31.7.14

O mundo na palma da mão


Escuro, ao redor estava escuro e frio. Poucas luzes, excesso de vento, frio. Não havia nada na cena além de uma pessoa, alta, esguia e silenciosa. Carregava sobre sua mão o seu próprio mundo, e seus olhos focavam no mundo todo, todo o que ocorria naquele presente estava diante dos seus olhos, sobre sua mão.

Como um deus, alimentava sua onisciência enquanto observa tudo o que se passa em seu mundo. Podia enxergar além do alcance, via além do que havia para ser visto. Seus olhos podiam ver as mentiras do mundo, como ele gostaria de ser visto e o que o mundo gostaria de falar. Seus olhos ouviam a voz do mundo, não a tristeza ou o júbilo, nem o lamento sincero dos fracos ou a prece dos loucos. Seus olhos ouviam a voz fútil das massas, seus lamentos e protestos, richas e amores. Seus olhos ouviam tudo.

Carregava seu mundo na palma da mão e poderia esmaga-lo se quisesse, mas a verdade é que não tem poder para tal. Porque aquele objeto brilhante em sua mão o hipnotizava de um jeito que não da para definir se ele é senhor do mundo ou escravo dele.

Assistia tão atentamente a tudo o que ocorria no mundo na palma da sua mãe que quando ouviu um barulho externo ele se assustou. Levantou os olhos atentos a escuridão e observou. Viu as sombras se moverem, o frio aumentar e se encontrar com um frio que crescia pela coluna. Das sombras saiu um vulto, cabeça baixa, andar apressado. Com pouca prática ele guarda o mundo em seu bolso, sem querer chamar atenção mas prevendo o que iria acontecer. Tentou examinar se tinha alguma fuga ou opções mas antes de concluir o pensamento ouviu o vulto dizer as palavras "Passa a merda do celular”.

Viu o brilho metálico da arma, a voz fria do vulto e sentiu a impotência patente de si mesmo, estendeu a mão e entregou o objeto sem ter consciência do que estava perdendo naquele momento. Entregou o seu mundo.

A sombra se esvaiu pela fria noite, e ele olhou em volta e viu o mundo real, que na verdade era o frio e o escuro. Viu as sombras se moverem, árvores, gato, a garoa que começava a cair, a folha dançando ao vento, os carros distantes, o bandido que dobrava a esquina. Viu que tudo era lindo e real, viu que estava livre de ver o mundo através de uma tela e quis compartilhar com alguém esta experiência. Num impulso levou a mão ao bolso mas não havia mais nada lá.

__________
 Nuno Junior
Tentou de tudo. Tentou escrever, tentou fotografar, tentou tocar, tentou desenhar e tentou pintar mas  nunca conseguiu. Até hoje ele não sabe se os seus padrões são muito altos ou seu talento é muito baixo,  mas o Nuno não desistiu.

3 comentários: