz, como se nada mais importasse. Mas essas eram as que mais lhe metiam medo. Porque ele sabia que com elas não tinha a menor chance. Então, ele as contemplava certo de que elas haviam percebido o seu fascínio. E tentava acreditar que elas seriam capazes de enxergar além daquela fachada pouco interessante, esquisita até, descobririam aquele garoto inteligente e sensível – ele se supunha – e acabariam se interessando por ele. Mas é claro que não, ele sabia. É que ele gostava de fantasiar um pouco. Quem não gosta? Havia as bonitinhas, ou seja, as mais ou menos, as que eram quase feias ou quase bonitas. Ele também se apaixonava por elas. Não pela beleza plástica, soberana. Mas pelo sorriso. Bastava um meio sorriso, um quase olhar meigo, e ele se via descontruído. E como havia meninas de sorriso simpático! Ele não resistia. Era muita poesia para declamar. Por fim, as feias. Ele também se apaixonava por elas. De uma forma um tanto enviesada, é verdade, mas se apaixonava. Ele via as feias com solidariedade. Ele se enxergava nelas. Ele as compreendia. Ele compartilhava da dor da feiura delas. Então, quando seu olhar se cruzava com uma feia, se ela tivesse a menor graça interna, aquele olhar suplicante que somente os feios conseguem transmitir, afinal, eles possuem muita prática nisso, ele se apaixonava também. É claro que ele tinha vergonha de admitir se apaixonar por uma feia, mas a honestidade do texto não me permite esconder esse fato: ele se apaixonava por elas também. Na realidade, acredito que ele se apaixonava por qualquer uma. Mas, como gostava de racionalizar tudo, arranjava uma explicação. Acho que teria sido mais fácil se tivesse escrito apenas que ele se apaixonava pelas meninas e pronto. Teria sido mais econômico.

A única forma de se fazer ser visto pelas garotas por quem ele se apaixonava era mostrar que corria mais que os outros garotos. Ser melhor aluno não tinha lá seu charme, não. Então, o jeito era apelar para suas pernas magricelas. Aliás, ele também gostava de se exibir com outras habilidades como plantar bananeira ou dar voadora. Quando os garotos iam se exibir entre si com essas habilidades supremas, lá estava ele, desesperado para suplantar seus colegas, mas tentando disfarçar isso, para passar a ideia de que fizera “tudo aquilo” sem se esforçar, sem se importar muito. Enfim, um esnobe precoce. Teve uma vez que os garotos estavam dando voadoras no muro da quadra de futebol, no recreio, em uma parte em que o muro era mais alto. Todos eles estavam tentando mostrar o quão mais alto eram capazes de acertar o pé. Não é que, depois de alguns intentos, ele conseguiu suplantar todos? Mas teve tanto sucesso que seu pé passou do topo do muro, atingiu o vazio, e ele enroscou sua perna. O resultado, claro, foi sua coxa e perna raladas. Além do constrangedor tombo. Ainda bem que ninguém riu. Mas isso lhe pareceu pior, porque lhe deu a quase certeza de que ninguém estava tão preocupado assim em mostrar o quão mais alto podia pular: o único preocupado parecia ser ele. Talvez, se tivessem rido dele, teria sido melhor. Melhor ser motivo de gozação que ser simplesmente ignorado. Então lhe sobrou a coxa e a perna ralada, junto com a sensação de que ele era realmente desimportante, inclusive para as meninas, o que doía mais.

Mas, a despeito de sua desimportância, quase invisibilidade, ele brilhava nas brincadeiras de “salva-cadeia”. Quando escolhiam as duas equipes, ele era disputado a tapas. Era seu momento de glória. Quando sua equipe fazia o papel de bandido, quase nunca ele era capturado e sempre salvava seus colegas na prisão. Quando era polícia, é verdade, tinha lá sua dificuldade para capturar os colegas porque geralmente eram maiores que ele. Mas no papel de bandido... ah, ele desequilibrava o jogo! Às vezes até dava confusão porque a outra equipe não conseguia virar a brincadeira quando estava no papel de polícia, justamente porque ele sempre conseguia libertar seus coleguinhas e a equipe no papel de polícia nunca conseguia chegar ao papel de ladrão antes do final do recreio.

Nesses momentos ele conseguia uma certa visibilidade com as garotas. Talvez esse fosse o momento em que ele era mais percebido. Uma ironia, inclusive, porque era quando ele fugia que mais aparecia. E, talvez por isso, Carla, uma garota que não era do grupo das deslumbrantes nem das feias, acabou se aproximando dele nas brincadeiras. Ela tinha cabelos cacheados. Talvez isso fosse o que mais lhe atraísse. Ela era meio espalhafatosa também. Ria alto. Mas tudo isso o deixava deslumbrado. Provavelmente o efeito seria o mesmo se suas características fossem o oposto. Enfim, aos poucos eles foram se tornando amiguinhos mais próximos e, quando deu por si, estava apaixonado por ela.

É óbvio, faz-se necessário tal esclarecimento, paixões aos 8 anos não são daquelas paixões trágicas de quando se é mais velho. Nada disso! Você diz, relutantemente, que gosta da menina, e olhe lá. Mas como ele não parava de pensar nela, podemos considerar que, tecnicamente, ele estava apaixonado. Na realidade, talvez estivesse mais apaixonado pela hipótese de a garota estar gostando dele do que da garota em si. Mas o fato é que ele estava desfrutando aquela experiência. Talvez a primeira de verdade na sua vida.

E foi num desses recreios, talvez numa brincadeira de esconde-esconde, que eles foram para um local mais afastado do pátio da escola, onde havia um bebedouro fora de funcionamento, num local meio sombreado, cujo concreto cinzento e rústico o tornava pouco atraente para perambulações. Quando se deram por si, estavam abraçados. Aconteceu de repente. Quando perceberam, nenhum dos dois teve coragem de falar sobre o assunto. Simplesmente ficaram mudos, sem saber o que fazer. Depois de alguns instantes, resolveram conversar sobre qualquer coisa, sem pressa, para eternizar aquele momento sublime. Falaram quaisquer bobagens. Tão quaisquer que nem se deram conta do que estavam falando. Na realidade, não estavam falando nada. Estavam apenas se abraçando. A fala era para apenas para disfarçar o constrangimento ou para evitar que eles tivessem que discutir sobre o que estava ocorrendo e, de repente, se darem conta de que era preciso parar com aquilo. Conversaram. Não por muito tempo, porque o sinal para retorno à sala de aula os obrigou a se desabraçarem. Foi o que fizeram e voltaram mudos, cada um experimento as sensações daquele momento. E, admitamos, bastante envergonhados um com o outro.

Na sala de aula, a professora em um dado momento repara que Carla está com umas manchas estranhas. Interrompe a aula e a analisa melhor. Rubéola! Alarmada, põe todos os alunos da classe em revista para ver se havia mais alguém e descobre que o garoto também estava com sinais de rubéola. Ninguém soube porque os dois – e somente eles – estavam com os sintomas, mas as mães foram chamadas, a coincidência de somente os dois estarem com os sintomas foi comentada sem maiores explicações, interrogatórios ou tentativas de entendimento, e ambos foram dispensados para passarem uma temporada em casa, de quarentena.

E nunca mais se abraçaram.

__________
- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

7.8.14

José e o Ogro



Ele era um ogro, vivia no alto de uma catedral e tinha morcegos e besouros como companhia, que caminhavam ao redor dele lhe dando devida atenção, atenção que um mictório público merece de qualquer um.

Em toda manhã ele acordava, via o Sol, admirava a profundidade da sua beleza e o poder da sua luz, admirava o Sol. E a cada momento que fazia isto se tornava não mais ogro, mas José.
José era um homem normal, comum como seu nome e igual como um mictório de shopping. Caminhava pelas ruas e era desapercebido por todos. Por surgir apenas ao sentir o nascer do Sol, José era uma criatura muito sensível a tudo o que era bom e belo. Mas o fato de ser José fazia com que ninguém o sentisse, ninguém admirasse seus sentimentos.

Pela manhã, José descia da torre da catedral admirando os morcegos que o desprezavam e mofavam na paisagem. Caminhava pela praça buscando a quem o quisesse conhecer e, com ele, admirar um nascer do Sol. Olhava cada pedestre, cachorro, mendigo que podia avistar e os admirava, querendo apenas simples e humilde reciprocidade. Sempre que passava o dia todo sem encontrar ninguém para suprir sua carência voltava à catedral e lá, com morcegos e besouros, se tornava ogro. Mas não passou todos os seus dias sem encontrar ninguém, poucos dias José encontrava admiradores mas nenhum deles o admirou o suficiente para suprir seu desejo. Um idoso, um cachorro, uma criança, esses são alguns dos que admiraram pouco José, mas a noite ele ainda era ogro.

Até que um dia algo diferente aconteceu. Acordou José, sentindo-se ogro. Caminhou José, sentindo-se ogro. Atraiu olhares, José, sentindo-se ogro, assim o dia todo, até foi admirado, José, sentindo-se ogro. Até que a noite chegou e antes de chegar ao topo da torre, não era mais José, mas ogro. Durmiu e, ogro, ignorou besouros e morcegos. No outro dia acordou, ogro, e se lançou da torre da catedral, morreu José.

__________
 Nuno Junior
Tentou de tudo. Tentou escrever, tentou fotografar, tentou tocar, tentou desenhar e tentou pintar mas  nunca conseguiu. Até hoje ele não sabe se os seus padrões são muito altos ou seu talento é muito baixo,  mas o Nuno não desistiu.

Jornal, balas e memórias

Há  dois dias comecei a receber em casa o jornal Estadão. Assim do nada. Não fiz assinatura, tampouco fui comunicado que é uma ação de marketing. 
Não sei portanto se trata-se de uma degustação ou se o entregador está me deixando feliz ao mesmo tempo que deixa algum vizinho fulo da vida.

Fato é que eu que nunca fui leitor de jornal, estou pegando gosto pela coisa. Começo o dia diferente. Levo para o trabalho me sentindo como um grande executivo, todo importante, pronto para apertar um botão no telefone e solicitar um café para a secretária enquanto tomo importantes decisões que definirão os rumos da minha empresa.
Na prática, do jeito que o jornal chega, levo embora, mal leio as manchetes principais.

Em casa sim posso desfrutar de tanto conhecimento carregado no malcheiroso papel. Cheiro aliás que foi muitas vezes usado por mim como desculpa para me livrar dos chatos vendedores de assinaturas por telefone.
- Eu tenho rinite moça, o jornal me ataca a alergia.
Não era de todo uma mentira, talvez um exagero. Mas a tática era necessária.

Esse simples acontecimento, receber jornal em casa, me despertou lembranças da minha infância, onde me lembro por exemplo de ter tido aula de leitura de jornal na escola.
Era a 4a série do primeiro grau, o professor passara o dever de casa para que todos levassem um jornal para a próxima aula. Passei na minha avó Lola e peguei o Diário do Grande ABC do dia anterior para levar para a escola. 
Na aula aprendemos como os jornais dividem os assuntos em cadernos, o que são manchetes, como localizar matérias e como manejar o jornal. Essa última era para mim a mais interessante das lições.
O tamanho da folha, A0, faz do ato de ler jornal um exercício de destreza.
A lição era, abrir o jornal, escolher a notícia a ser lida, dobrar a folha ao meio, da direita para a esquerda e depois novamente ao meio, de cima pra baixo, deixando a matéria escolhida à mostra. Uma chacoalhada no papel era sempre útil para ajeitá-lo.

Coisa que minha avó, dona Lola, mãe da minha mãe e de mais 9, fazia sem ter tido aula nenhuma.
Me lembro de sempre passar na casa da Vó Lola, que era diferente de qualquer outro lugar (antigamente casas de avó eram especialmente diferentes) e encontrá-la sentada no chão com o jornal devidamente aberto à sua frente.
A casa da Vó era sempre assim, um pouco mais fria que a minha, um pouco menos iluminada e um cheirinho único de casa de vó. Na sala os móveis antigos desafiavam os novos designs e se mantinham clássicos. Destaque para a arca. Uma grande estante de madeira escura em estilo colonial onde em uma das portas ficavam as balas de hortelã.

Até o jeito dela sentar-se no chão era especial. Acostumada a sempre usar saias, sentava-se sobre os joelhos, deixando o corpo cair levemente de lado e repousar. Óculos de armação grossa na cor marrom, o cabelo penteado formando um coque e o dedo a ser lambido para trocar as páginas. Essa era a figura da Vó Lola.

Ela dobrava minuciosamente a grande folha até que ficasse pequena e manuseável.
Depois de ler toda a página, reforçava o vinco da dobra de maneira que as pontas ficavam todas alinhadas e então colocava na pilha das páginas já lidas.
Não me lembro quais eram seus assuntos preferidos, mas me recordo bem que a leitura era diária e respeitava aquele ritual.

Depois de ganhar balas de hortelã, eu voltava feliz para casa, levando comigo balas, carinho e memórias.

P.S.: Esta crônica foi publicada na edição de Domingo, dia 28/10/2012, no Jornal diário do Grande ABC.

__________
- Ev Melo
Idealizador e curador deste espaço. É uma pessoa rara, como outra qualquer.

6.8.14

Aquário

Parei à frente de um aquário numa sala de espera essa semana, fiquei a contemplar a beleza daquele ambiente. Colorido, limpo, seguro... Os peixinhos ali dentro não correm riscos. Não há, naquele espaço, predadores naturais ou riscos climáticos que ponham em perigo a vida dos habitantes. Nem comer demais eles podem, já que até isso é controlado. Tudo é controlado: temperatura, ph da água, transparência... seria este o mundo perfeito?
Seria, não fosse tão chato e limitado. Já pensou? Passar a vida numa sala, por mais bonita que seja? Terrível.
Pois é, mas parece que essa é a ideia que fazemos da vida quando nos relacionamos com o divino. A ideia de um deus-aquarista seduz a muitos de nós. E não precisamos ir longe para fazer essa constatação, basta assistirmos alguns minutos de qualquer programa gospel-show televisivo e nos deparamos com líderes oferecendo para seus liderados o ambiente Igreja-aquário, em que todas as suas necessidades físicas e espirituais serão atendidas plenamente. Mas não só isso, é comum em ambientes menos extremados, fora do neo-pentecostalismo, encontrarmos pessoas que ficam suplicando à Deus resposta para tudo. O cara vai viajar: pede proteção; vai comprar um carro pede discernimento. Até pra arrumar uma namorada precisa da intervenção divina. Me incomoda a ideia de um deus distraído que precisa ser cutucado pela oração da ovelha antes de pegar a estrada e dizer: vamos lá anjinhos fiquem em volta daquele carro e deem a ele uma viajem tranquila e segura. Num país que mata cerca de 60 mil pessoas por ano nas estradas como o nosso, não é difícil projetar que, uma boa parcela desse cadáveres tenha orado antes de botar o pé na estrada. Não se trata, porém, de abrir mão da prece, mas de amadurecer essa relação com o Pai. A Igreja, para muitas pessoas, deveria ser como um aquário. Deus deveria ser como um aquarista que transforma o ambiente ao seu redor em uma redoma de vidro. Que lhes dá alimento, saúde, segurança, enfim: uma vida longa e feliz.
Acontece que, infelizmente (ou graças à Deus), não funciona assim. A vida (para o bem e para o mal), é um conjunto de possibilidades. Deus jamais vai limitar as pessoas. Mas isso tem um preço. Estamos sujeitos aos assaltos, às doenças, ao trânsito, poluição, e demais circunstâncias inerentes à nossa condição humana.  Não dá pra tirar a dor, a morte, a desilusão, e afins, do pacote vida. Tá tudo junto e misturado "mano". A expectativa infantilizada que temos (em boa medida incentivada por líderes carismáticos) de Deus, é fonte de angústia e desilusão, quando o nosso "pedido de oração" não é atendido, ou quando a "porta de emprego" (evangeliquês) não é aberta. Mas, ao contrário do que possa parecer, - atenção meus amigos - isso não é ruim. Saber que podemos ir aonde quisermos, comer, beber e amar livremente, é a maior benção dessa nossa maravilhosa vida. Não vamos transformar Deus em "ESTADO TOTALITÁRIO" que determina tudo que podemos ou não fazer. Vambora irmão, pula fora desse aquário, na verdade, ele nem existe.

__________
- Pedro Serafim
Microempresário e só por isso merecia um Nobel. É da esquerda e torce pelas massas. Quando sobre tempo,  cozinha e cozinha bem.



4.8.14

Réptil

Acordei lentamente e com dificuldade arrastei-me para fora da cama. Estava frio. Vi um pequeno raio de sol que penetrava pela fresta da janela e se estendia no chão. O dia deve estar bonito, pensei. Fui até aquele pequeno fio de calor e lá fiquei. Estar ali trazia-me uma leve felicidade despreocupada. Será que era  alguma data especial? Talvez fosse, e eu só não ficara sabendo. Afinal, sempre se comemora algo em algum lugar. Então, comemorava eu também ali, seja lá o que fosse. Mas não eram todos os dias assim? Sim. Não havia motivo para esse questionamento. O raio de sol não se questionava. Simplesmente era. Era calor, amarelo, vivo. Eu, em tons pastéis, certamente haveria de me questionar. O raio de sol despertava um quê filosófico que não sabia explicar. Mas eu me questionava. Inclusive, sobre essa ideia de eu. Afinal, como constituir-se um eu e saber-se eu? O raio de sol não era um eu. Mas não tinha que se preocupar. Era raio de sol e isso bastava. Eu já fui um eu. Tenho certeza disso. Lembro claramente de pelo menos quatro momentos na vida em que fui um eu. Ou acha que somos eu o tempo todo? Acho que há quem nunca chegue a ser eu. 
E  algumas pessoas nunca nem se questionam se o são ou não. As vezes, ser um eu é tão sutil que passa como um sopro e nem se percebe. Mas sou desses que se pergunta. Principalmente por conta dos raios de sol. E sei que agora não sou um eu. Saber que não se é algo já parece bastante. O pequeno rastro de luz começava a partir. Eu também precisava partir. Partir-me. Comecei pelos dedos. A carne forçava seu caminho e rompia o tecido que já não mais a comportava. Carne viva. Bicho. Precisava de mais espaço. O vazio tornara-se tão grande que a carne inchava. Rompendo as extremidades e chegando até o centro, trocava de pele. 
Réptil. Não era um eu antes. Não seria um eu agora. Algumas vezes somos eu, outras, apenas precisamos ser. Nunca sabemos o que podemos nos tornar. A carne exposta demonstrava o frescor desse ser recente. Desse novo vazio. Era preciso que endurecesse, cicatrizasse, calejasse, para que então, rompesse outra vez, dando lugar a outro novo. Ser réptil é assim. Os antigos eus por vezes tentam voltar, mas não há mais lugar. Sempre sobra. Sempre falta. Mas estão sempre Os que são e os que não foram. Pele seca. Basta olhar pra trás. E deixar pra trás.

__________
Renato Malkov
Canta, dança, sapateia e inventa histórias. Inclusive essa.

1.8.14

Oh Raios de diversidade

Atualmente moro em um navio com cerca de 400 pessoas de 60 culturas diferentes, e nesse tempo tenho aprendido muita coisa com essa diversidade cultural. Coisas boas e coisas ruins.
Aprendi que não importa o quanto se tente, acabará sempre ofendendo a alguém com alguma coisa que para você é normal.

Aprendi que se um europeu não te cumprimenta no corredor, não quer dizer que ele não gosta de você, só significa que se ele não vai (ou não quer) falar com você naquela hora, então ele não precisa te dizer um oi.
Aprendi que holandeses falam tudo (ou quase tudo) o que vem à cabeça deles e não pensam em uma forma carinhosa de dizer isso. Eles simplesmente dizem. E isso não quer dizer que eles não gostam de você.

Aprendi que a cultura brasileira tem muito mais a ver com a cultura africana do que com a cultura latina (México, Colômbia, etc), e que os latinos ficam muito bravos quando eu digo que não tenho a mesma cultura que eles.
Aprendi que pouquíssimas pessoas no mundo sabem que no Brasil se fala português e não espanhol.

Aprendi com os britânicos que chá com leite é muito bom e que 90% (ou mais) das piadas deles só tem graça para eles, e eles não entendem o porquê de você não estar rindo.
Aprendi que os alemães são tão educados a ponto de te pedirem desculpas (sinceras) quando eles ganham do seu país por 7 x 1 em uma semifinal de copa do mundo.

Aprendi que indianos balançam a cabeça para tudo, e é impossível saber se eles querem dizer sim ou não.
Aprendi que suíços produzem o melhor chocolate do mundo e eles sabem disso.
Aprendi que não se generaliza nenhuma cultura ou pessoa. Não é porque é brasileiro que sabe sambar, não é porque é alemão que é bom em cálculos, não é porque é latino que é barulhento. Mas uma coisa é certa, se é coreano, gosta de Noodles (um miojo asiático) e dorme no máximo 4 horas por dia.

Aprendi que conhecer diferentes culturas abre a cabeça de qualquer um e te faz questionar o porquê você se comporta do jeito que se comporta.
Aprendi que viajar é aprender, é agregar, é crescer, é conhecer, é celebrar as diferenças que Deus colocou em cada um de nós.

Aprendi que Deus ama a diversidade, Ele é criativo e tem um bom senso de humor.

Na caminhada.
__________
Rafael Bertolino
Missionário da 'Operação Mobilização' servindo no navio Logos Hope ao redor do mundo. Fala de futebol e teologia ao redor da mesa, as vezes ao mesmo tempo. É músico por insistência e escreve por necessidade própria. Corinthiano e sofredor pela graça. Seguidor do Jesus de Nazaré acima de tudo, acredita que o reino de Deus é um reino de amigos.