9.7.17

Infância

Como era lento o tempo
Como era grande meu quintal
Como eram doces as frutas
E davam em pés

Como eram sabidos os adultos
Eram sem fim os motivos
Eram de vento os moinhos
E giravam sem parar

Eram eternas as tardes
Eram manhosas as manhãs
Eram dias  em anos
E vasos  davam flor

Era poema
E prosa
E cor

Era azul
Era lilás
Eram cores e cheiros

Vó Lola e Luiza
Nego e Lindo
Histórias e pele gasta

Eram tempos
Em tempos
Feitos
Tardes de verão

23.6.17

estações





se os verões chegassem antes
e durassem enquanto houvesse picolés
que chovesse sem guarda-chuva
nem culpa
nem pressa
que uma andorinha só fizesse
quantos verões fossem
o medo não habitaria o verão

o outono fosse de folhas craquelando
e ventasse boa brisa
e folhas fossem caindo
feito benção
para que novas surjam
do verde ao amarelo ao farelo
do farelo, lembranças...

no inverno nevasse
mesmo em imaginação
o frio juntasse corações
e cachecóis
e chocolate quente
e bolo de fubá
fosse abraço de mãe, avó e gerações...

e a primavera nos lembrasse
dos lírios e dos campos
das aves e dos céus
das cores e sabores
e lembrasse Deus

24.12.15

O natal é todo dia

debaixo daquela ponte
nasce o salvador do mundo
o grande rei chegou
envolto a panos imundos

nas infiltrações das paredes
insetos vinham lhe espiar
a barata, a pulga e o percevejo
vieram ao Rei visitar

os gatos e os cães sarnentos
trouxeram seus talentos
os gatos vieram cantando
e os cães o rabo abanando

os reis da rua apareceram
mais do que três. Surpreenderam!
são mendigos e maltrapilhos
coração limpo trazem consigo

naquele lugar sem luxo
que muitos chamam de lixo
repousa o menino Jesus
que o escuro fez em luz

e todos ali contemplavam
o rei que agora dormia
e juntos concordavam
que o Natal é todo dia!
__________
ev melo

18.8.15

A menina e o rapaz

O ano era 96, os cabelos cacheados e o olhar era sagaz
Tantos sonhos, tantos planos, era só uma menina
Sonhando com seu rapaz...
Sem demora ele veio, lindo, um príncipe em seu cavalo vindo
Ali, de mãos dadas, a menina e o rapaz

Eram vistos sempre juntos, vivendo, cantando, suspirando
Seguindo em frente, criando histórias e memórias
Todos os deuses conspirando...
Brincando, sorrindo e também chorando a morte de alguém
Ali, abraçados, a menina e o rapaz

Muitos anos, muitos planos, muita vida que rolou
Suspiros e amassos deram lugar à calmaria
Da amizade que virou
Vestida de branco lá foi ela, percebeu, menina já não mais era
Ali, ajoelhados, a menina e o rapaz

Dias cinzas vieram, a lúdica e esperada alegria foi fugaz
Ela sentia tudo estranho, tudo fora do lugar
Ele, ainda seu rapaz
Não entendia sua tristeza, a ambos faltava a clareza
Ali, desesperados, a menina e o rapaz

Veio a guerra, veio a dor, veio também algum rancor
Em busca de cura seguiram, distintos e distantes
Voaram longe com furor
Diz que se esbarraram outro dia, parece que numa esquina
Ali, dois estranhos, a menina e o rapaz

Ela nele pensa ainda, com gratidão e com carinho
E talvez alguma culpa, pela menina que não foi
Ele vive em seu cantinho
Protegendo sua cura de um passado dolorido e sem ternura
Ali, bem guardados, outra menina e o rapaz
__________
- Priscila Ferminio
Um ser inquieto e talvez um tanto inconformado (demais). Uma alma oito ou oitenta - sempre em luta com a segurança do oito diante da graça do oitenta... Implanta sistemas de gestão fiscal pra ganhar a vida. Canta e brinca de confeitaria pra vivê-la.   

24.7.15

Kol Brasilis - Brigas nunca mais

Está no ar o novo vídeo do Kol Brasilis: Brigas Nunca Mais (Tom Jobin/Vinicius de Moraes)


Caso goste de mais esse trabalho, ajude a divulga-lo compartilhando-o. 
Também convidamos a assinar nosso canal no Youtube.

SOBRE O ARRANJO:
Brigas Nunca Mais foi um arranjo que eu escrevi para explorar mais essa pegada brazuca com harmonias jazzísticas. Escrevi sua primeira parte em 2004 (antes do improviso), mas o pessoal do Kol teve dificuldade para cantá-lo, dadas suas dissonâncias. Dez anos depois, com o grupo mais amadurecido, terminei o arranjo e o pessoal conseguiu fazê-lo.

Partitura: http://friendship.com.br/kbd/Brigas_Nunca_Mais.pdf

Curta a nossa página no facebook: https://www.facebook.com/pages/Kol-Brasilis/188710351211794

ESTAMOS BUSCANDO UM CANTOR: BAIXO
Estamos buscando um cantor para nos auxiliar na voz do Baixo. Se você souber de alguém que se interesse por esse tipo de projeto, somos de Santo Andre-SP, e ficaríamos agradecidos de uma indicação. 

Obrigado.
__________
- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.

20.7.15

o autodidata

há pelo menos 3 tipos de autodidatas. o gênio, aquele que simplesmente sabe. o esforçado, que lê manual, livros, pesquisa no google e então executa. e o preguiçoso, que se auto intitula intuitivo, mas na verdade é porque não é gênio e não tem vontade de estudar tanto.

ao menos uma coisa é comum aos 3 tipos, a necessidade de colocar em prática aquilo que aprende (ou está em fase de aprender).
enquanto o gênio… Bom gênio é gênio, ele simplesmente sabe. nem para para entender de onde sabe, vai lá e executa. é gênio. sujeito chato. deixa ele para lá.
o esforçado se cerca do máximo de conhecimento e certezas para aí então  partir para a prática. é um sujeito metódico. e medroso, diga-se.
já o intuitivo, ou preguiçoso, não liga de correr riscos, é um ser aventureiro. a intuição exige isso. nem sempre (quase nunca) ele vai colocar na prática aquilo que já domina. na verdade, o intuitivo vai justamente aprendendo enquanto pratica, este é seu processo de auto aprendizagem. sujeito corajoso.

eu sou intuitivo. preguiçoso. sou ué.

chega aquela tv nova e o que faço? bato olho no manual, que é chato, quase sempre em preto e branco. chato. deixo de canto, pego o controle e saio fuçando. com celular, computador e qualquer outra coisa que tenha mais do que uma função.

já meio que apaguei nosso primeiro computador, um 386, porque entrei no setup (tinha aprendido um dia antes, era só apertar F9 na iniciação) e fui alterando alguns parâmetros. fiz besteira, deixei meu pai puto e perdemos tudo o que tínhamos no nosso potente computador. faz parte.

mas essa minha mania vem de muito antes. 

eu estava na 2a-Série do 1o grau, aprendendo a escrever direito, textos mais complexos. me lembro bem, era a professora hélide. aula de língua portuguesa, exercício de ditado. ainda existe isso? acho que sim né.
ditado era legal, silêncio na sala, ouvidos atentos à leitura da professora, a qual deveríamos todos transcrever no caderno. era a 2a-série, então a professora ditava até a pontuação. 

"ponto final,na outra linha, parágrafo e travessão"
" - Joãozinho (vírgula) pegue sua bola e venha para casa (ponto final)"

outra característica do autodidata é ser curioso. dias antes do dia do ditado, eu havia visto, sabe-se lá onde, um texto qualquer onde achei uma vírgula engraçada. ela tinha um pingo em cima. 
para que serve? quando uso? qual a diferença? não sabia. mas descobriria em breve.

a cada vírgula ditada pela professora hélide, eu lá metia um ponto-e-vírgula. todo satisfeito. 
'aposto que sou o único que conhece essa vírgula com pingo'.
e assim foi, a professora ditava ',' e eu transcrevia ';'.

acabado o ditado, todos destacam a página do caderno, com o devido nome anotado, e passam as folhas, da última carteira à primeira e o primeiro da fila levava à professora. eu era o primeiro da minha fila, logo, meu ditado ficara em cima de todos.

a professora começa a corrigir, um por um, e eu lá na minha carteira percebo caretas, gestos de estranhamento, cara de interrogação.

'evandro, venha cá'. 

gelei a espinha. essa é outra característica do intuitivo (ao menos é a minha, até hoje), ao perceber que possivelmente fez besteira, a espinha congela, de baixo para cima. chega a cair uns 3 graus na sala.

lentamente me levanto, caminho com passos pequenos, trêmulos, até a mesa da professora, que ficava pouco mais de 1 metro da minha.

'evandro, porque você usou ponto e vírgula ao invés de vírgula?' perguntou ela, complementando com 'eu ainda não ensinei quando se usa ponto e vírgula'.

fiquei mudo, não sabia exatamente o motivo, apenas tentei.

'está tudo errado', disse em voz baixa, para si mesma, pensando o que faria para me dar uma nota. 
vale destacar que eu era um bom aluno, queridinho da professora, da turma da frente, inteligente até. não do tipo que ganhava apenas 'A', mas que raramente descia do 'B'.

bem verdade que naquele dia, naquele ditado, seguindo as regras de correção, eu teria tirado um 'F'. mas a professora levou em conta meu histórico, eu acho.

ganhei um 'C' e um aviso, 'não use o que ainda não aprendeu a usar'.

digamos que eu aprendi mais ou menos essa lição.
__________
ev melo
aprendo; logo existo.

13.7.15

O primeiro atropelamento a gente nunca esquece

Das pequenas violências urbanas a que estamos contingencialmente submetidos, posso me considerar digno de um cartão de fidelidade para a modalidade assalto. Ok, que ser vítima de quatro assaltos em toda a vida até o momento, um a cada 11 anos, não chega a ser uma frequência tão grande assim, mas combinemos que em um mundo que se pretende civilizado e que deveria ser seguro, é uma taxa muito alta.

Mas há outras modalidades desse tipo de violência e que, em algumas delas, podemos cada um de nós ser o protagonista no papel de vilão, com ou sem culpa. É o caso do atropelamento. Quando isso ocorre pela primeira vez, é um acontecimento e, por menor que seja, é acompanhado de uma grande carga dramática.

Essa semana “debutei” nessa modalidade no papel de vilão, ainda que, por minha atitude de querer fazer valer os direitos do pedestre, já me envolvi em situações de risco real de ser atropelado em faixa de pedestre, um deles quase atropelamento quando me joguei por cima do capô de um carro para não ser atingido nas pernas em uma faixa de pedestres perto de casa. Mas não considero um atropelamento de fato porque o motorista parou a tempo e eu me projetei sobre o capô como medida de segurança; se não tivesse feito isso, provavelmente o carro teria apenas encostado em mim.

Quanto a atropelador, na realidade já tinha passado por essa experiência, mas não a considero, porque foi o atropelamento de uma pomba. Sempre evitei atropelar pequenos animais, claro, mas há muitos anos transitava por uma rua na região do Brás, em São Paulo, a uma certa velocidade um pouco acima dos 40 km por hora quando uma pomba, de tantas outras naquela rua, não conseguiu voar e ouvi o barulho do seu pequeno corpo passando por baixo das rodas do carro. Olhei pelo retrovisor a tempo de ver suas penas esvoaçando pela traseira do carro. A cena das penas esvoaçando me pareceram tão boas que não consegui ficar com dó da pomba, também por ser um animal com característica de praga urbana, ainda que haja controvérsias. Mas eu já presenciei, em duas ocasiões que me lembre, pequenos pássaros se chocando contra o para-brisa do meu carro em estradas e fiquei muito chateado. Outra vez, em uma estrada vicinal de Mauá, a caminho de Suzano, um grande rato de repente cruzou a estrada correndo. Meu impulso imediato foi frear e desviar dele, o que consegui com sucesso. No momento em que esses eventos se dão, nosso instinto de preservação de um ser vivo fala mais alto e, mesmo sendo um rato, a primeira reação é tentar não feri-lo. Engraçado isso.

Vamos ao atropelamento em si.

No feriado da consciência negra fui com o Felipe ao “Ipiranguinha”, uma praça em Santo André. Depois de um bom tempo lá, a noite tinha começado a cair, resolvemos ir embora. No caminho ele me disse que queria passar no Parque Central. Feriado, não tinha porque negar o pedido do meu caçula. Desviei o caminho e fui para lá. Chegando ao parque, o estacionamento estava meio vazio e, bem ao lado da entrada, havia 2 vagas vazias. Pela lei do menor esforço, resolvi estacionar na primeira vaga, a de fora. Como tenho o hábito de estacionar de ré, parei o carro e, bem lentamente, afinal não havia pressa, fui dando ré enquanto olhava pelo retrovisor direito para deixar o carro alinhado na vaga. Foi quando ouvi gritos. 

Tudo fui muito rápido. No primeiro instante, os gritos poderiam ser qualquer coisa, de forma que não parei o veículo. Mas, no instante seguinte, ouvi o guardador de carros do estacionamento correr em minha direção e gritar “Para!” Parei enquanto ouvia o choro de uma criança. “Vem pra frente!” Desengatei a ré e acelerei. Parei, bastante assustado, e uma imagem funesta atravessou minha mente: uma criança em um velocípede embaixo do meu carro. Abri a porta, saí e corri em direção ao aglomerado de algumas pessoas em volta de uma garota de uns 10 ou 11 anos. Por um instante começaram a gritar comigo e a me insultar: “Você atropelou a menina!” Por um momento achei que o guardador viria em cima de mim. Eu disse: “Gente, eu não vi nada! Onde vocês estavam?” Mas ninguém me respondeu, porque o objetivo era atender a menina.

Para encurtar a história, coincidentemente vinha para o estacionamento uma senhora que, pela sua atuação, me fez crer ser uma médica ortopédica ou ter conhecimentos de ortopedia, pois ela tomou conta da situação, desaconselhou o que estavam fazendo com a garota e, muito calmamente, fez tudo o que era necessário para constatar que talvez nem fratura tivesse ocorrido. A roda do veículo tinha passado sobre o dedão da garota. Nada mais que isso. Obviamente que deve ter doído bastante, ela chorou, estava nervosa, mas depois de alguns minutos, após fazer várias verificações, a suposta ortopedista lhe perguntou: “De 0 a 10, sendo zero ‘não dói nada’, 10 ‘dói muito’ e 5 mais ou menos, que pontuação você dá?” E apertou o dedão da menina: “Dois”. Ela sorriu e disse: “Acredito que nem fraturou, como eu havia pensado inicialmente. O inchamento é normal; se não parar de doer em algumas horas, levem ela ao hospital, mas não deve ter acontecido nada”.

Depois de passada a confusão inicial, tanto o guardador e um senhor que parecia ser o pai da garota, comentaram comigo, em tom de desculpa: “Você não tem culpa, você não viu.” As mulheres que estavam no grupo nem olharam na minha cara. Na realidade, em vez de caminharem pelo espaço dos pedestres, eles resolveram cruzar pelo meio das vagas dos carros e, como estava meio escuro, não os vi. Quando comecei a dar ré, acredito que eles se deram conta que eu estava estacionando e não tinha visto que vinha gente se aproximando da vaga onde eu iria estacionar. Como eu estava olhando para o outro lado, naturalmente não vi. Possivelmente, acreditando que eu pararia, ainda que estivesse bem devagar, eles continuaram caminhando. Foi quando eu atropelei o dedão da garota. 

Saí de lá com a consciência tranquila de não ter feito nada errado, afinal estava estacionando bem devagar, na vaga de automóveis, no espaço que, antes de eu fazer a manobra para estacionar de ré, estava vazio. Eu não tive culpa se os pedestres resolveram ignorar o espaço para eles caminharem e resolveram cruzar pelo meio dos carros. Quando se ignoram as regras de segurança, colocar-se em uma situação de risco é a consequência: foi o que eles fizeram. Mas não posso deixar de dizer da sensação extremamente desagradável de ter vivido uma situação desse tipo de violência urbana, ainda que eu não tenha sido o responsável (ou o maior responsável) pelo acidente, justamente pela atitude no início, das pessoas gritando comigo e algumas até me insultando, e pelo fato de que a suposta ortopedista, a suposta mãe da garota e outras mulheres presentes, terem ignorado totalmente minha presença, meu esboço de tentativa de ajuda, talvez porque me viram como “o cara que atropelou a garota”, ignorando totalmente o fato de que tudo aquilo aconteceu porque eles se portaram de maneira incorreta, colocando em risco a integridade física deles mesmos. Foi uma sensação realmente estranha. Senti como se eles tivessem me acusado de ser um irresponsável atropelador, quando na realidade quem criou a circunstância de atropelamento foram eles mesmos, já que vinham de um ponto cego do meu momento de manobra e se dirigiram justamente para a vaga que eu estava estacionando, em vez de caminharem na via de pedestres.

Por fim, não menos interessante, ao voltar para o carro, o Felipe estava assustado e, sacando o que aconteceu, desistiu de ir para o parque. Manobrei e abandonei o estacionamento. Choroso me dizia que não conseguia esquecer o ocorrido e, numa determinada altura, me disse: “Pai, você bebeu vinho! Você está bêbado!” Eu ri para mim mesmo e lhe respondi: “Não, Felipe, eu não bebi vinho; se tivesse bebido, realmente não poderia dirigir”. Fiquei contente ao perceber que, mesmo aos 6 anos, ele já tem essa consciência. De alguma forma, a educação que ele vem recebendo, tanto em casa quanto na escola, estão funcionando nesse aspecto.
__________
- Obadias de Deus
Músico que ganha a vida com sistemas, casado, dois filhos, sonhador e especialista em projetos  inconclusos. Vive no limiar da vida cotidiana e de seus devaneios que, ele nunca perde as esperanças,  algum dia darão certo, mas muito provavelmente não.