28.7.14

O fim da era Cousteau

Sete da noite. Me lembro bem deste horário. Era a hora em que eu me meu irmão caminhávamos da sala de estar para o quarto de nosso pais, o único cômodo além da sala que tinha TV.

Eram os anos 80, que de tão peculiar e delicioso, durou mais do que dez anos. Até hoje quando me refiro a minha infância e pré adolescência eu não faço contas, eram os anos 80. Possivelmente diversos episódios aconteceram no início da década de 90, mas quem se importa?

Naquele tempo a TV passava boa parte do dia desligada. E nos horários em que estava transmitindo, era comum a família se reunião à sua frente. Quando muito, eram 2 aparelhos por casa.

Eram poucos os canais e muito comum a família passar um bom tempo assistindo sem zapear os outros programas. Ainda bem, pois não tínhamos controle remoto e sempre que precisava fazer qualquer alteração sobrava pro caçula, eu.
Ganhei até apelido, controlinho.

Quando o relógio se aproximava das sete horas da noite iniciávamos nossa rotineira peregrinação. Eu e meu irmão deixávamos a sala, subíamos a escada rumo ao quarto dos nossos pais e ligávamos na TV Cultura. Era a hora do Cousteau.
Jacques Cousteau era nosso terceiro avô. Com aquela toca de lã vermelha, óculos de armação fina, aparência frágil e olhar sereno, que só os que já viveram muitas histórias tem.
Se tudo o que eu sei de música clássica eu aprendi assistindo desenho animado, o pouco que sei da vida marinha, foi com Cousteau, à bordo de seu navio Calypso, que aprendi.

Com ele fomos ao fundos dos mares, conhecemos a Antártida, aprendi sobre marés, correntes marinhas, vida marinha, quem se alimenta do que, uma infinidade de descobrimentos.

Nosso avô Cousteau foi navegar seu Calypso nos mares do céu em 1997, e parece que junto a ele, o desejo de se fazer documentários sobre a vida animal e afins e aléns também.
Junto dele perdemos os ótimos documentários da NatGeo que ainda se chamava National Geographic, e também do Discovery Channel. Onde foram parar?

Vez por outra, entediado em frente a TV, tenho o lampejo de idéia de colocar em um desses canais, mas o que antigamente era certo de que em qualquer momento que pausasse o controle remoto em um desses canais veria um belo programa, hoje não mais. Hoje os documentários como os de Cousteau deram espaço aos Reality Shows. 

Vivemos a era dos Reality Shows. Tem de tudo. O sujeito que sobrevive em situações bisonhas que ele mesmo cria. O casal que sobrevive nus a situações ainda mais bisonhas que eles mesmos criam. A família buscapé, a turma que corta árvores, a outra turma que garimpa, o outro que come coisas estranhas e por aí vai.

Mas e os documentários que não só encantavam pela fotografia, mas também ensinava como vivem os animais na savana, como uma baleia jubarte sobrevive se alimentando de kril? E que dizer da chegada das chuvas no deserto do Calaari? E a peregrinação dos guinus em busca de água enquanto as leoas caçam? Os elefantes caminhando de volta para casa para morrer? Ah, eram tantos e tão bons programas. Orcas caçando focas. Ursos polar caçando focas. Focas fugindo de orcas e ursos.

Parece que na era dos Reality Show, não há mais espaço para a realidade da vida selvagem.

P.S.: Uma justa ressalva, a TV Cultura continua transmitindo documentários da natureza nas tardes de domingo.

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Ev Melo
Idealizador e curador deste espaço. É uma pessoa rara, como outra qualquer.



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