24.12.14

Rompimento

Bem, o ano está findando, e aí a gente começa a pensar na vida, certo?  Certo. Ficamos emotivos, lembramos do que deu certo, e sobretudo, do que deu errado.

E se você é meu amigo (ou repara em meu facebook, rs) sabe que tive um rompimento recente. Mas não foi essa a motivação para falar sobre esse assunto (e também não será a tônica deste texto). Tampouco o fato de ter tido um ano difícil, cheio de curvas, derrapadas, altos e baixos. Aliás, que ano! Pode ir, querido, não sentirei saudades - é minha mensagem a 2014.

No texto anterior, contei um pouco de minha história e de meus "porquês". E quando escrevo, é disso que costumo falar. Digo do que sei por ter vivido, e não por ser especialista nisto ou naquilo. Aliás, não ser especialista em coisa alguma é assunto para outro texto.

Voltando aqui ao ponto, casei-me aos 20, separei-me aos 24, divorciei-me aos 27 (mera formalidade). Esse simples histórico faz de mim alvo fácil de um grupo de pessoas: amigos, colegas ou conhecidos com problemas conjugais,  na maioria das vezes, cristãos. Por alguma razão, me tornei algum tipo de 'case  de sucesso' para pessoas que se vêem em situação de conflitos e começam a pensar nesta palavrinha que, de tão carregada, escreverei em letras grandes: ROMPIMENTO.

E nestes anos todos, tento compreender as entrelinhas dessa associação e só uma coisa me vem à mente: as pessoas que começam a pensar em rompimento precisam de apoio. Eu precisei. E a razão é muito simples: desejar romper com algo ou alguém traz consigo uma grande carga de culpa, sobretudo em cristãos, que durante toda a vida são ensinados que Deus não tolera rompimentos "a não ser que" (vocês já conhecem essa listinha de exceções...). Sendo assim, para aplacar a culpa, a pessoa procura apoio em outrem. E é aí que entro: a moça cristã, exemplo em sua comunidade, cuja história sempre parecera conto de fadas, ou conto de Deus - 7 anos de namoro cristão, casamento lindo, vestido branco, música ao vivo, festa - do nada, vira escândalo. 'Larga' o marido e muda-se para um bairro afastado. Algum tempo depois, é vista 'em bom estado',  vivendo bem e, ao contrário do que se esperava, nenhuma maldição lhe sobreveio. Sucesso!

Acredito ser essa a explicação para essa atração que exerço sobre pessoas nesta situação específica, uma vez que  acreditam que encontrarão em mim o apoio de que precisam para superar a culpa, e colocar em prática seus planos de rompimento.

No entanto, amigos, lamento dizer que eu sempre decepciono, na medida em que não incentivo alguém a levar adiante tais planos. E o que isso diz sobre mim? Que sou confusa? Contraditória, talvez? Ou seria hipócrita?

Rompimento: Ato ou efeito de romper, de quebrar, despedaçar; (...) quebrar com violência; dilacerar ; separar em pedaços; esquartejar; rasgar; entrar violentamente por; interromper o curso regular de; quebrar; violentar; destruir (...) ("rompimento", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/rompimento [consultado em 22-12-2014].)

A separação não foi uma escolha fácil. Foram longos 4 anos até entender(mos) que era nossa única opção. E o que veio depois? O que te parece vir depois de um rompimento? Eu digo o que vem: dor, sofrimento, solidão, culpa, sentimento de fracasso imensurável e mais uma série de outros sentimentos de longa e indefinida duração, independente das condições em que se dá o rompimento.

Ninguém sai ileso de um rompimento, por maior que fosse o desejo de separação. A forma abrupta com que se dá, machuca, fere profundamente, atinge o que se tem de mais precioso, aquilo que Salomão em toda sua sabedoria aconselha que seja protegido, guardado, sobre todas as outras coisas. Falo do coração, falo da alma. Trata-se de uma marca, meu amigo, que vai levar consigo por toda a vida, e se nela acreditar, pela eternidade.

Por essa razão, ninguém jamais encontrará em mim apoio para levar adiante planos de rompimento, a menos que tudo o que se possa fazer já tenha sido feito.  É sob essa perspectiva que vivo, mesmo depois de ter um "divorciado" em meu estado civil, e de ter encontrado pelo caminho pessoas que vivem sob perspectiva totalmente contrária (sim, falo de pessoas para quem relacionamentos e pessoas são descartáveis), que é e sempre será minha escolha.

Se pudesse voltar no tempo e refazer algumas escolhas, viveria de forma que apenas um tipo de rompimento me fosse inevitável: aquele que ocorre quando o Criador chama para si alguém que já cumpriu o que lhe estava proposto a essa vida. Aquele rompimento imposto pela morte. Tendo (sobre)vivido a esse tipo também, caro leitor (posso escrever isso em todos os textos, Ev Mello? Hahaha), lhe asseguro que não há distinção nessas dores, ao menos por definição. Todo rompimento provoca dores inigualáveis e cicatrizes que nem sempre serão saradas.

"Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida" - Provérbios. 4:23
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- Priscila Ferminio
Um ser inquieto e talvez um tanto inconformado (demais). Uma alma oito ou oitenta - sempre em luta com a segurança do oito diante da graça do oitenta... Implanta sistemas de gestão fiscal pra ganhar a vida. Canta e brinca de confeitaria pra vivê-la.                     

22.12.14

O tablet

Acontece todos os dias. Religiosamente. Ao meio-dia o alarme da fábrica toca. É um teste apenas, todo colaborador é avisado no processo de integração. Acaba funcionando como um aviso de que já está na hora do almoço. Os empregados do escritório começam a interromper suas atividades e, dentro de alguns minutos, dirigem-se em grupos ao refeitório. A fila para o almoço é invariavelmente longa por conta do afluxo simultâneo de pessoas ao refeitório, engrossado por empregados de alguns turnos da produção que almoçam no mesmo horário.
Por isso mesmo o Consultor prefere esperar as 13 h. Quando o pessoal está quase voltando do almoço, religiosamente bloqueia seu computador, pega o cartão magnético, o tablet, dirige-se à cantina da empresa onde compra o almoço que, embora não seja um valor simbólico, é razoavelmente barato, ainda que o Consultor não entenda bem o protocolo burocrático, uma vez que ele compra o almoço na cantina da empresa que lhe reembolsa o valor depois, dirige-se ao restaurante, entrega o vale-refeição, passa pelo bloqueio, escolhe um bandejão, em vez da tradicional bandeja e prato preferidos pelo pessoal do escritório, porque para ele o bandejão é mais prático uma vez que permite separar bem as porções escolhidas, escolhe um pouco de cada porção à disposição, ignora a mistura principal e se dirige à seção de grelhados onde, invariavelmente, pede um filé de peixe, para consumir menos calorias. Pega os talheres, o guardanapo, meio copo de suco e escolhe um local nas inúmeras mesas em que ele possa ficar sozinho. Acomoda-se, abre a capa do tablet e a posiciona, de pé, a um ângulo de 107 graus. Liga o tablet, executa o mesmo aplicativo de sempre e, enquanto almoça, não retira os olhos do tablet, com regulares toques na tela.
Naquele dia fatídico, como sói ocorrer nos momentos que precedem os grandes cataclismos, tudo ocorreu na mais religiosa e monótona normalidade: o alarme da fábrica soou, alguns minutos depois os escritórios foram se esvaziando aos poucos, às 13 h o Consultor desceu, passou pela cantina, repetiu o ritual de todos os dias úteis, escolheu o filé de peixe e se instalou em uma mesa sozinho, olhos fitos no tablet.
Duas mesas à frente, havia um grupo de empregados que trabalhavam no mesmo escritório onde estava instalado o Consultor e, entre os assuntos que conversaram, alguém observou os hábitos solitários do Consultor que, sistematicamente, se sentava sozinho e ficava fazendo algo naquele tablet enquanto almoçava. Ele é meio esquisito! Nada, ele é gente boa! Parece ser meio tímido, mas sempre se enturma bem quando falamos com ele. O que ele tanto faz naquele tablet? Estranho, né? Ele traz todo almoço. Ele é meio nerd. Por que ele não almoça com a gente? Ninguém o convida. Eu já o convidei, mas ele disse que prefere ir mais tarde. O Gerente Um, que tem mais intimidade com o Consultor, arrisca uma pergunta de longe:
- E aí, Consultor, está programando?
- Não... responde o Consultor, com um sorriso.
Momentos mais tarde, quando todos se dirigem ao local para descarte dos restos do almoço, passam pelo Consultor que cumprimenta a todos com um aceno de cabeça cordial. Movido pela incontrolável curiosidade de desvendar o mistério do consultor e seu tablet, o Gerente Dois sai da fila que se dirige ao descarte, se aproxima do Consultor e, enquanto tenta ver o que aparece na tela do seu tablet, pergunta-lhe:
- Está fazendo o quê?
- Estou lendo um livro.
- Ah... – responde o Gerente Dois, levemente decepcionado.
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

19.12.14

Reflexão sobre ESPERANÇA

ESPERANÇA É O PRÓPRIO DEUS.
Esperança é JESUS que afirmou ser o Caminho, verdade e a vida.
Esperança é esperar com paciência. Se quiser leia o Salmo 40:1
Esperança NÃO é crença, é DEUS.
Esperança é motivação de Deus para nossa vida.
Esperança é a aplicabilidade de Deus sobre a vida do ser humano...
Esperança é a voz de Deus dizendo: Continue, continue, persevere e persevere.
Esperança é a voz do Espírito Santo em nossa alma.
Esperança são sinais do Céu que alcançam as nossas almas.
Esperança são os ANJOS que acampam ao nosso redor. Simples assim.
Esperança é DEUS esperando do seu lado a solução. Fica tudo bem mais leve.
Estar vivo é um sinal de esperança.
Esperança NÃO é esperar. Esperança é DEUS agindo.
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- Paulo Bregantim
Psicanalista Clínico. Escreve sobre a alma e coisas simples. Simples assim.
Atende na clínica Reciclar Unidade II.

17.12.14

Hino à Bandeira – De Ivan Lins a Benjamin Britten

Na década de 90, quando ouvi pela primeira vez o arranjo do Ivan Lins para o Hino à Bandeira, fiquei bastante impressionado porque sua leitura era bem diferente das minhas reminiscências da infância. Na minha infância, quando passava horas solfejando as partituras encontradas nos cadernos e livros de música do meu pai, uma das melodias que eu mais gostava era do Hino à Bandeira. A melodia me parecia maravilhosa e a música me parecia um pouco mais especial que as outras por ter quatro bemóis na armadura de clave (lá bemol maior) e por ter aquela rápida modulação no final da estrofe, antes do refrão, que fazia minha imaginação musical voar. Entretanto, cresci com a concepção militar da música, o ritmo de marcha que a partitura do meu pai me sugeria. Portanto, foi surpreendente e arrebatadora a experiência de ouvir a melodia despojada do seu caráter militar e com o lirismo da interpretação do Ivan Lins. Imediatamente eu imaginei como seria um arranjo escrito por mim para algum dos coros que eu trabalhava na época. E aquilo ficou: um dia ainda vou escrever um arranjo coral dessa música.

Quando formei o Kol Brasilis com meus amigos, uma das primeiras músicas que me ocorreu para arranjar foi justamente o hino. No entanto, eu não queria fazer um arranjo qualquer: eu queria escrever um arranjo à altura do meu apreço pelo hino. Eu queria fazer um arranjo com aquele lirismo que eu sentia na interpretação do Ivan Lins. Mas daí surgiram as dificuldades: como manter um arranjo interessante por 4 estrofes? Como escrever algo lírico, que não se repita, que não se torne desinteressante aos poucos? Eu comecei a pensar em formas de resolver a questão e nunca encontrei. Agravavam isso dois fatores: o final de cada estrofe deveria ter uma ponte para o arranjo não ficar muito burocrático e o Himn to St. Cecilia, de Benjamin Britten, um fantasma que me perseguia sempre que eu pensava em um arranjo para o Hino à Bandeira. A composição de Britten é uma obra de arte e uma das peças que mais me impressiona do repertório coral. Essa peça está na minha preferência entre as peças corais inglesas assim como o Gloria de Francis Poulenc entre as francesas. O Hino a Santa Cecília tem todo esse caráter lírico, etéreo, que quase me hipnotiza e tem algo muito interessante, o seu refrão curtíssimo em relação às 3 estrofes, que soa para mim quase como uma ponte que interliga as estrofes (“Blessed Cecilia, appear in visions. To all musicians, appear and inspire: Translated Daughter, come down and startle. Composing mortals with immortal fire.”). Também há outro aspecto muito interessante na composição de Britten e que me servia de paradigma: cada estrofe é totalmente diferente da outra; se eu conseguisse fazer algo parecido no meu arranjo, seria perfeito. Por esse motivo, o Hino a Santa Cecília era meu referencial maior de ideias para meu arranjo. Obviamente, uma grande bobagem porque, além de uma régua altíssima, existe o fato de que o hino de Britten é uma composição e ele tinha liberdade para trabalhar a melodia como quisesse, sem falar que o texto permitia essa liberdade. Mas o fato é que, se eu fosse fazer algo lírico, um tributo à composição de Britten seria um bom ponto de partida, ainda que qualquer tipo de comparação fosse no mínimo uma insanidade.

Como eu geralmente elaboro mentalmente o arranjo antes de escrevê-lo, passei alguns anos pensando de vez em quando no desafio e não me ocorreu nenhuma ideia interessante para fazer algo lírico, que não perdesse o interesse nas 4 estrofes e que fosse diferente entre as estrofes (para não ficar algo muito burocrático). A questão da ponte estava praticamente resolvida porque, no arranjo do Ivan Lins, ele faz uma ponte instrumental ligando cada estrofe o que permite que o resultado não fique burocrático. Eu poderia me aproveitar dessa ideia. 

Depois de alguns anos sem me ocorrer qualquer ideia minimamente razoável nas poucas vezes que me dediquei a pensar na questão, resolvi desistir do que seria o mais difícil resolver: um arranjo lírico, etéreo, sem uma marcação de compasso muito evidente: qualquer outra solução que excluísse isso me serviria. Foi então que me ocorreu: simples, é só fazer sincopado, evocando o samba. A ideia me pareceu perfeita porque, afinal, o samba tem mais a ver com nossa terra que aquelas melodias etéreas de compositores europeus que me impressionam tanto. Como a harmonia é um dos elementos da música que mais me atrai, pensei que trabalhar de forma diferente a harmonia nas 4 estrofes era uma maneira eficiente de não deixar o arranjo burocrático e incrementar a sofisticação da harmonia aos poucos faria com que ele não se tornasse desinteressante e cansativo ao longo das estrofes. Daí, numa das minhas caminhadas de 1 hora pelo bairro, defini sua estrutura, que seria:

Estrofe 1 – uníssono
Estrofe 2 – harmonização mais básica, favorecendo mais os aspectos rítmicos
Estrofe 3 – fazer várias modulações ao longo das frases
Estrofe 4 – arregaçar na harmonização para fechar o arranjo

A ponte, aproveitando a ideia do Ivan Lins, em vez de concluir o “da amada terra, do Brasil” com um V-I seguido de um V7 para a estrofe seguinte, eu faria um V-IV-I/3-II-V7 e repetiria “meu Brasil” nesse trecho, até para deixar o hino mais sentimental.

Alguns meses depois parei para escrever o arranjo e, de cara, alguns problemas apareceram: se eu fizesse a primeira estrofe em uníssono, teria que ser em um tom que desse para todos cantarem na mesma oitava (escrever em duas oitavas me parecia uma solução ruim, pouco eficiente para o lirismo que eu ainda queria manter). Daí a coisa complicou de vez porque eu teria que ficar modulando de estrofe para estrofe, até terminar o arranjo em um tom que permitisse fazer um fechamento grandioso, se fosse o caso. Fazendo as contas, se eu começasse em dó maior e subisse um tom por estrofe, estaria resolvido o problema. Mas aí ficaria algo muito chato e previsível: cada estrofe finalizar com uma modulação que, a propósito, teria que ocorrer na ponte. Horrível! E mais: como ficaria a linha melódica, uma vez começaria muito grave? Em que vozes eu distribuiria a melodia? Ficaria trocando de naipe? Comentando um dia com a Ira, contralto, que já havia me dito querer fazer o contralto desse arranjo, ela me perguntou: “por que você não põe um solo de contralto?” Daí ela poderia fazer o solo, obviamente. Era isso! Solução encontrada! A música seria solada pelo contralto a partir da 2ª estrofe com inserções ocasionais das 4 vozes fazendo o “tutti”.  Mas ainda tinha a questão das modulações. Foi aí que me ocorreu outra ideia para acabar com a mesmice da modulação previsível em cada estrofe: eu começaria em dó maior, da primeira para a segunda estrofe eu modularia para dó menor; o ouvinte praticamente não sentiria a modulação, mas eu teria que deslocar a melodia uma terça menor acima para dar certo com o relativo menor, o que me permitiria elevar de cara a melodia. No meio da estrofe eu modularia para mi bemol e essa modulação nem seria sentida. De quebra ainda terminaria o arranjo em sol maior, onde poderia conseguir um resultado mais brilhante das vozes. Perfeito. Nas duas modulações seguintes, tentei chegar à tonalidade subsequente sem o previsível V-I para o tom seguinte.

E foi assim que surgiu o arranjo, com a diferença que abdiquei de forçar demais a harmonização na 4ª estrofe pois ficaria muito pesado. Em vez de manter o ritmo de samba com uma harmonização mais intrincada ainda, como tinha planejado, decidi voltar à estrutura rítmica original da música e dar à 4ª estrofe um ar mais solene. Com isso, eu manteria cada estrofe diferente, como se fossem variações da proposta original da música e, na 4ª estrofe, finalmente chegaria na ideia original da música. No refrão utilizei o material na 2ª estrofe e uma minúscula coda com o material das pontes para fechar.

Por fim, uma consideração sobre a melodia. Eu mudei algumas notas da melodia. Inicialmente, mudei o intervalo das duas últimas sílabas da primeira frase, em “esperança”. Originalmente, o intervalo é de uma 3ª maior. No entanto, eu sempre ouvi as pessoas cantarem com um intervalo de 5ª justa e que me parece mais bonito, inclusive. Também apliquei a mesma alteração na 2ª estrofe. Na 3ª estrofe, onde eu faço as modulações, tive que fazer algumas mudanças na melodia para permitir as modulações. Acabou ficando uma espécie de variação da melodia original. “Contemplando seu vulto sagrado” o intervalo das duas últimas sílabas mudou de uma 3ª maior para uma terça menor e a melodia perpassa pelo mezzo e soprano. No solo do mezzo, “Poderoso e feliz há de ser” também fiz uma ligeira alteração em “e feliz há” para viabilizar a modulação em curso. 
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

15.12.14

a alquimista

que avós são seres evoluídos, que cumpriram suas sentenças como pais e no papel de avós tem a simples função de curtir, não é novidade.
que eu tenho avós especiais, já escrevi por aí. talvez só não tenha falado ainda que além disso tudo, minha avó lola é ainda alquimista.

na tentativa de perpetuar as boas lembranças e de não deixar que se percam em tempo e poeira, tenho buscado recordar fatos de minha infância e trazê-los à memória, para que ganhem mais anos de vida.

por isso, dias desses me aventurei na cozinha para fazer pão caseiro. o pão da ceia de minha vó.

os primeiros sábados de cada mês eram especiais para aquela comunidade da assembléia de deus da vila alpina. dia de celebrar a santa ceia. aqui, dentre outras, está uma pequena diferença de costumes entre cristãos católicos e cristãos evangélicos. enquanto os católicos utilizam a hóstia, que simboliza o pão que por sua vez simboliza o corpo de cristo, os evangélicos ainda mantêm como tradição celebrar este momento em memória do sacrifício de jesus, comendo um pedaço de pão e bebendo um cálice de **vinho** suco de uva (ok, os católicos mantiveram o vinho, merecem meu respeito). 

hoje em dia, as igrejas estão aderindo a essa mania de simplificar o que não é complexo. dei o nome a essa mania de 'mania de jobs'.
os cálices são industrializados, selados e prontos para o consumo. o pão, geralmente de forma, só precisa ser cortado em pequenos cubos (ou será que já não vem assim?). mas até meus tempos de menino, as coisas eram mais românticas. preparava-se o suco, enchia-se os pequenos cálices, ou ainda, enchia-se uma taça grande que era compartilhada, gole a gole, pelas pessoas da igreja (ok, um pouco nojento).
quanto ao pão, era caseiro, uma pessoa com talento tal, se dispunha a fazer os pães da ceia. é aqui que entra minha vó lola. 

era ela quem no primeiro sábado do mês se lançava cedo à cozinha, colocava avental, separava os ingredientes, e iniciava o milagre do pão. 
esquenta a água, dilui o fermento biológico até que desapareça, mistura o açúcar, sal, depois os ovos, o óleo e a manteiga e por último a farinha é sendo integrada à toda aquela alquimia do bem. 
e a massa vai surgindo e sendo amassada. quanto mais amassa a massa, mais macia massa fica. é um trabalho braçal, requer força e paixão.
depois da massa bem amassada, separa-se porções menores e dá-se forma aos pães. com movimentos rápidos e precisos, uma ida, uma volta e outra ida com a mão e pronto, um pão estava formado. na minha tentativa, precisei de muito mais movimentos para no final conseguir um deformado pãozinho.

e então chegava o momento que mais me encantava, o momento alquimista de minha vó lola, que aprendera com sua mãe, avó e que foram aprendidos pelas gerações passadas, e que muito provavelmente não sabiam explicar cientificamente o motivo daquilo, mas o faziam.

coloca-se os pães a descansar, então fazia uma bolinha de massa e colocava em um copo com água. a bolinha de massa imediatamente afundava. e ali permanecia, por um tempo, até que magicamente (quimicamente), a bolinha subia.
passava a boiar, indicando que a massa crescera e estava pronta para assar.

trinta, quarenta minutos depois, com a casa inundada pelo cheiro de pão quente, o milagre estava completo. bastava uma xícara de café, manteiga (que muitas vezes também era caseira) e pronto.

vale ressaltar que a primeira tentativa nem sempre é a melhor. errei na quantidade de farinha, meu pão ficou pesado e longe de se parecer com o da minha avó, mas valeu a experiência, prometo continuar tentando.

aqui a receita, escrita pelas mãos da vó lola.












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Ev Melo
Escreve reminiscências, para que elas não lhe sejam apagadas.

12.12.14

a primeira poesia

A primeira poesia que ouvi nem era poesia. Bom, na essência era, mas não nasceu poesia. Tampouco eu, uma criança na primeira série do primário, sabia o que era uma poesia. 
Mas desde menor ainda já sabia admirá-las, mesmo não sabendo que as admirava. A primeira poesia que ouvi, jamais esqueci. Sem nenhum esforço para decorá-la.  Poesias não são decoradas, são tatuadas na pele da alma.
A primeira poesia que tenho consciência foi dita pela professora Carmem na aula de ciências. Foi curta, simples e direta. E bela, não esqueçamos da beleza.
A primeira poesia da minha vida de tantas outras, me abriu os olhos como uma criança diante do recém surgido Papai Noel. Me despertou os sentidos, me acordou de um sentimento de que as aulas não serviam para muita coisa senão para receber elogios ou broncas em casa. Me fez perceber que há sentido nas palavras. A primeira poesia de minhas lembranças, ouvi quando pequeno, na aula de ciências pela boca da professora Carmem (ou era Lúcia? Áurea, talvez), foi simples e direta e me ensinou a respirar vida.
E tudo isso por uma simples lição contida numa curta frase: O vento, é o ar em movimento.
A primeira poesia de minha vida me colocou em movimento. Como o vento.
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Ev Melo
Uma pessoa rara, como outra qualquer.

10.12.14

Sobre Depressão e Melancolia - Sem medo de falar

Em uma conversa com uma amiga ela me relatou sobre melancolia, depressão e entendimento sobre o tratamento e a doença.
A Depressão e melancolia afetam muitas pessoas como essa minha amiga e, infelizmente muitas pessoas próximas, familiares e profissionais de saúde ainda não entendem e não respeitam pessoas que sofrem de Depressão e Melancolia.
Creio que em cada relato que recebo ( relatos corajosos) de pessoas que sofreram e ainda sofrem de Depressão e Melancolia sinto-me encorajado a estudar mais, esclarecer mais sobre o assunto, ajudar e respeitar as pessoas que convivem com essas enfermidades.
O entendimento da Depressão e Melancolia é uma ótima possibilidade para que as pessoas parem de julgar e interpretar de forma errônea sobre essas enfermidades.
Que esse relato e tantos outros possam um dia ecoar nos corações de todos nós e, que possamos ajudar mais do que julgar.

Segue o Relato:
Paulo, sobre esta questão de depressão crônica, vou te dizer em: eu me lembro de uma infância e uma adolescência bem melancólica. Aos 11 anos, tive uma febre reumática e chorei na escola todos os dias por um semestre. Então operei as amídalas e melhorei. Pelo que sei, febre reumática pode tb causar algum probleminha cardíaco (tomei remédio para isso por 10 anos) e depressão. 
Fui diagnosticada em 2004 e há uns meses a médica disse que 'cronificou'. Tenho acompanhamento psicológico no serviço público, felizmente uma profissional ótima. 
Tenho altos e baixos. A luta contra o que paira na minha cabeça é diária. No entanto, sei quanto minha vida custou para Deus e para meus pais, que se sacrificaram para que eu pudesse ser alguém decente. Por isso, jamais chegaria perto de pensar no pior. Sou grata a Deus. Tem gente que vive muito pior. E pronto... 
Digo isso só para você saber. Talvez seja útil para seu trabalho em algum momento. Abração!

Quem quiser passar seu relato fico à disposição: paulo.bregantin@superig.com.br
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- Paulo Bregantim
Psicanalista Clínico. Escreve sobre a alma e coisas simples. Simples assim.
Atende na clínica Reciclar Unidade II.

8.12.14

1982...2014

1982, escola estadual de primeiro e segundo grau carmem cotta, coronel fabriciano, minas gerais

quando aprendi a ler foi o divertimento [de diverso, coisa diferente!]. a menina de olhos arregalados no auge dos seus sete anos... sem me dar conta o mundo assumiu outra aparência: eu sabia ler! eu podia ler! aquilo que antes eu observava nos adultos, como que um segredo de se fazer, foi um mistério que se revelou a mim, na verdade, a menina achava que eles inventavam tudo que liam, cada um inventava sua história de palavras e por serem adultos, todos se entendiam.

desde então, pela combinação das sílabas, devorei as palavras, lia tudo, primeiro por desafio e depois por gosto.  naquela infância, minha mãe comprara, daqueles vendedores de porta em porta, uma coleção de contos de fadas; li e reli aquelas páginas dezenas de vezes por anos da vida, e mesmo já sabendo a história havia uma vontade de chegar a tal parte para ler [ou ver] de novo. ainda tenho gosto por aquela sensação das imagens e das palavras que tocam meus ouvidos e minha mente.

não me tornei uma grande leitora, apenas uma ansiosa por guardar em mim todos os livros do mundo. as palavras lidas me deram acesso a algo que minhas mãos não poderiam tocar, e levou meu pensamento por céus inexistentes, assim como minhas reflexões; até ao ponto que faltaram palavras para significar o que penso.

ao fim, por alguma qualquer razão, me veio o desejo de escrever, nalgum instante aquele mesmo sentido que me foi dado por outros se tornou vontade em mim. não sei qual a fisiologia desta vontade, nem o espaço que ela ocupa na vastidão do universo. me resta, pela conservação da minha sanidade e pelo instinto de respirar e ser que eu esteja sempre lá... eu e as palavras.

2014. são bernardo do campo, uma cidade no mundo
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- kelly guimarães
filósofa das letras pequenas. textos profundos e maiúsculos, tudo em letras minúsculas.

3.12.14

Oração de um paulista crente que votou certo no segundo turno da eleição presidencial

Essa noite, preocupado com o futuro incerto do nosso país por causa da grande burrada que foi o resultado da eleição do domingo, perdi o sono. Resolvi levantar para interceder pela nossa nação mas, quando dobrei os joelhos, apesar do buraco sem fundo que estamos nos metendo, só me vieram palavras de agradecimento a Deus:

Obrigado, Senhor, pelas tuas bênçãos, teu favor ilimitado que esclareceram tanto minha mente e fizeram de mim alguém com tanto discernimento. Obrigado, Senhor, por abrir meus olhos para enxergar o que a maioria dos brasileiros não vê. Obrigado, Senhor, por me dar inteligência e empreendedorismo para vencer na vida. Obrigado, Senhor, por não me fazer preguiçoso e, mesmo saindo de uma família humilde do ABC paulista, ter sido sempre trabalhador e não precisar mendigar nenhum programa social para vencer na vida. E eu venci, Aleluia! Obrigado, Senhor, por ter me feito nascer no ABC, terra com tantas oportunidades de emprego que eu, tinhoso como sou, sempre soube aproveitar. Obrigado, Senhor, por ter me feito responsável, cumpridor dos meus deveres, cidadão de bem, que estudei numa das tantas faculdades que existem por aqui. Obrigado, Senhor, por eu ter utilizado todo esse conhecimento e sabedoria conseguidos à custa de muito estudo e trabalho honesto para saber o que é melhor para mim e para aquele miserável nordestino preguiçoso e analfabeto.

Aliás, obrigado, Senhor, por não me fazer indolente com os nordestinos que só querem viver à custa do bolsa miséria. Obrigado, Senhor, por ver que os paulistas, assim como eu, rejeitam essas esmolas do governo corrupto do PT. Obrigado, Senhor, por saber que São Paulo não precisa disso, que essas bolotas de porco sejam despejadas nesses nordestinos burros e bovinos. Obrigado, Senhor, por colocar pessoas sábias como o Diogo Mainardi para denunciar essa calamidade. Só não entendo, Senhor, porque São Paulo é um dos maiores beneficiários do bolsa esmola! Isso só pode ser fraude e a corrupção típicas do PT desmoralizando o programa: nordestinos safados que devem estar utilizando dois endereços diferentes, um naquela terrinha ridícula e outra aqui nesse local de tantas bênçãos, para ganhar o benefício em dobro. Aliás, um governo que, para ganhar uma eleição tenha que recorrer à fraude, eu li por aí, só pode dar esse tipo de incentivo mesmo. Obrigado, Senhor, por não ter permitido que eu nascesse naquela terrinha miserável de gente feia e fedida que nem banho toma, afinal, nem água lá tem! Obrigado, Senhor, por ter dado sabedoria e inteligência aos meus pais que, quando se casaram, saíram daquele lugar de gente deplorável e vieram aqui para essa terra de oportunidades, onde construíram uma família linda e de quem me orgulho bastante. Só lamento que essa gente preguiçosa nordestina, que vive às custas das esmolas dadas pelos analfabetos, corruptos e comunistas do PT, quando quiser subir na vida, venha pedir emprego aqui nessa terra maravilhosa governada com tanta competência pelos acadêmicos, ilustrados e distintos políticos do PSDB. Que apodreçam no nordeste, porque São Paulo é lugar de gente ordeira, trabalhadora.

Senhor, quando chegar no teu reino, além de querer conhecer pessoalmente Abraão, Isaque e Jacó, quero fazer duas perguntas que me incomodam bastante: a primeira, para onde vão as canetas quando desaparecem, a segunda, porque São Paulo é uma terra tão próspera, tão cheia de gente de bem, trabalhadora, que leva esse miserável país nas costas, que paga o bolsa esmola desses desocupados do nordeste, enquanto o nordeste é um lugar tão desagradável, pobre, cheio de gente inferior e analfabeta. Apesar de eu ser extremamente culto, inteligente, ler tantos livros, conhecer tudo de História, principalmente a do Brasil, ter um discernimento acima da média, como é comum nos paulistas bem sucedidos como eu, e se não bastasse, estar cercado de amigos igualmente notáveis como eu, muitos deles praticamente cientistas políticos, outros economistas informais de extraordinário saber, e como dizia, apesar disso, eu não entender porque essa discrepância toda entre nordeste e sudeste. Que carma esse miserável povo do nordeste tem, Senhor? Qual foi o pecado deles? E eu, por que Senhor, tenho que ficar sustentando esse bando de vagabundos? Eu sei, Senhor, que os seus desígnios são profundos, incompreensíveis, e o entendimento total desse mistério só terei quando estiver nas Bodas do Cordeiro ou quando chegar no Paraíso, se eu morrer antes do Arrebatamento.

Também entendo, Senhor, que a vitória do PT foi sua vontade permissiva, porque tua boa, agradável e perfeita vontade seria o PSDB ganhar porque assim ele acabaria com essa palhaçada dessa bolsa miséria o colocaria os vagabundos do nordeste para trabalhar. Nós, teus servos, falhamos quando não oramos e jejuamos suficiente. Seu servo Marco Feliciano até nos conclamou para tirarmos esse partido diabólico do poder mas nós somos desunidos: falhamos! Perdão, Senhor.

Mesmo assim, Senhor, tua benignidade é tão grande e a despeito de nossas falhas, tu nos abençoa sempre, até mesmo por meio de uma jesuscidência! Justamente agora, nas vésperas da eleição presidencial é que comprei meu Hyundai HB20 branco zero quilômetro. Foi em boa hora para poder postar uma foto no facebook com minha bênção e esfregar no nariz dos meus primos vadios nordestinos qual a diferença entre quem depende do bolsa esmola e quem trabalha de fato. Obrigado, Senhor! Momento melhor não havia. Ah, e ademais para mostrar aos meus vizinhos, invejosos e não invejosos, que eu também posso comprar um carrão, que eu sou servo de Deus, que fui colocado por cabeça, e não cauda! Eu te peço, Senhor, que nunca me falte emprego para eu poder pagar as 60 parcelas do financiamento e desde já eu repreendo toda cilada do inimigo, declaro que o diabo está derrotado e o devorador não tem poder sobre minhas finanças! Eu sei em quem tenho crido e tu és fiel, dia após dia, por isso não me faltará dinheiro para continuar pagando o seguro, o IPVA, as revisões e a gasolina aditivada, porque declaro que só vou colocar combustível decente na minha bênção.

Senhor, obrigado, obrigado, obrigado, eu te louvo, eu te adoro, acima de tudo eu te amo, por me fazer um paulista inteligente e não um nordestino burro.


(Se você chegou até aqui e se sentiu ofendido ou achou o texto muito estranho, deixa-me explicar: esse é um texto irônico. Textos irônicos por vezes são difíceis de serem compreendidos. A ideia do texto é mostrar como esse tipo de pensamento, que infelizmente surgiu bastante nas eleições presidenciais de 2014, é ridículo. Procurei colocar cores fortes mas ainda assim algumas pessoas me disseram que há de fato pessoas que pensam exatamente assim, o que mostra o quanto isso é triste. Eu me inspirei em uma parábola de Jesus, a do fariseu e do publicano, em que o fariseu se julgava melhor que o publicano. É essa postura condenável que vemos em muitos cristãos, paulistas em particular, que se julgam melhores que nordestinos que votaram em uma alternativa política diferente das deles. Duplamente lamentável por se dizerem cristãos, já que tais atitudes demonstram que não entenderam direito a mensagem do cristianismo. Finalizando, paulistas arrogantes e xenófobos que se julgam melhores e mais inteligentes que nordestinos, não passam de infelizes tolos e patéticos).
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

1.12.14

RESSONÂNCIA LÍMBICA: O que é? Como age? Quem pode viver este processo?

Ressonância Límbica é uma capacidade dos mamíferos  de entrar em sintonia com as manifestações internas dos outros.
É a capacidade de sentir e até mesmo entender o que o outro sente, é um fenômeno que podemos dizer físico, anatômico,  psicológico e espiritual.

A Ressonância Límbica facilita a leitura das emoções das pessoas que nos cercam de modo que intensificamos nossas sensibilidades e percepções aos sentimentos e emoções das pessoas que estão em contato conosco. 

É uma capacidade ’não verbal” que permite a adaptabilidade do nosso comportamento sem ferir ou agredir as emoções das pessoas que nos rodeiam.
Esse processo acontece quando ficamos face a face e olhando para os olhos das outras pessoas, como se fosse “amor a primeira vista”.

Outros exemplos que podemos dar sobre a Ressonância Límbica é o que sentimos como “frio na barriga”, quando o coração acelera e não temos como controlar. As mamães e papais sentem quando necessitam acordar de madrugada para aquietar seus filhos. Quando os olhos dos papais e mamães encontram os olhos dos bebês que choram e, do “nada” vão aquietando, isso é a ressonância Límbica.

Diferente de animais como por exemplo a tartaruga que coloca a cabeça e os membros dentro do casco, os seres humanos são seres sociáveis e a todo momento estão exercitando a Ressonância Límbica, pois a cada contato visual ou sensitivo estamos liberando esse processo em nossas vidas.
Essa sintonia, se assim podemos chamar, permite uma regulagem das nossas manifestações emocionais, e é fundamental para o início e manutenção dos relacionamentos.

A ressonância Límbica é um processo cérebro-emoção ( Razão – Emoção) com desdobramento físicos e mentais imediatos. A troca entre as pessoas acontecem em milésimos de segundos. É um olhar, um toque, um gesto, uma sensação e pronto, Estamos conectados no processo da Ressonância Límbica. É algo MARAVILHOSO. Afeta o batimento cardíaco, a regulação hormonal, as funções imunológicas e todas as características do sono. Sim! Todos os estágios do sono inclusive o sono REM.

Quanto mais exercitamos a Ressonância Límbica mais demonstra que estamos apaixonados pelas pessoas e por nós mesmos, já a baixa ressonância Límbica é a causadora das barreiras entre as pessoas e o afastamento de si mesmo de dos outros em nossa vida.

Engraçado, pois quando somos crianças (desde bebês) existe dentro de nós uma busca incessante pelo processo de Ressonância Límbica pelos pais, pois acredita-se que por não conhecer ainda o mundo exterior e suas possibilidades vivemos apegados aos pais e, isso é fundamental para o nosso desenvolvimento como pessoa e aprendizado da conservação e prazeres da vida. Porém, quando iniciamos o processo de independência e diminuímos a dependência dos pais e dos nossos cuidadores perdemos “parte” desse processo fisiológico e espiritual da Ressonância Límbica.

O afastamento do processo da Ressonância Límbica, pode ser o causador de dores profunda que chamo de “dores da alma” e, consequentemente produzir traços de depressão e ansiedade, pois quando ficamos sem olhar para as pessoas e perdemos as sensibilidades das questões da vida corremos o risco desviar do caminho normal da vida. Dessa forma, ficamos mal humorados, tristes, angustiados e desenvolvemos doenças psicossomáticas.

Já quando estamos buscando (consciente ou inconsciente) o processo da Ressonância Límbica podemos desenvolver o bom humor, dando cores as lembranças da vida, criando possibilidades para as questões da vida, abrindo o mundo de oportunidades, verificando as percepções de si mesmo e dos outros, diminuindo os julgamentos e aumentando o carinho com as outras pessoas, criando em fim um desejo de interdependência e mutualidade gerando o desejo intrínseco de viver em comunidade e comunhão com as pessoas.

Claro que com advindo das redes sociais perdemos um pouco desse processo, pois hoje estamos vivendo um novo tempo e, precisamos nos adaptar a essas realidades, pois não creio que o mundo vai voltar, mas que seremos cada vez mais consumidos pela tecnologia e informações digitais. Então, torna-se fundamental nutrir as amizades e os relacionamentos familiares.

A ressonância Límbica é um processo maravilhoso que podemos retomar dentro de nós mesmo e quem sabe aprender a cada dia e com os que nos rodeiam que a sensibilidade e as emoções são passadas de pessoa em pessoa e, que somos um todo dentro de tudo e, que não podemos viver isoladamente, mas em coletividade, harmonia e amo.

Nós somos muito mais que razão, somos emoção e espiritualidade. Somos infinitamente mais que imaginamos, pois quem no CRIOU, nos deu algo muito maior que nem temos idéia. Cada pessoa tem em si mesma uma fagulha divina e que pode acender a si mesmo e tantas fagulhas que conseguir. 
Todas as mudanças estão dentro de nós. TODOS NÓS PODEMOS VIVER ESSE PROCESSO CHAMADO RESSONÂNCIA LÍMBICA.
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- Paulo Bregantim
Psicanalista Clínico. Escreve sobre a alma e coisas simples. Simples assim.
Atende na clínica Reciclar Unidade II.

27.11.14

Por que eu não vou mais à igreja?

Recentemente minha mãe, respeitável senhora em sua comunidade assembleiana, passou por uma cirurgia. Com isso, recebemos a visita de vários irmãos, velhos conhecidos meus - já que nasci e fui criada nesta comunidade - e de seu novo pastor, a quem não conhecia, mas dissera já ter ouvido falar a meu respeito.

Bem, com essas visitas, uma pergunta voltou à tona e tive de resgatar minha coleção de respostas padrão já guardadas numa daquelas gavetas de meias velhas que só acessamos no inverno.

Mas acontece que, inquieta que sou, num dos momentos de ócio, voltei a pensar na resposta real. Aquela que dá preguiça de ficar explicando às pessoas porque a resposta imediata será que "devemos olhar pra Jesus, e não pro homem, e blá, blá, blá..." Isto porque em geral, as pessoas, essas pessoas, estão tão engajadas  em transmitir sua verdade que simplesmente são incapazes de ouvir o que você diz, ponderar, e só então argumentar, de forma a engatar o que costuma ser um diálogo.  Infelizmente, a maioria dos cristãos não são treinados pra isso. Então, de fato, raramente me dou ao trabalho de responder honestamente a perguntas como esta: "Por que você não vai mais à igreja?"

Mas existe uma resposta a esta pergunta, e ela é relativamente simples: eu represento uma "classe" de pessoas, de mulheres, sendo mais específica, para quem as igrejas não estão prontas. Nenhuma delas. Aquela mulher a quem não se pode rotular. Aquela que não se encaixa em nenhum "grupo".

E neste momento, você pode até se sentir ofendido e pensar que em sua igreja não existem tais grupos. Quer ver? Tem "os adolescentes", "os jovens", "os jovens casais", "os casais sem filhos", "os casais com crianças", "os casais maduros", "as viúvas", "as mães"... e agora é provável que você esteja se lembrando dos outros grupos que sua igreja acolhe e trata com amor e carinho. E pode até mesmo estar se indagando "de que planeta terá vindo essa moça pra não se encaixar em nenhum deles?" Ou talvez, algum leitor mais atento já tenha descoberto o motivo desta pobre garota se sentir excluída, e está morrendo de dó. Pode parar, caro leitor! (sempre quis escrever 'caro leitor'. Valeu Ev Mello!). Não é pra isso que te chamei a essa leitura, ok? Essa que vos escreve já passou dos 30 mas está longe dos 40, é divorciada, independente, não é mãe, mas tem uma, a quem ama e cuida como se filha fosse; sobrinhos aos montes e um yorkshire bebê. E te desafia a responder em poucos segundos a uma simples pergunta: "em que grupo de sua igreja me encaixaria?"

Chega a ser engraçado o desconforto que provoco nos "irmãos". Eles não sabem se me convidam pro evento dos jovens ou pro encontro das mulheres. Trata-se de estar totalmente fora da curva. Vale lembrar que a curva é: pessoas cujas vidas são dentro dos "padrões cristãos bíblicos gospel evangélicos crentes". São esses que a igreja ama, embora se iluda e realmente acredite em sua pregação que diz o contrário. Abre-se aqui uma exceção para os extremos - a igreja ama os diferentes de si ao extremo (desde) que queiram 'enquadrar-se" em seus padrões - como gays, espíritas, prostitutas, viciados, etc (espero não precisar justificar esta frase à gangue dos politicamente corretos - leia-se: chatos de plantão).

Ah, sim. É preciso esclarecer que este não é um discurso de uma pessoa ressentida com a igreja. Ao contrário, é de uma cristã resignada.

E não, não estou em crise de identidade (não desta vez). Sei exatamente quem sou e principalmente, como Cristo reagiria caso cruzasse comigo em algum poço da vida. Mas talvez a igreja esteja, pois pregam domingo após domingo sobre mim, a samaritana, com lágrimas nos olhos, mas não tem a menor idéia do que fazer quando alguém como eu resolve se juntar a eles. Ou pior, quando alguém que era como eles, se descobre alguém como eu.

Acaba o culto. É melhor sair logo e nos livrarmos todos deste desconforto. Já no carro, volto a ser eu, a divorciada de trinta (e um, quase dois), tão samaritana quanto aquela, que já teve cinco maridos e o que agora tem não é seu (isso é só licença poética - devo ter perdido a conta e não tenho nenhum no momento - hahahaha)

Chego em casa, converso um pouco com Dona Neuza, pego o Aslam no colo e recebo suas gostosas lambidas no rosto, brinco com os sobrinhos, respondo aos amigos online e percebo que meu culto começara, finalmente.

É é por isso, então, que não vou mais à igreja... 
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- Priscila Ferminio
Um ser inquieto e talvez um tanto inconformado (demais). Uma alma oito ou oitenta - sempre em luta com a segurança do oito diante da graça do oitenta... Implanta sistemas de gestão fiscal pra ganhar a vida. Canta e brinca de confeitaria pra vivê-la. 

25.11.14

Inspirar e aspirar

Nossas aspirações estão relacionadas com nossas inspirações. Diga-me o que aspira e eu te direi quem e o que te inspira.  

Quando ainda criança existe aquela liberdade de estar entre diversas cores, de lápis , pintura , papeis , é tolerável pintar fora das estruturas,  seja aquela  de uma folha, quem quando era criança avançou, quebrou as limitações do sulfite pintou o chão, a parede, o boneco, a porta os braços, a cara e a mão.

Não lembro haver escutado de nenhum menino ou menina: eu sou artista ou quero ser artista, sou criativo, basta olhar no seu ser, no seu corpo, existe poesia e articulação nas suas palavras, a busca do  novo. Ser criança é não perder a percepção  do assombro, da imaginação,  é viver tranquilamente e intensamente no mistério.

Nós adultos somos os responsáveis de pouco a pouco ir cortando as asas daqueles que são pássaros na sua essência e não somente esta atrocidade, mas também   rapidamente os colocamos em nossas gaiolas. 

Aqueles que são a inspiração para nosso mundo, são motivados a aspirar as coisas dos adultos. Enquanto se aprendia todo tempo livremente entre todos e em todo momento, agora existe o momento, o tempo, é determinado quem pode ensinar e aonde se pode aprender , porque estudar  é ter conhecimento  que nos leva  a ter poder. Assim somos estimulados para chegar ao sucesso, onde tudo parece ser calculável, reduzido a números, onde  a vida pode ser planificada, administrada, se anula a existência do mistério, nos auto- enganamos que podemos explicar todas as coisas e assim resolver todos os enigmas porque pensamos  que por meia da ciência e da tecnologia  tudo pode ser resolvido. 

Ninguém está livre da tentação de depois de ser criança querer participar no  circulo vicioso de construir  e  manter em pé as estruturas  que nos brindam uma falsa seguridade , seja ela por meio do dinheiro, por meio do acumulo de bens adquiridos, toda esta dependência e busca na verdade nos controlam, determinam e disciplinam a nossa maneira de viver, e geram uma insatisfação interminável e a incapacidade de celebrar o simples, o pequeno e o limite.  

 É necessário que para que esta ordem se mantenha  os sacrifícios sejam feitos  sejam eles humanos ou da natureza porque quem não protege a vida não tem reverencia pelo sagrado, e com isso existe e persiste somente um alvo para o grande desenvolvimento, crescimento e progresso. Como podemos pensar e agir a partir destas perspectivas em um mundo finito? Porque não pensar nas próximas gerações? Nesta grande projeto aniquilador  quem está fora quer entrar, quem está dentro faz qualquer tipo de acordo para não sair, seja até mesmo entregar sua própria vida  e da sua família no altar dos falsos deuses atuais.

A única coisa que se aspira é chegar ao lugar mais alto, ter tudo que se pode ter, consumir o que existe e o que  esta terminando, criar produtos que satisfazem desejos imediatos mesmo que os seus resíduos demorem anos e miles de anos para se decompor, pensando que tudo isso desaparece por uma questão de mágica , somos a unica especie que produzimos lixo e empilhamos em algum canto por ai.

A capacidade de criar vida de uma criança se transformou na capacidade de criar maquinas para que as maneje os adultos. O ser humano atual tornou-se um fazedor de ferramentas  e agora o seu mundo é uma gigantesca  caixa de ferramentas para satisfazer suas falsas necessidades mais egoístas e o que é desejo de poucos se tornam necessidade de todos.

  Dura, sem expressão, imaginação, mistério, assombro a humanidade perde a imagem do seu Criador, e se transformou  na imagem dos objetos feitos por suas mãos, que necessitam ser usados, explorados, o que não serve mais é jogado no lixo, também existem seres humanos abandonados em vários rincões. O nosso distanciamento do Criador e da sua criação resultou: ver a natureza como um recurso, seres humanos como objetos, que ambos necessitam ser explorados.

O que está acontecendo com o verde e todas as cores da natureza  e sua grandeza em plantas e animais que não aceitam estruturas rígidas, inquebrantáveis, mas que necessitam da liberdade para continuar  gerando a vida? Foi atropelada pelo cinza dos blocos empilhados que entre eles formam caminhos negros impermeáveis. Porque a criação do grande Criador  foi invadida  pelo o mundo dos seres humanos , que quando buscam o silencio já não se escuta os cantos dos pássaros, nem se percebe o sussurrar do vento, nem o movimento das árvores, simplesmente e constantemente se escuta  a buzinas dos automóveis e o ruído dos seus motores.   

Mas é nesse cenário  que eu encontro pessoas como Claudio Oliver, Hugo Theofilo, Eduardo Fenimam e Rene Eugenio Seifert,  que me inspiram a buscar a imaginação e a criatividade nata  das crianças. Eles  deixaram de pensar em viver para si mesmo,  se atreveram a imaginar um outro mundo possível, aquele que começa na própria casa, onde se pode tocar com os próprios pés e mãos e está ao alcance dos próprios olhos  e criaram um espaço onde seus filhos pudessem viver e aprender com liberdade, onde aprendem a  tarefa de observar  e  a preservar a vida humana e de toda a criação, estes futuros adultos  seguramente serão  inspiração a outros. 

Nesta aventura permitem que seus filhos cresçam em busca de uma vida plena, mesmo que seja  em um pequeno jardim de uma casa, onde  permitem  que flores exalem livremente o seu perfume,  em que sementes brotem e depois se tornem alimento para suas mesas, que as árvores possam dar livremente o seu fruto, que fazem habitação para os pássaros, que atraem as borboletas e as abelhas, onde as cores transformam o cinza duro e impenetrável morto em vida, o campo seco em bosques, entre montanhas, que crianças possam correr entre as cabras, que já não existam, mas limites para a vida e que esta avance de tal maneira que já não possa ser controlada e encaixotada em nenhuma estrutura física e humana. 

Esta esperança e a aspiração que tenho, porque sei que um dia chegará  onde seres humanos “farão de suas espadas arados,e de suas lanças, foices. Uma nação não mais pegará em armas para atacar outra nação, elas jamais tornarão a preparar-se para a guerra” (Is. 2. 4). “O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará ao pé do cabrito; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um menino pequenino os conduzirá. A vaca e a ursa pastarão, as suas crias se deitarão juntas e o leão comerá palha como o boi. A criança de peito brincará sobre a toca do áspide, e a criança desmamada meterá a mão na cova do basilisco.” (Is. 11. 6 – 8).
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- Vinicius Barajas
Amante da vida:  esposa, família,  amigos,  natureza , arte e comida.

21.11.14

Qual é a do sorriso? - Réplica de Nuno Junior

- Não devíamos ter algum tipo de fiscalização quanto a isso? Ninguém conseguiu ver que estavam nos desmascarando antes de acontecer? Cade o Luís? Eu quero o Luís aqui imediatamente!

- Bom, onde estávamos? É Evandro né? - ao dizer isso apontou para o Evandro com um calhamaço de papéis rascunho, todos projetos re design muito bons para serem recusados por qualquer cliente, mas devido a sua condição de rascunho, assim foram. Bom Evandro, você vem aqui apresentando esta tese absurda de que nós publicitários usamos indiscriminadamente o sorriso para fins mercadológicos. Mas antes de te dar uma resposta - CADE O LUIS? - eu quero saber para quem você trabalha.

- Não trabalho para ninguém - retrucou Evandro, com a voz séria, escondendo sua opinião quanto ao absurdo que estava ocorrendo naquela sala.

- Bem, se não trabalha para ninguém deve querer um emprego aqui. Tá bem, ROBERTA, TEMOS VAGA NA MÍDIA? Pelo menos você faz contas, sabe fazer contas? Excell? Gosta de ganhar presentes? Todo mundo gosta, vai ficar perfeito em mídia.

- Não senhor, não quero um emprego, eu quero um contra argumento, um motivo para haver sorriso enquanto as pessoas passam manteiga no pão!

- Não temos vaga em midia - e está era a Roberta, falando com desdém mas deixando um charme escapar pelo olhar em direção ao Evandro. Não que fosse intencional, faz parte da rotina numa agência de publicidade Paulista dos anos 80.

- Realmente senhor Evandro, não temos vagas para o time de midia. Se puder deixar seu telefone entramos em contato assim que surgir uma vaga.

- Senhor, não saio daqui sem uma resposta - disse Evandro que raramente perde a calma, mas naquele momento ela estava junto do Luís, seja lá quem ele era ou onde estava.

Ok Evandro, você quer a verdade? Você não aguenta a verdade. ROBERTA, FECHA A PORTA DESTA SALA QUE O RAPAZ AQUI VAI OUVIR UMAS POUCAS E BOAS.

Pouco antes da Roberta fechar a porta da sala entra um garoto apressado e ofegante, se desculpando copiosamente e carregando algo que Evandro viu poucas vezes na vida, e jamais provou. O garoto carregava uma garrafa de Deus, uma cerveja tão boa que era comparada diretamente aos melhores champagnes do mundo.

LUIS, DA PRÓXIMA VEZ QUE VOCÊ DEMORAR ASSIM VOLTA PARA O REFILE. ENTENDEU?

O garoto estava transtornado e tremia ao servir uma taça ao Evandro, que estava incrédulo com toda essa situação, mas como não tinha escolha, decidiu beber um gole apenas.

- Evandro - disse o publicitário atrás da mesa, com muita classe desta vez - você está bebendo uma das melhores cervejas do mundo, uma cerveja que tem uma produção limitada a 15 mil garrafas por ano, que passa por um longo processo de dupla fermentação, uma na Bélgica, e outra na França. Durante um ano, esta cerveja passa pelo remuage, processo que consiste em girar diariamente a garrafa para que os sedimentos das leveduras se depositem no gargalo. Ao final, as impurezas são expulsas da garrafa, que é novamente fechada, com rolha definitiva, de cortiça, igual às dos melhores vinhos. Em seguida, retorna à Bélgica, de onde ela veio para o Brasil, chega através das mãos descuidadas do Luís para esta taça, escorre pela sua boca e muda a sua vida.

Evandro, um pouco inebriado pela grata surpresa (e por ter enchido a taça duas vezes enquanto o publicitário falava), apenas concordou com toda a argumentação apresentada pelo velho publicitário. E dá mais um largo gole.

- Evandro - disse mais uma vez o publicitário - consegue resumir tudo o que eu falei sobre em apenas uma palavra?

Evandro tentou encontrar palavras mas não conseguiu, era um líquido tão divino e com um processo de fabricação tão maravilhoso que nenhuma palavra cabia para descrever. Evandro sorriu.

O publicitário sorriu também, mas com um sorriso de predador quando vê sua presa pronta para o abate, e retrucou - Fazer manteiga não é um processo tão refinado, demorado ou poético assim. Mas o sorriso resume tudo.

- LUIS, SERVE UM PÃO COM MARGARINA PARA ESTE RAPAZ ANTES DELE IR. E VÊ SE FAZ ISSO SORRINDO.
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- Nuno Junior
Tentou de tudo. Tentou escrever, tentou fotografar, tentou tocar, tentou desenhar e tentou pintar mas  nunca conseguiu. Até hoje ele não sabe se os seus padrões são muito altos ou seu talento é muito baixo,  mas o Nuno não desistiu.

19.11.14

pertences de viagem

não sei lidar muito bem com distâncias espaciais, é difícil deixar para trás os lugares, me chateio com a idéia de estar entre o aqui e o lá, fico aterrorizada sem razão e sem medida. agora, aqui neste quarto, sei que a minha vida está lá sem mim, e que além dos pertences que trouxe na mala, trouxe junto a consciência de todas as coisas e o desalento de não saber o fim de cada uma delas. seria bom saber beneficiar-me da imprevisão e da novidade de cada dia por onde se arrasta a possibilidade de qualquer existência, mas ao contrário disto fico ruminando pensamentos insolúveis. que espécie de alma tenho comigo? ​que mal-estar é este​que sinto agora​? nauseante. sufocado. não tenho lugar dentro de mim e nas pausas de minha vidazinha fico anotando bobagens como estas nos extratos de banco que encontro na bolsa... por que vivo nesta prisão já que sei que é uma prisão? talvez porque igualmente saiba que não há saída, todo lugar é prisão, e quanto mais revolvo a terra, mais afundo exausta no nada. tenho saudade de minha casa​, qual? admiro a paisagem das serras daqui, há beleza em tudo quanto há de verde nelas, é então momento de limpar os olhos com estas imagens, concedendo à minha alma alguma serenidade, para logo depois, devolver-me às inúteis questões que me fazem sentir o nó na garganta. eis o caso do inevitável, posso aprender a deixar os lugares, posso aprender a conviver com a ausência de mim mesma nestes lugares, mas não posso deixar-me para trás como quem separou um livro e o esqueceu em cima da cama, ou como quem se convenceu de que​ ​três​ ​pares de sapato era muita coisa e decidiu levar apenas​​ ​um. me levo sempre comigo, não importa quanto espaço tenha na mala, me levo sempre comigo.
​de guimarães, dias de minas​, dezembro/2008.
__________
- kelly guimarães
filósofa das letras pequenas. textos profundos e maiúsculos, tudo em letras minúsculas.

17.11.14

qual é a do sorriso?

quem passa manteiga no pão, com um belo sorriso no rosto? cercado de pessoas também sorridentes?
é cedo, café da manhã, ninguém sorri acordando cedo.

e shampoo?! quem toma banho sorrindo ao ensaboar os cabelos? 

e faxinar a casa? o produto é bom, ótimo, limpe logo o que está sujo e pronto. mas porque sorrir ao esfregar o chão?

afinal, qual é a do sorriso na publicidade?

por que precisamos desse estímulo para consumir qualquer tipo de produto?

dia desses estava na fila do banco, era uma atividade que ainda precisava se feito no caixa, e reparei no banner de publicidade dos serviços de caixa eletrônico do banco. um casal, a moça aguardava sorrindo, o rapaz que sacava dinheiro, sorrindo.

já fui nos caixas eletrônicos com minha esposa esperando. não sorrimos ao sacar dinheiro. aliás, agi automaticamente, afinal, era apenas uma atividade corriqueira.

assim como tomo banhos todos os dias e o máximo que faço é usar o pote de shampoo como um microfone fictício ao cantar belas canções de chuveiro.

café da manhã?! não obrigado, prefiro dormir dez minutos a mais… restando tempo apenas para uma xícara de café rápida. e mesmo que tivesse pão com manteiga, seria sem sorrisos. 

mas por que precisamos ver gente feliz, em qualquer situação, para optarmos por este ou aquele produto?

talvez seja o sorriso o alvo do nosso desejo. a felicidade a nossa busca.
talvez sejam essas as nossas demandas. o dia nos automatizou, nos tomou a sensibilidade de se encantar com o pouco. o detalhe.
talvez eu compre tal shampoo porque gostaria de sorrir como a atriz dos cabelos lisos e sedosos.

talvez escolhemos a manteiga qualy, porque qualidade de vida comece com qualy. e invejamos a ilusão da família reunida e feliz.

será essa a do sorriso?
__________
- Ev Melo
Idealizador e curador deste espaço. É uma pessoa rara, como outra qualquer.

14.11.14

Reflexão sobre estabilidade


Não são somente as "habilidades" que mantém a estabilidade, é necessário entendimento sobre os processos emocionais e conhecimento de manutenção de relacionamentos.

O exterior, ás vezes, influencia nossas vidas para o bem ou para o mal, porém, na maioria das vezes, a decisão acontece com base no temos no interior.

Estabilidade só é real se decidimos entender o passado.

Estabilidade física e mental pode acontecer se exercitarmos a paciência e o perdão.

Estabilidade emocional NÃO se conquista com dinheiro.

Estabilidade tem como base o intra-conhecimento e o inter-relacionamento.

A estabilidade é o processo de administrar dores e prazeres.

A felicidade são reações físicas e emocionais quando sentimos processos internos de pacificação.

Nenhuma angústia pode ser desprezada. Elas (as angústias) são dores e, dores devem ser entendidas.

Nenhuma angústia nasce do nada. Ou é uma pulsão interna ou processos externos que foram "engolidos" no passado. Ambos têm entendimento.

O processo é assim: primeiro me assusto, depois eu fico com medo e na verdade o que atormenta é a angústia.
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- Paulo Bregantim
Psicanalista Clínico. Escreve sobre a alma e coisas simples. Simples assim.
Atende na clínica Reciclar Unidade II.

12.11.14

A Poesia e a lucidez

A Poesia é muito arredia. Não é fácil encontrá-la. Mas ele a encontrou uma vez. Um descuido e ela escapou. Inconformado, durou anos a busca-la novamente. Ele era um viajante e por todas as plagas por onde passava, sempre a procurava. Às vezes achava que aquilo era loucura. Talvez teria que ficar em estado de insanidade para poder enxerga-la. Seria isso? A lucidez a teria escondido?

Numa dessas viagens ele caminhava por uma rua da grande cidade quando se viu apertado para usar o banheiro. Na incapacidade de encontrar um banheiro público, parou diante de um grande edifício residencial. Havia um sonolento senhor sentado em um banquinho na entrada do que parecia ser uma enorme garagem com seus portões totalmente abertos. Perguntou-lhe sobre um banheiro e ele lhe apontou rapidamente o fundo para logo voltar à sua modorra. Curiosamente, havia um supermercado na parte térrea de edifício. Foi até o banheiro, aliviou-se e saiu, retornando à entrada da garagem. Foi quando a avistou, estática, virada em direção ao supermercado, em meio às pessoas que o abandonavam, a Poesia!

Ela olhava para ele, com seus cabelos acariciados pelo vento da tarde, um vestidinho solto, olhos penetrantes e aquele sorriso mal disfarçado que agora ele percebia, só ela tinha. Acometido de uma súbita vertigem, controlou-se e se aproximou dela com passos lentos. Ela não dizia nada, apenas o mirava. Na falta do que fazer, parou diante dela e, na total incapacidade de fazer outra coisa, pegou-a pela cintura. Ela parecia tão pequena, tão frágil... O beijo foi uma consequência. Primeiro os lábios se encontraram, depois mais seguro, ele a trouxe mais para si, sentiu a maciez do seu corpo, sua mão passeou por suas costas e eles ficaram ali naquele interminável beijo que durou algumas existências, enquanto ele com os olhos semicerrados, sentia a fragrância do seu cabelo perfumado, que agora fustigava levemente seu rosto, talvez pelo vento que soprava mais forte e fazia com que tudo à volta deles rodasse vertiginosamente.

Quando o vento desassoprou, eles um tanto sem fôlego se afastaram. Vamos? Ela o convidou para caminhar pelo passeio, convite que ele jamais rejeitaria. E lá se foram os dois, de mãos dadas, ele sem saber se caminhava ou flutuava. O certo é que não se importava com os encontrões que dava nas pessoas que passavam por eles em sentido contrário, já que havia muita gente por ali. Não falaram nada e ele achou melhor assim porque preferia não estragar aqueles momentos com outra coisa que não fosse observá-la, ainda que ele não ousasse olhar para ela, nem que fosse de soslaio.

Muitas quadras depois, já quase no cair da tarde, ela lhe disse: vamos ao metrô? Era na próxima esquina à esquerda, na metade da quadra. Quando dobraram a esquina, ela se desvencilhou de sua mão e se pôs a correr. Mas não era exatamente uma corrida, era um baile, como se fosse uma borboleta esvoaçante. Aquilo lhe pareceu carregado de muito lirismo e ele se juntou à sua dança, fazendo de conta que a perseguia, enquanto ela fazia de conta que fugia dele. Duraram alguns séculos nessa brincadeira, até que ela de repente alçou voo e alcançou a plataforma da estação que era visível da calçada mas que deveria ser acessada pelos bloqueios e escadaria. O trem já estava parado. Desesperado para não perdê-la de vista, ele pensou que deveria tentar fazer o mesmo, e foi apenas o pensamento cruzar seu cérebro que o mesmo lhe aconteceu: quando deu por si, estava na plataforma. Tempo suficiente para ele perceber que a plataforma estava vazia e o trem apitava avisando que estava para sair. O tempo lhe alcançou apenas para correr e se esgueirar por uma das portas automáticas que se estava fechando.

Ele precisou de alguns segundos para se acostumar à inesperada escuridão do trem. Foi então que percebeu estar o vagão totalmente vazio. Correu desesperadamente para o outro, na semi-escuridão, para constatar, desolado, que tampouco havia um único passageiro. Alarmado, correu para uma das janelas, abriu-a, colocou a cabeça para fora e olhou de volta para a plataforma, a tempo de ver ainda a Poesia a lhe acenar, de longe, com os cabelos e o vestidinho levemente chacoalhados pelo vento do entardecer.
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

10.11.14

​diário de despedida

quando o pai morreu um deus morreu em mim. o universo dos meus sentidos foram inundados por uma dor solitária e vazia de vontade. não havia o deus porque não havia o pai.o luto, que não chega a termo, esvanece a imagem do pai, assim o deus também tarda a vir, já não é real, já não há. [...] onde estará meu pai agora? – já não existe, já existiu, não mais agora. o deus já existiu, não mais agora.o pai, ou aquilo que ele foi, guardou-se numa caixa de madeira, uma caixa feia colocada sob a terra. não posso ouvi-lo, não posso falar com ele, a sua face gravada na minha memória vai se turvando. noites há, noites muitas, que sonho com o pai, vivo! temendo perder a lembrança do seu rosto, me esforço em lembrar da voz, dos seus trejeitos, seu cheiro, sua risada, seus gritos, me esforço e temo perder essa memória, como se essa outra perda representasse um esquecimento de mim mesma, não encontrar o pai é perder-me, já não saber quem ou porquê sou. miro o espelho e persigo em meu rosto o reflexo do pai. quero re-conhecer-mer. quero saber quem sou, para que sou e de que matéria sou feita.o pai está longe, ​a​bsolutamente irreal, sem substância, sem existência.a orfandade é uma tristeza! não há esperança. tornei-me rígida, desconfiada. a orfandade é uma prato de migalhas secas, um grande quarto frio com paredes altas e sem chão. janelas que se batem ao vento lembrando as horas que somem. sonolenta deambulo por este quarto para que não se perca da minha memória a imagem do deus e temo perdê-la infinitamente. o pai nunca mais voltará. 

dezembro, 2010.
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- kelly guimarães
filósofa das letras pequenas. textos profundos e maiúsculos, tudo em letras minúsculas.

7.11.14

cecília que me entenda


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- Ev Melo
Idealizador e curador deste espaço. É uma pessoa rara, como outra qualquer.

A bela do avião

Viagens a trabalho são uma fonte quase inesgotável de situações curiosas. Aqui vai uma delas quando eu voltava da Colômbia. Mais especificamente, quando esperava o voo numa das salas de espera, juntamente com os demais passageiros. Eu, de minha parte, deveria estar lendo algum livro. Foi quando, por um momento, o tempo parou. Chegou chegando, do jeito que só elas sabem fazer, uma morena de fechar o aeroporto (porque o comércio ela já deveria ter fechado quando da sua passagem por lá). Era uma coroa e se vestia sem exageros. Ocorre que ela era um exagero de beleza. E ainda tinha olhos verdes. Nem precisa dizer que os radares masculinos da sala começaram e fervilhar – alguns travaram. E eu, naturalmente, como também sou filho de Deus e não sou de ferro, quando dei por mim, já estava com a leitura do livro interrompida e com um “uau!” preso na garganta. A mulher era um espetáculo.  Curioso como certas mulheres ficam mais belas à medida que amadurecem! 
Deveria ser o caso dela, uma desconhecida quase Luíza Brunet . Bem, depois que a comunidade masculina se acalmou e os ponteiros dos relógios se recuperaram, o tempo voltou a se mover.

E como o tempo se move, algum tempo depois eu estava sentado na poltrona do lado da janela, a poltrona do meu lado vazia. Por pouco tempo. Adivinha quem se senta ao meu lado? Pois é, a vida é irônica mesmo. Em carne e osso, em três dimensões (e que dimensões), toda perfumada, a deusa. Entrei em pânico, uma vez que sou caliginefóbico. E agora? Fiquei acuado, músculos retesados, esperando para ver no que aquilo ia dar. Ela me perguntou qualquer coisa e eu lhe respondi qualquer coisa também. Naquela altura do torneio, eu faria o que ela quisesse, me fingiria de morto, o que fosse. E não é que a coroa era simpática? Tentou arriscar um português e saiu um portunhol macarrônico. Até então eu nunca tinha percebido como uma colombiana ficava bonita tentando falar português. Escorrega daqui, escorrega dali, a revelação: ela era carioca. Carioca??? Quase não resisti e por pouco não lhe passei uma suprema e assanhada descompostura para os meus padrões: “bonita assim, tinha que ser carioca!”.

Ela então me explicou que – não me lembro bem como – conheceu seu marido advogado colombiano no Rio de Janeiro, depois se mudaram para Manaus e, por fim, ele voltou para a Colômbia onde se radicaram. Já estava na Colômbia havia uns 15 anos e, pela primeira vez, estava retornando ao Rio de Janeiro para rever sua família, daí sua dificuldade com o português que ela iria aproveitar e treinar comigo. Lá pelas tantas, não me recordo como, descobriu meu berço evangélico. Foi quando ela se entusiasmou de vez. Explicou-me que seu marido era pastor e ela pastora. Durante os dias que antecederam a viagem ela orara a Deus pedindo muito que, no voo, tivesse a companhia de outro evangélico, algo que ela, inclusive, havia dito à sua congregação. Via em mim, portanto, a resposta das suas orações (eu estava podendo, hein?). O fato é que essa foi, provavelmente, a única viagem de retorno que não preguei os olhos. A simpática e lindíssima carioca falava pelos cotovelos. Conversamos e rimos bastante. Foi uma viagem memorável.

Como o projeto colombiano era longo, algumas semanas tive de voltar novamente a Bogotá. Embarquei numa segunda-feira de manhã em um voo da Avianca. Já dentro do avião, esperando o resto dos passageiros se acomodarem, dou uma olhada à minha volta (eu estava na fila esquerda, do lado do corredor) e, quem eu avisto umas três poltronas atrás, na fila do meio? Increíble, ela mesmo, a quase Luíza Brunet. Não acreditei. E não é que os contatos da senhora com o pessoal lá de cima, lá do alto, eram fortíssimos? Ela também mal podia acreditar. Qual seria a chance de isso acontecer? 

Esperamos todo mundo se acomodar e, como a poltrona do meu lado ficou vazia (que coisa, não?, estou ficando arrepiado – e com um pouquinho de medo, confesso), ela mudou de lugar. Voltamos para Bogotá numa animada conversa, em que ela, dentre outras coisas, falou de sua estada no Brasil.
Já no aeroporto de Bogotá, ficamos juntos todo o trajeto de passagem pela aduana e, na saída, a aguardavam o marido, vários irmãos de sua igreja, o cachorro, o papagaio, uma banda de música. 

Definitivamente, a simpática carioca era muito benquista. “Esse é o irmão do voo do qual lhe falei!” O marido ficou meio sem entender, afinal ela tinha se encontrado comigo na ida e não na volta. Ela então explicou a coincidência da volta. O marido também era uma pessoa extremamente simpática. 

Deu-me um cartão com os dados de ambos, endereço e tudo o mais, e me convidou para fazer uma visita à sua comunidade, em Villavicencio. Despedi-me de todo aquele pessoal tão simpático e fui para o hotel. Eu até pensei em visitá-los, mas como Villavicencio fica tão perto de Bogotá que não dá para ir de avião, o pessoal da petroleira onde eu estava trabalhando jamais me permitiria o passeio, pois a chance de eu ser parado na estrada por uma “batida” da guerrilha, o que era muito comum naquela época, era grande. E se eles soubessem que eu era estrangeiro, era quase certo que eu seria raptado. E eu tampouco me arriscaria.

Nunca mais falei com eles. Nunca mais a vi.
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- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

5.11.14

pode melhorar

- pode melhorar, calma aí... 

os anos eram os 80. tempos de antenas mal posicionadas e bom-bril cumprindo a promessa de mil e uma utilidades.
controle remoto se chamava filho caçula. no caso eu. mas isso não será explorado neste texto.

poucos eram os canais, cerca de 5 ou 6, e assim mesmo não eram todos que pegavam.
talvez por isso, pelas opções serem poucas, emprega tempo e esmero no ajuste.

primeiro girava o sintonizador de canal, tec-tec-tec, até encontrar o canal, que por motivo acima mencionado da não existência do controle remoto, seria assistido por um longo tempo.

voltava de ré e sentava no sofá, que afundava e devolvia o corpo pra cima, fazendo ranger a imitação de couro, marrom.
pouco durava esse momento de conforto. a imagem logo distorcia e lá ia ele. puxa a antena, se afasta um pouco, retorna e deita uma perna da antena pra lá, outra pra cá, se afastava um pouco, dessa vez esperava uns segundos e pronto, satisfeito retornava ao sofá.

eu disse pronto? não nada disso, a imagem teimava em se entediar e querer brincar de carrossel. pegava impulso e girava na tela.

ele bufava e retornava ao árduo ofício de ajustar a imagem.

- mas dá pra assistir assim, deixa como está. - dizíamos todos.
- não, pode melhorar.

e partia em direção ao ajuste fino, aquela roda que circulava o sintonizador de canais, lembra? 
girava pra esquerda, depois pra direita, se afastava e voltava, naquela dança sincronizada de todos os dias à noite.

enfim, a perfeição. devolve seu corpo ao descanso do sofá e se gaba de ter conseguido, mais uma vez. e assim, todos podiam assistir aos cinco últimos minutos finais do programa.
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- Ev Melo
Idealizador e curador deste espaço. É uma pessoa rara, como outra qualquer.

3.11.14

A Depravação do Socialismo também é a do Homem

Aproveitando os debates acalorados sobre política, gostaria de contribuir como uma visão bíblica, e porque não, antropológica sobre política.

O Socialismo diz;
"O Bandido é vítima do sistema."
A Idéia é; que o bandido nasce pobre, sem acesso ao estudo, sem perspectivas e assim, como último recurso apela para o crime.
Por isso sempre vemos o famigerado Direitos Humanos defendendo bandidos, mas não suas vítimas.

Pare e pense;
Existe algum problema com um sistema político que propõe soluções universais sem considerar um comprometimento mínimo do indivíduo na construção de um país melhor.

Em nenhum discurso político vemos propostas que não sejam milagrosas, que dependam sistematicamente de planejamentos e investimentos bilionários sem contar com o caráter e compromisso da sociedade em ser mais honesto nas pequenas coisas.

Constantemente vejo pessoas dizendo que político não dá em árvores, mas saem da sociedade. E isso é uma grande verdade.

Gostaria de apresentar uma dimensão que "resolve", ou melhor, nos deixa cônscios dos nossos verdadeiros problemas.

O problema do homem é sempre o mesmo desde sua criação e desobediência. O PECADO.

Portanto o homem mau não é vítima de nenhum sistema.
Isso é uma falácia.
O homem mau é mau, porque está caído e morto em seus pecados e delitos.
Nenhum homem é bom.
Aí, você pode querer relutar e contra-argumentar; "Mas eu não sou mau. Eu não bebo, não fumo, não bato na minha mulher e sou trabalhador honesto".
Digo que essas coisas são qualidades reais. Qualidades que graças a Graça comum de Deus foi dada a todos os homens para que tivessem alguma qualidade de vida. Porque, imaginem; Se vivêssemos num mundo onde não existisse nenhuma qualidade humana dessas? Seria impossível.

Mas a questão mais profunda é que só um regenerado por Jesus Cristo pode enxergar em si os "lixos" contidos em seu ser e ter condições de lutar contra sua própria natureza pecaminosa. Deus revela aos homens regenerados suas mazelas e o capacita a mudar seu caminho.
O homem natural não busca a Deus e não ama a nada verdadeiramente a não ser seu próprio mal.

Resumindo;

Nenhum sistema político; e cito o Socialismo porque é o que pretende ser mais "piedoso", pode transformar um só homem em seu interior.
Por isso não existem vítimas do sistema, mas existem homens maus, 100% maus, sem nada a se gloriarem por si mesmos.

Veja só onde baseio minha tese:

Romanos 3:9-22

9 Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado;
10 Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer.
11 Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus.
12 Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só.
13 A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios;
14 Cuja boca está cheia de maldição e amargura.
15 Os seus pés são ligeiros para derramar sangue.
16 Em seus caminhos há destruição e miséria;
17 E não conheceram o caminho da paz.
18 Não há temor de Deus diante de seus olhos.
19 Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus.
20 Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado.
21 Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas;
22 Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que crêem; porque não há diferença
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Diego Venancio
Músico, missionário,um pecador e regenerado em Jesus Cristo.